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A bem da Nação

MUITAS E DESVAIRADAS GENTES – 6

 

 

 

Entrámos no Kerala por Kumily, no alto duma estrada de montanha que nos levou da planície tamil a um planalto que só lá mais para a frente se desfaz na planície keraliana, já na Costa do Malabar.

 

Uma mulher que fuja com o amante não abandona o marido, livra-o de uma mulher infiel.

 

Diz-se que o dinheiro não faz a felicidade: evidentemente alude-se ao dinheiro dos outros.

 

Sacha Guitry.png

 

Sim, foi preciso chegar a Cochim para me lembrar de Sacha Guitry. Como assim? Pois pelo simples facto de este actor francês ter sido uma das raras expressões de humor durante o regime pró germânico de Vichy.

 

E isto porque os indianos não emigrados, à semelhança dos alemães, não têm sentido de humor: os alemães, certamente inspirados pelos seus sorumbáticos deuses do Walhala numa missão moralizadora de povos menos carrancudos, os hilários; os indianos, no seu esgravatar constante pela sobrevivência física, apesar da inspiração de Ganesh, o deus da felicidade, bonomia, humor.

 

Ganesh.png

 

É que em Cochim assisti a uma representação teatral muito bem-humorada levando-me a reconhecer que o erotismo védico não é humorístico e que «primum vivere, deinde philosophare». Esta prioridade não deixa, pois, tempo para chalaças. Como na Vichy de Pétain e de Laval. Malgré tout, Guitry fazia humor. E por isso me lembrei dele.

 

Teatro em Cochim-NOV15.jpg

 

Palco totalmente despido de cenários, só as paredes, um narrador munido de um tamborim, uma personagem principal (à direita, na foto) e uma outra personagem que só entra na última cena de um espectáculo de mímica e som perfeitamente inesquecível pela subtileza alcançada.

 

Na primeira parte do espectáculo, a mímica de todas as expressões humanas desde a alegria à tristeza e ao rancor passando pelo espanto, pela sedução, pelo medo, pela coragem... Sem uma palavra, apenas o tamborim do narrador que só falou no início e se calou durante o resto do espectáculo. Na segunda parte, a sedução da personagem principal, pretensamente feminina, à secundária, obviamente masculina. Troca de razões, rejeição da abordagem, ira desbragada e revelação de que, afinal, a sedutora era um demónio assoberbando o inocente deus.

 

A eterna luta entre o bem e o seu contrário, entre deuses e demónios.

 

E por que é que o mal há-de ser sempre personificado no feminino? Cada vez mais me convenço de que os autores (não os fundadores mas talvez os discípulos escritores) de muitas das religiões que por aí pululam não gostavam de mulheres.

 

Até porque, como Guitry, sou a favor do costume de se beijar as mãos de uma mulher quando somos apresentados pois, afinal, é preciso começar por algum lado.

 

 

Lisboa, 4 de Dezembro de 2015

 

 

Henrique, navegando na baía de Cochim-NOV15.jpg

Henrique Salles da Fonseca

(navegando na baía de Cochim, NOV15)

MUITAS E DESVAIRADAS GENTES – 1

 

 

 

Sim, o título é de inspiração medieval no sentido de que então se considerava desvairado todo aquele que agia segundo padrões diferentes dos do observador. E nesta viagem, para além de muita, vi gentes desvairadas.

 

Saídos de Lisboa rumo ao Dubai (nesta que era então a minha terceira passagem pelos Emiratos Árabes Unidos), logo vimos homens de bibes brancos compridos até aos pés e mulheres completamente tapadas de vestes negras que nem os olhos mostravam. Não me preocupam os bibes brancos dos homens. Se gostam de se apresentar em tais preparos, o problema é deles mas os resultados são penosos à nossa vista desprevenida quando saem dos locais em que se aliviaram e, não sabendo utilizar os apetrechos ocidentalizados que as casas de banho disponibilizam, encharcam as ditas vestes e exibem particularidades que qualquer um de nós, homens, dispensaria testemunhar. Quanto às vestes femininas – suponhamos que estão mulheres sob tanta negritude – essas, sim, preocupam-me. E, para além de me preocuparem relativamente à comodidade de quem assim é coberta, revoltam-me a ponto de afirmar que só farei as pazes com o Islão quando os seus crentes reconhecerem à mulher um estatuto de dignidade semelhante à do homem. Não perco tempo com argumentos teológicos (que sei serem infundados com base mesmo na interpretação literal do Corão), apenas peço que esses boçais deixem as mulheres respirar livremente. Só isso e nada mais, por enquanto, antes de esperar pelos resultados da exegese da Escritura Sagrada islâmica actualmente em curso apenas na diáspora sob pena de perigo de vida a quem a realize localmente.

 

Quanto às gentes ocidentalizadas, por naturais à nossa vista, não dá para tecer reparos. E já são a maioria. Mas isso é pelo lado de fora; não falei com ninguém o suficiente para descortinar o que lhes vai por dentro. Mas adivinho: os homens, indiferentes; as mulheres, em campanha «pro dignitate».

 

E dali rumámos a Chennai, na Costa do Coromandel, ou seja, a costa oriental da Índia. Voo sem história durante cerca de quatro horas, o que parece salto de pulga perante as oito horas bem esmifradas amiúde a mais de mil quilómetros à hora de Lisboa ao Dubai.

 

 

 

Bem preveniam os Serviços Meteorológicos de que por aquelas bandas chovia. Mas nós achávamos que era engano pois a época das monções já acabara. Pois! Naquela zona há a chamada «pequena monção» durante os meses de Outubro e Novembro em resultado de os ventos da monção normal esbarrarem já secos nos Himalaias, fazerem ricochete voltando para Sul e humedecendo-se progressivamente enquanto percorrem o Golfo de Bengala até ao Sri Lanka encharcando então quase todo o Tamil Nadu. E nós estávamos lá para levar com todo aquele chuveiro a bem mais de 30º centígrados.

Monção do Nordeste.jpg

Monção em Chennai.jpg

 

A nossa viagem começou em Chennai, atravessámos durante uma semana todo o Tamil Nadu, entrámos no Kerala e fomos até Cochim. Daí, voámos para Colombo, no Sri Lanka, viajámos até Kandy, o grupo voou de Colombo ao Dubai e daí a Lisboa mas nós prolongámos a viagem até Goa, a Dourada.

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(continua)

 

Lisboa, 30 de Novembro de 2015

 

Henrique-Arco dos Vice-Reis, Velha Goa-NOV15 (2).j 

Henrique Salles da Fonseca

(Velha Goa, Arco dos Vice-Reis, Novembro de 2015)

PROEZAS, CAUSAS E EFEITOS

 

 

ConnectingEuropeFacility-CEF.jpg

 

Muitos se perguntam como é que a Índia pobre se notabilizou em Tecnologias de Informação

 

Tenho pensado na razão dos grandes feitos e os seus resultados em iniciativas arriscadas e complexas. Ao ser Portugal pequeno e com poucos habitantes como foi capaz de proezas chegando por mar a zonas longínquas e ricas das quais só havia notícias difusas por palavras em cadeia de mercadores e exploradores.

 

A cuidada preparação desta longa aventura com permanentes actualizações de dados e mapas recolhidos em cada expedição fez aprender a dar passos mais largos. Havia, claro, capacidade de decisão e meios, mentes dedicadas e empenhamento. Se havia uma Índia rica, chegar primeiro era de inegável vantagem porque as outras potências não tardariam. A aventura e o que ela poderia trazer deve ter sido mobilizadora de um trabalho inteligente e imaginativo para afirmação da grandeza do país. Na realidade, a zona da Índia actual foi no conjunto sempre muito mais rica do que toda a Europa junta até ser destruída pela colonização inglesa.

 

Nos dias de hoje muitos se perguntam como é que a Índia pobre se notabilizou em TI (Tecnologias de Informação) a ponto de se tornar a maior potência. Partiu do zero absoluto e hoje alguns têm a resposta fácil de que eles têm queda para as matemáticas ou para o cálculo mental. Mas isso pouco explica.

 

Para minha surpresa, um facto curioso e dispendioso que deve ser tema de reflexão para quem queira criar actividades de primeira linha colocando o país no mapa de bem-fazer, é este: a Infosys, segunda maior empresa de TI da Índia fundada por um conjunto de sete engenheiros que trabalhavam noutra empresa, a Patni Computers, foi desde o início um modelo de empresa moderna e de vistas largas, talvez a responsável pela forte afirmação da excelência das TI no mundo como em Portugal foi a Escola de Sagres com o Infante D Henrique à cabeça.

 

O arquitecto da Infosys, Narayana Murthy, pôs em prática medidas inteligentes que a puseram na vanguarda das TI e revolucionaram as mentes. E algumas práticas acabaram por ser modelo do sector depois transpostas para outros. Por exemplo, todos os engenheiros recrutados tinham logo à entrada na empresa um treino de quatro meses pago numas instalações de excepcional qualidade, arquitectura,

enquadramento paisagístico, como nunca se vira na Índia nem em qualquer parte do mundo.

 

As instalações de treino em Mysore têm capacidade de 16 000 de cada vez com instalações residenciais, salas de aula, ginásios, refeitórios, piscinas campos de jogos, etc., tudo do melhor, muito bem mantido e conservado para condizer com a ideia da excelência desejada no intangível, absorvida dos aspectos materiais como as instalações e jardins.

 

E porquê tanto dispêndio num país pobre? Porque é altamente rentável para a empresa e para o país: se não se faz qualidade sempre, não se chega ao topo.

 

O treino apropriado, com exigência no trabalho, faz realizar sempre o melhor ou aprender e não varrer para debaixo do tapete tão habitual.

 

Não surpreende que a Infosys tenha sido das empresas indianas mais valorizadas em bolsa alcançando mais de 30 000 milhões de dólares quando ainda não facturaria um décimo desse valor. Criou milhares de multimilionários portadores das suas acções.

 

E as outras empresas de TI seguiram o exemplo dando toda a ênfase à formação como condição para um trabalho impecável sempre causa de avultados retornos e força inovadora.

 

A boa tradição criada nessa empresa de TI é hoje felizmente generalizada. Para evidenciar a atracção do trabalho bem feito, citaria a presença forte de potentados de criação de emprego qualificado a TCS, grupo TATA, com 330 000 trabalhadores,

Infosys com 165 000, a Wipro com 155 000, estrangeiras como a IBM com 150 000,

a Accenture com 90 000, a Cap Gemini com 50 000, todas na Índia. E todas elas numa maré de novos recrutamentos, a Infosys já anunciou recrutar 30 000 este ano.

 

Práticas de bem-fazer que revolucionam sectores de actividade são uma preciosidade.

 

Porque o país faz-se atractivo como o foi com os Descobridores. Atrai investimentos e multinacionais não por haver uns quantos maduros sobredotados mas porque há uma plêiade de gente esforçada capaz e treinada, habituada a níveis de prestação elevada, sempre.

 

Eugénio Viassa Monteiro 

Eugénio Viassa Monteiro

Professor da AESE e presidente da AAPI-Associação de Amizade Portugal-Índia

 

ÍNDIA

 

Histórias da história – 3

 

  1. A função do “guarda-sol” e os Maharajadhiraja

 

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Maharajadhiraja significa o “Grande Rei de todos os Reis”! Época obscura da história da Índia, relata ainda que Mahapadma Nanda, filho de um barbeiro, um dia se revoltou com a classe política dominante, os ksatriyas, os governantes, guerreiros, comandou o maior exército que teria chegado a 200.000 homens de infantaria, 20.000 cavaleiros, 2.000 carros de combate, as bigas, e 3 a 6.000 elefantes de guerra.

 

Ele e seus descendentes reinaram por cerca de cem anos, um deles por casamento com uma mulher Chandra dando origem à dinastia Maurya.

 

Mahapadma foi portanto um grande rei e o primeiro a ser descrito como o “Soberano de uma Umbrela”, (guarda-sol)! Um conceito que relaciona com a ideia budista de cakravartin, “governante do mundo”, associando a ideia de que toda a política lhe estaria subordinada, e os historiadores indianos passaram a considerá-lo o primeiro grande “imperador” do Norte da Índia.

 

Este hábito durou até ao começo do século XX quando alguns dos últimos Maharajas ainda se exibiam montados em elefantes ricamente enfeitados, a cavalo, num automóvel ou mesmo a pé, sempre alguém carregava sob sua cabeça o “guarda-sol real”, o símbolo do poder.

 

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Maharaja Samarjitsinh Gaekwad

 

Com essa mania de grandezas os reis Kushanas, que terão vindo da Ásia, central também se davam o título, trazido da China, de Devaputra, filho de Deus!

 

O livro Mahabharata não é muito favorável aos reis, onde várias vezes aparece o adágio:

“Pior do que dez matadouros é uma prensa para óleo, pior do que dez prensas para óleo é uma hospedaria, pior do que dez hospedarias é uma meretriz e pior do que dez meretrizes é um rei.”

 

  1. A Utopia de Gupta

A visita de Fa Hian ou Fa-hsien, ou Faxian

 

A perfeição está atingida” declara a última das três inscrições em Junagadh, “enquanto ele, Skanda Gupta, está reinando, em verdade, nenhum homem entre seus súbditos cai longe do Dharma, não há ninguém que esteja aflito, na pobreza, na miséria, avaro, ou quem, digno de punição, é mais posto em tortura.” Uma representação tão brilhante da sociedade Gupta é de se esperar de um panegírico real.

 

No entanto isto é corroborado por um estrangeiro e presumivelmente imparcial testemunha ocular.

As pessoas estão muito bem, sem imposto ou restrições oficiais. Os reis governam sem punição corporal; os criminosos são multados de acordo com a circunstância, levemente ou fortemente. Mesmo nos casos de rebelião repetida, cortam apenas a mão direita. Os atendentes pessoais dos reis, que o guardam à direita e à esquerda, têm salários fixados. Em todo o país o povo não mata nenhum ser vivo, nem bebe vinho, nem comem alho ou cebolas, com excepção dos Chandalas apenas.”

 

Para Fa Hian (Fa-hsien, Faxian, etc.), um peregrino budista da China, que visitou a Índia entre 400-410 d.C., o reino de Chandra Gupta II era de facto algo como uma utopia. Descendo para a Índia, pela trilha de Karakoram, Fa Hian viajou toda da bacia do Ganges em perfeita segurança, como visitou todos os lugares associados à vida de Buda. Só no lote dos Chandalas encontrou nada invejável; párias devido ao seu degradante trabalho, como trituradores de mortos, eram universalmente afastados e tinham que dar aviso da sua abordagem quando se aproximavam de outras castas para que estas se pudessem abrigar. No entanto, nenhumas outras secções da população foram desfavorecidas, sem mais distinções de casta, atraíram o comentário do peregrino chinês, e nenhum sistema de casta opressivo adiante lhe provocou censura ou surpresa. Paz e ordem prevaleceram. E se a paz era a paz de conquistas passadas, e a ordem da hierarquia social rígida de varna e a exclusividade profissional de jati, ninguém reclamava.

 

De outras fontes, vislumbramos uma sociedade diligente, bem como contente. Essas associações altamente influentes (sreni) regulavam elaborados sistemas de controlo de qualidade, preços, distribuição e treinamento para cada ofício e profissão. Eles também agiam como banqueiros, até mesmo para a corte real; e seus sresthin, ou vereadores, reuniam-se regularmente em um Conselho comum que tem sido comparado a uma câmara de comércio. O comércio continuou a florescer, tanto na Índia como no exterior. Quando Fa Hian voltou à China, foi então não pela rota terrestre mas a bordo de um navio indiano velejando de Tamralipti em Bengala. Depois de um naufrágio próximo ao largo da costa de Burma chegou a ‘Ye-po-ti', que pode ser Java, Sumatra ou Malaya. Lá, como também na Indo-China, ele constatou que os brâmanes floresciam apesar da lei de Buda não ser muito conhecida. Depois de mais alguns percalços náuticos, chegou à China, sempre na companhia de brâmanes e, então, provavelmente, a bordo de um navio indiano.

 

No que Fa Hian conta da Índia, Magadha aparece como algo especialmente impressionante. Suas cidades eram maiores e o seu povo, o mais rico e mais próspero, bem como os mais virtuosos. Na verdade, budistas já exploravam alguns sítios arqueológicos. Kapilavastu, a antiga capital de Sakyas e o berço de iluminados, era como um grande deserto sem rei nem pessoas; e do Palácio da Ashoka em Pataliputra permaneciam apenas as ruínas. Mas para um budista também havia muito o que comemorar. Stupas aos milhares, algumas de muitos níveis e de proporções gigantescas, pontilhando a paisagem – tanto quanto fazem ainda hoje nos centros fora da Índia, como os pagãos na Birmânia. Então, ao contrário de agora, o budismo ainda recebia o apoio de grandes secções da opinião indiana. Os mosteiros foram bem dotados; os monges poderiam ser contados em milhares. Oito séculos depois de Buda, somente Sri Lanka era mais budista. Para Samudra Gupta foi particularmente gratificante receber uma embaixada do Sri Lanka, cujas ofertas, juntamente com um pedido de autorização para construir um mosteiro no lugar da “Iluminação” de Buda, no Buddha Gaya, ele recebeu os presentes como uma forma de homenagem.

 

Sem estar muito preocupado com assuntos políticos, Fa Hian nada diz do Tribunal Gupta, nem de Chandra Gupta II, o maharajadhiraja – “O Rei de todos os Reis”. Talvez, como era normal durante a estação seca, a corte estava em movimento, recebendo a reverência e a consumir os produtos dos seus reis subordinados ou na condução de hostilidades com os sátrapas. Em Pataliputra, que juntamente com Ujjain parece ter servido como o capital de Gupta, o visitante chinês ficou mais impressionado com um festival anual. Ele foi marcado por uma magnífica procissão de umas vinte stupas em cima de rodas cujas torres eriçadas acomodavam imagens dos deuses decorados com ouro e prata, bem como a sessão com figuras de Buda e com a presença de Boddhisatvas de pé. Quando a procissão se aproximava da cidade, Hian Fa assistiu aos brahmacharis virem adiante para oferecer seus convites.

 

Como entre os ortodoxos e as seitas heterodoxas, ecumenismo ainda era a norma, os Guptas, apesar de se identificarem com o Senhor Vishnu e realizando sacrifícios védicos, incentivaram doações aos estabelecimentos budista e brahman com munificência imparcial. Ainda a separação física das duas comunidades, como nos conta Fa Hian, pode ser significativa. Mosteiros budistas eram geralmente localizados fora do centro das populações e influência, mas suficientemente perto para receberem alimento e instruírem leigos, mas também suficientemente longe para terem tranquilidade e isolamento. Os brahmacharis por outro lado, tecnicamente estudantes brahamanes, mas num estabelecimento de todo o ensino brahman, estavam localizados dentro da cidade e perto da corte.

 

8.- Zero e pi ‘p

 

Muito se fala sobre os algarismos que hoje usamos e que de uma forma genérica se atribui aos árabes, o que, para um leigo, como eu, não parece uma boa verdade. Aliás não há boas verdades: ou são ou não são! Os números 1, 2, 3 e 9 ainda se parecem com os árabes – virando os primeiros três 90° para a esquerda – ٩, ٨, ٧, ٦, ٥, ٤, ٣, ٢, ١, ٠ (aqui mostrados do direita para a esquerda), mas os próprios árabes chamam-lhes numeração indiana.

 

Uma pequena comparação mostra bem que os indianos usavam quase os mesmos sinais matemáticos:

 

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E, talvez o mais importante, foram eles que “inventaram” um novo sinal, o “zero”, representado por um ponto, e usado até hoje.

 

Desde há muitos séculos que a matemática indiana é conhecida. Já no século IV d.C. sabiam determinar o valor de p - pi – até à décima casa decimal.

 

No mundo ocidental, só no século XVIII é que William Jones um matemático galês, propôs o uso do símbolo π para representar a razão entre o comprimento da circunferência e seu diâmetro. Aliás foi esta a sua mais notável contribuição à matemática. Mais de mil e quinhentos anos depois de isso ser feito na Índia.

 

No século VI registaram-se exemplos do que antigos matemáticos gostavam de perguntar:

“Ó linda senhora, de olhos radiantes, diga-me, se você conhece o método de inversão, que número multiplicado por 3, depois adicionado com três quartos do resultado, a seguir dividido por 7, depois diminuído de um terço do resultado, depois multiplicado por si mesmo e diminuído de 52, extrai a raiz quadrada é depois de somar 8 divide por 10 e o resultado final é 2?”

 

A resposta parece complicada mas é fácil: é só seguir o caminho inverso:

 

[(2)(10)-8]2 + 52 = 196

√ 196 = 14

(14)(3/2)[70(4/7)] = 28

3

 

9.- Al Biruni na Índia – século XI

 

Como al-Biruni, o grande estudioso islâmico do século XI, expôs, os Hindus acreditam que não há nenhum país grandioso, só o deles, nenhuma nação como a deles, nenhum rei como o deles, nenhuma religião como a deles, nenhuma ciência, como a deles, e pensou que eles deviam viajar mais e misturar-se com outras nações; os seus antecedentes não eram tão intolerantes como a geração presente, acrescentou. Menosprezando atitudes do século XI, al-Biruni parece confirmar a impressão dada por escritores muçulmanos anteriores, que nos séculos VIII e IX, consideraram a Índia nada, quando comparada com tempos anteriores. Suas descobertas científicas e matemáticas, embora enterradas em meio a semântica e raramente lançadas para aplicação prática, foram prontamente apreciadas pelos cientistas muçulmanos e então rapidamente apropriadas por eles. Al-Biruni foi quem entendeu isso: a sua celebridade científica no mundo árabe deve muito a sua mestria de sânscrito e acesso à cultura indiana.

 

Aspectos da Índia do século XI, que al-Biruni omitiu nas suas críticas foram seu tamanho e sua riqueza. Ao contrário dos gregos de Alexandre, invasores muçulmanos estavam bem cientes da imensidão da Índia e imensamente animados pelos seus recursos. Além de produtos exóticos como especiarias, pavões, pérolas, diamantes, marfim e ébano, o país Hindu era famoso por seus fabricantes qualificados e seu movimentado comércio. A economia da Índia foi provavelmente uma das mais sofisticadas do mundo. Corporações regulavam a produção e forneciam crédito; as estradas estavam livres de assaltantes, portos e mercados cuidadosamente controlados e com tarifas baixas. Além disso, o capital era abundante e respeitável. Desde os tempos romanos, pelo menos o sub continente parece ter desfrutado uma balança de pagamentos favorável. Ouro e prata tinham vindo a acumular muito antes dos Guptas, e eles continuaram a fazê-lo. Figuras em Mamallapuram, esculturas e frescos de Ajanta são decoradas com jóias. Imagens divinas de ouro maciço são atestadas e os templos reais foram rapidamente se tornando tesouros reais, dotados com os frutos de suas conquistas.

 

O muçulmano devoto, embora aparentemente empenhado em converter os infiéis, encontraria seu “zelo” muito bem recompensado.

 

Jan. 2015

 

Francisco Gomes de Amorim

Francisco Gomes de Amorim

HISTÓRIAS DA HISTÓRIA

 

Índia – 1

 

1.- A QUEBRA DAS ÁGUAS

 

Na tradição hindu, como na tradição judaica, na cristã e até nos maias, a história de uma antiguidade “gerenciável” começa com um dilúvio. Renovando as obscuridades de uma velha ordem, a inundação serve um propósito universal em que estabelece seu único sobrevivente como o fundador de uma sociedade nova e homogénea, em que todos partilham a descendência de um ancestral comum. Um novo começo é sinalizado.

 

Na Bíblia a inundação é o resultado de descontentamento divino. Enfurecido pela desobediência e maldade dos homens, Deus decide cancelar a sua criação mais nobre; só o justo Noé e seus dependentes são considerados dignos de sobrevivência e dar à humanidade uma segunda chance. Muito diferente, à primeira vista, é o dilúvio indiano. De acordo com o mais antigo de vários contos, a inundação que afligiu o povo da Índia foi um acontecimento natural.

 

Manu, equivalente a Noé, sobreviveu graças a um simples ato de bondade. E, surpreendentemente para uma sociedade que adorava deuses do vento e da tempestade, nenhuma divindade recebe menção.

 

Quando Manu foi lavar as mãos numa manhã, um pequeno peixe veio ter às suas mãos junto com a água. O peixe implorou a protecção de Manu dizendo ‘dá-me guarida”. Vou te salvar. A razão que apresentou foi que os peixes pequenos eram susceptíveis de ser devorados pelos maiores, e precisava de protecção até crescer. Ele pediu para ser mantido num frasco e, mais tarde, quando superou isso, voltou para uma lagoa e finalmente ao mar. Manu agiu em conformidade.

 

Um dia o peixe avisou Manu de uma inundação iminente e aconselhou-o a preparar um navio e entrar nele, quando veio o dilúvio. O dilúvio começou a surgir na hora marcada, e Manu entrou no navio. O peixe então nadou até ele, amarrou a corda do navio para seu chifre - talvez fosse um espadarte – e passaram rapidamente para a montanha lá do Norte. Aí Manu foi orientado para subir a montanha, depois de amarrar o navio a uma árvore, e desembarcar somente após a água ter abrandado.

 

Daí foi descendo, e, assim a encosta da montanha do Norte passou a chamar-se Manoravataranam, ou descida de Manu. As águas varreram todos os três céus, e Manu sozinho foi salvo.

FGA-Manu salvo pelo peixe.jpg

Manu salvo pelo peixe

 

Tal é a versão mais antiga do dilúvio conforme consta no Satapatha Brahmana, dentre vários apêndices prolixos para os hinos sagrados conhecidos como os Vedas, que eles próprios estão entre as composições religiosas mais antigas do mundo. Redigidos na língua clássica do sânscrito, alguns dos Vedas datam de antes do primeiro milénio a.C. Juntamente com obras posteriores como os Brahmanas, além de dois grandes épicos em sânscrito, o Mahabharata e Ramayana, eles constituem uma gloriosa herança literária de onde todo o conhecimento da história da Índia antes de a.C. 500 tradicionalmente tem sido derivada.

 

Directo e claro, a história de Manu e o dilúvio serviu seu propósito de introduzir um novo progenitor da raça humana e, a aproveitou-se para explicar o nome de uma montanha. Tal, no entanto, era uma interpretação demasiado modesta para as gerações posteriores. Mito, a fumaça da história, é visto para sinalizar significados novos e mais relevantes, quando visto à distância de milénios mais tarde. Em tempo, a situação dos pequenos peixes susceptíveis de serem devorados por peixes maiores tornou-se uma metáfora em sânscrito para um estado anárquico de assuntos (matsya-nyaya) equivalentes à lei da selva em português. O dilúvio de Manu, como Noé, veio a ser visto como o meio de acabar com este caos. E quem melhor para orquestrar a matéria e para salvar a humanidade do que o Senhor Vishnu? Uma divindade menor quando os Vedas foram compostos, Vishnu desde então subiu como o grande salva-vidas do mundo no panteão Hindu e o segundo membro da sua Trindade. Assim, oportunamente, a inundação se tornou um símbolo da ordem-fora-do-caos através de intervenção divina e o peixe (matsya) reconhecido como o primeiro (avatar) das nove encarnações do deus Vishnu. Mito, seja qual for e quão remoto, serve as necessidades do momento. Assim na história da Índia, como em outros lugares.

 

Alguns historiadores dataram a inundação muito precisamente em 3102 a.C., sendo este o ano em que, pela computação elaborada, concluem que a nossa era actual, o Kau Yug na cosmologia indiana, começou quando Manu se tornou o progenitor de um novo povo, bem como o seu primeira grande rei e doador de leis. É provavelmente a primeira data credível na história da Índia, e, mesmo sendo um dos tais improváveis de exactidão, merece respeito.

 

2.-AJATASHATRUS e a LINDA KOSHALAN

Século V a.C.

 

Licchavis e Koshalans eram dois povos do Norte da Índia na base das montanhas do Everest. Os Koshalans seriam de origem “além montanhas”, da área central da China.

 

Ajatashatrus, do grupo Magadha, sem ser contestado, e respeitado pela sua conduta, foi elevado a rei em 460 a.C., quando seu pai, velho, não tinha mais possibilidade de exercer o comando. Logo foi envolvido em uma guerra com Koshala e uma poderosa coalizão de repúblicas liderada pelos Licchavis. Magadha estava prestes a dar mais um passo gigante em direcção à hegemonia na região média do Ganges.

 

O problema com Koshala parece ter surgido sobre um pedaço de terra nos arredores de Varanasi que Maha-Koshala tinha passado a Bimbisara, rei de Magadha, talvez o mais poderoso raja da região, como dote da sua filha Devi, irmã de Prasenajit. Além desta, Bimbisara tinha outras “rainhas principais”, como Chetaka, filha do rajá Licchavi e uma terceira, Kema, filha do raja Madda de Punjab. Quando Devi morreu de desgosto pela morte de Bimbisara, Prasenajit de Koshala, seu irmão, revogou a concessão da terra e quis controlá-la. Ajatashatru, o filho de Bimbisara, tentou retomá-la, mas parece inicialmente ter sido derrotado. Sua reivindicação para o disputado enclave foi, no entanto, reforçada quando o Prasenajit envelhecido, foi presa fácil do seu próprio filho, a caminho de Magadha como um suplicante. Sozinho, o velho rei chegou as paredes de Rajagriha e lá, enquanto esperava a noite para abrirem os portões, morreu de exaustão e exposição. Apesar de suas diferenças, Ajatashatru de Magadha prontamente honrou a memória de Prasenajit e jurou vingar seu tratamento pelo Koshalans. Aguardou a ocasião para primeiro lidar com outra grande ameaça ao seu reino e em seguida se beneficiar com a aniquilação do exército Koshalan; acampado no leito seco do Rio Rapti, foi subitamente apanhado por uma enchente. Daí em diante, embora as fontes tenham silenciado sobre os detalhes, Ajatashatru parece ter superado Koshala, que prontamente desaparece dos registros.

 

Esta importante conquista foi viabilizada por uma vitória decisiva de Magadhan na luta prolongada com seu principal vizinho, a República de Licchavi. Os Licchavis, com capital Vaisali eram a cabeça de uma confederação de repúblicas, ao norte de Magadha. Aqui novamente, porém, o problema dos Magadhas parece ter começado no reinado de Bimbisara e de ter sido extremamente complicado por um assunto do coração... ou de saias! Aliás saris!

 

Como se poderia esperar numa república, a bela Amrapali (ou Ambara-pali) não era uma princesa. Na verdade, ela era uma cortesã cuja perfeição física e contornos proeminentes assegurara sua elevação ao estatuto de um património nacional. Em outras repúblicas realizavam-se concursos de beleza elaborados para selecionar a principal cortesã, e isto também pode ter sido o caso em Vaisali. Mas Amrapali, como convinha a uma das mais devotadas seguidoras de Buda, era astuta, bem como graciosa. Embora seus favores supostamente fossem reservados “exclusivamente” para os 7707 cavaleiros Licchavi-raja, ela também exercia grande influência política e tornou-se, com efeito, a primeira-dama dos Vaisalis.

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A bela Amrapali, cujos favores estariam “reservados” para 7707 nobres Licchavis!

 

Foi, portanto, um golpe esmagador na auto-estima de Licchavi quando se descobriu, no meio de uma luta com Magadha, que o rei de Magadhan entrara em Vaisali disfarçado e, sem ser detectado, ali estivera em amores na deliciosa companhia da lindíssima e generosa Amrapali. O rei Magadha teve que pagar por sua indiscrição, e os Licchavis multiplicaram seus ataques no território de Magadhan.

 

Reconhecidamente, o detalhe desta história sobrevive apenas em uma fonte mais tarde tibetana que certamente teria inspirado versos pungentes e libretos de óperas. Mas a partir de outros textos budistas é claro que Bimbisara realmente incorreu na ira dos Licchavis e que algo nocivo e prejudicial provocou seu filho Ajatashatru em busca de vingança. A subsequente guerra parece ter durado pelo menos doze anos. Inicialmente ela foi agravada por uma luta de sucessão entre Ajatashatru e um dos seus irmãos. O irmão, que residia na Anga (presumivelmente como seu governador), recusou uma oferta generosa para ceder um colar de valor inestimável. Ele também reteve um elefante ainda mais admirável, que tinha sido treinado para agir como uma mangueira de chuveiro, polvilhando as senhoras da casa Magadhan com um spray deliciosamente perfumado quando elas fossem tomar banho. Sem dúvida tanto o colar como o elefante foram visto como uma grande regalia e símbolos de poder. A aquisição deles por Ajatashatrus foi, portanto, essencial para maior legitimidade de seu governo. Mas o irmão permaneceu desafiador e, temendo qualquer ataque, refugiou-se em Vaisali onde garantiu o apoio dos Licchavis.

 

Outro conto diz que outro item de disputa era uma montanha de onde escorria um unguento altamente valorizado, porque muito perfumado; ainda outro parece indicar uma ilha disputada no Ganges, que formou a fronteira de Magadha-Licchavi.

 

Sabemos de tais detalhes porque Ajatashatru decidiu consultar o Buda sobre iminentes hostilidades, e comentaristas mais recentes, budistas, decidiram gravá-las, embora vários a tenham aprimorado. Escultores de budistas seguiram o tema. Num painel do segundo século em Barhut (agora no Museu de Calcutá), um recatado e mais pacífico Ajatashatru é retratado chegando num elefante com um séquito de esposas e depois fazer a reverência diante do trono do Buda. Bem preservado no arenito castanho-avermelhado de Barhut, esta cena eloquente pode ser taxada como a mais antiga representação na arte indiana de uma figura histórica genuína. Textos budistas também mencionam que na sua última viagem ao norte, Buda, após seu encontro com o rei, mas antes de cruzar o Ganges, passou num canteiro de obras onde um novo forte de Magadhan estava sendo erguido. O lugar chamava-se Pataligrama.

 

Dez. 2014

 

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Francisco Gomes de Amorim

«GRATO PELA FÉ QUE RECEBI DEVIDO A ESTE POVO»

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HOMILIA DO PATRIARCA DAS ÍNDIAS ORIENTAIS

FÁTIMA, 13 DE OUTUBRO DE 2014

 

Amados irmãos e irmãs:

Permitam-me que comece por relatar uma experiência muito pessoal e muito preciosa: como sabem, é comum em lares cristãos que a criança seja introduzida à ideia de Deus com uma palavra: JESUS. Antes de saber quem é o Pai e o Espírito Santo, a criança sabe quem é Jesus e sabe que a Cruz vem ligada a Ele. Deu-se o mesmo comigo. A minha santa mãe falava-me de Jesus e sempre que via um crucifixo, levava-me a beijá-lo. O homem na cruz tinha de ter uma mãe, o ente mais próximo à criança. E assim, a segunda imagem ligada aos céus que ficou gravada na minha mente foi a imagem de Maria. Só que as nossas mães não costumam chamar Maria à Mãe de Jesus; dizem Nossa Senhora. Portanto, para mim, o nome da Mãe de Jesus era, simplesmente, Nossa Senhora. Ora, a minha mãe era devotíssima da Senhora de Fátima; por conseguinte, no meu entendimento infantil, fiquei por alguns anos na convicção de que Fátima era o apelido de Nossa Senhora: Nossa Senhora... de Fátima!

 

Foi, portanto, muito especial o relacionamento que tive com a Senhora de Fátima, já desde pequenino! E hoje, o meu coração transborda de alegria por me encontrar neste espaço bendito, a prestar pessoalmente a minha homenagem à Virgem Santíssima neste seu Santuário predilecto que, dia após dia, acolhe peregrinos, vindos de perto e de longe.

 

Queridos irmãos e irmãs, convosco sou também peregrino, vindo da Índia longínqua, mais especificamente daquele que foi, até meados do século XX, o Estado da Índia Portuguesa, quero dizer, Goa, Damão, Diu, Dadrá e Nagar Haveli. Hoje em dia, estes territórios estão dispersos pela vasta Índia e são constituídos por distritos administrativos separados, mas que continuam eclesiasticamente unidos sob uma só Diocese, a Arquidiocese de Goa e Damão.

 

Agradeço, muito cativado, o amabilíssimo convite que me foi dirigido por Sua Exª Reverendíssima o Bispo de Leiria-Fátima, o Senhor D. António Marto, para presidir às celebrações deste dia festivo aqui em Fátima. Este vosso convite deu-me imensa alegria, porque me proporcionou a rara oportunidade de vir até cá juntar-me a vós a cantar os louvores da Santíssima Trindade, guiados afectuosamente pela nossa Mãe Santíssima. Muito obrigado!

 

Saúdo de uma forma especial, in absentia, S.ª Ex.ª Reverendíssima o Patriarca de Lisboa, o Senhor D. Manuel Clemente, que é também o Presidente da Ilustríssima Conferência Episcopal Portuguesa. Uma saudação amiga aos meus queridos Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio – em especial ao Reverendíssimo Padre Carlos Cabecinhas, Reitor deste Santuário – Religiosos e Religiosas, fiéis comprometidos e ainda membros de outras confissões e crenças, aqui presentes, bem como a todos quantos nos estão unidos através da televisão e de outros meios de comunicação social.

 

Estamos no Santuário da nossa Mãe dos Céus. Somos seus filhos. E o Evangelho de hoje fala-nos de uma celebração de família, de uma festa de núpcias para a qual estão convidados Jesus e sua Mãe. Maria, como sempre, cheia de graça e caridade, está atenta à mais simples necessidade do próximo e sempre pronta a ajudar. Quando se apercebe que a família que os tinha convidado já não tinha vinho para servir e sabendo que tal situação expunha a pobre gente a um sério embaraço, ela, quase instintivamente, volve-se para Jesus. E apesar de o seu Filho manifestar total alheamento e parecer mesmo recusar o seu pedido de ajuda em prol da família angustiada, ela diz aos serventes: “Fazei tudo o que Ele disser.”  

 

Caros amigos: a mensagem que Maria tem para nós, hoje... e sempre, é a mesma: “Fazei tudo o que Ele vos disser; obedecei-Lhe em tudo e sereis satisfeitos, até à abundância”.

O que é que Jesus nos diz para fazermos? O que é que Ele nos pede? Na primeira leitura, temos São Pedro fazendo a sua primeira pregação, no dia do Pentecostes. A mensagem principal de Pedro é a mesma da primeira pregação de Jesus, feita no início da sua vida pública: “Arrependei-vos!”… “Arrependei-vos!”.  

 

Toda a família humana é convidada a esse encontro salvífico com Cristo. Para encontrar Cristo nas nossas vidas, para sermos banhados pela Sua luz, precisamos de nos arrepender dos nossos pecados, de rejeitar a Satanás e de abraçar a salvação; de rejeitar a morte e de abraçar a Vida, de ressuscitar! Aliás, este é o tema adoptado pelo Santuário durante todo este mês dedicado a Maria: “Arrependei-vos, porque Deus está perto”.

 

A segunda mensagem de Pedro é: “Sede baptizados”. O baptismo é o portal da salvação, o sacramento que nos torna filhos de Deus e irmãos de Jesus. E vem logo a terceira mensagem. Pedro promete: “Recebereis o dom do Espírito”. Na verdade, queridos irmãos e irmãs, não podemos viver a vida de Cristo sem recebermos o dom do Espírito. Qual é, então, a função do Espírito Santo nas nossas vidas?

 

Na segunda leitura de hoje, o Apóstolo João recorda-nos que aquele que recebeu o Espírito passou da morte para a vida. O Espírito, portanto, dá vida e livra-nos da morte do pecado!

 

Quando alguém ouve o chamamento de Cristo, converte-se a Ele, pede o baptismo e finalmente recebe o dom do Espírito Santo; nasce uma nova criação, nasce – ou renasce – um Cristão. A nova vida que ele recebe tem de ser nutrida, fortalecida. Esta missão cabe fundamentalmente à família. É na família que o compromisso da fé é energizado e encorajado – não há melhor lugar para que isso aconteça – porque a família é a base da sociedade e o lugar onde as pessoas aprendem, pela primeira vez, os valores que as guiam durante toda vida.  

 

Por outro lado, no entanto, a instituição familiar, como sabemos, está em grande crise. As rápidas e profundas transformações a que estamos assistindo na sociedade vão provocando um certo enfraquecimento ou mesmo abandono da fé na santidade do matrimónio, pondo em causa o próprio conceito de família.  

  

Consciente de que esta instituição básica da sociedade constitui um dos bens mais preciosos da humanidade, a Igreja está activamente envolvida na promoção dos valores perenes de família e procura ajudar os fiéis a descobrir a beleza e a grandeza do chamamento da família para o amor e para o serviço da vida.

 

Um sinal eloquente deste profundo interesse da Igreja pela família é a celebração que está a decorrer nestes dias em Roma, da Assembleia-Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos, que Sua Santidade, o Papa Francisco, convocou. Bispos escolhidos de todas as partes do mundo, entre os quais o nosso Patriarca de Lisboa, estão a debruçar-se sobre a problemática pastoral da família, especialmente no contexto da evangelização. E a Igreja espalhada pelo mundo está a rezar por eles.

 

Acho, portanto, oportuno fazermos uma breve reflexão sobre a missão da família Cristã no mundo de hoje, nomeadamente, a missão de viver, de revelar e de comunicar o Amor de Deus na sociedade humana.

 

  1. Em primeiro lugar, a tarefa principal da família Cristã é a de viver em comunhão num constante empenho por fazer crescer o amor: o amor entre o homem e a mulher e também entre os membros da família: entre pais e filhos, irmãos e irmãs, parentes e familiares. Mais fundamentalmente, a família está ao serviço da vida. Vimos na primeira leitura como é necessário recebermos o dom do Espírito para esse fim, porque sem Ele somos estéreis. Com Ele tornamo-nos fecundos e revelamos ao mundo a comunhão do amor, baseada no respeito pela vida e pela dignidade humana, que nos é doado pelo facto de termos sido criados à imagem de Deus. O casal Cristão, portanto, coopera na missão divina de dar e de proteger a vida e assim promove uma cultura da vida, colocando-se na contracorrente das actuais culturas da morte.

 

  1. Em segundo lugar, a família tem uma certa ligação orgânica com a sociedade pois os cidadãos saem, com efeito, da família e nela encontram a primeira escola daquelas virtudes humanas e sociais que irão definir o seu contributo para o desenvolvimento da mesma sociedade. A família Cristã, portanto, colabora de um modo muito profundo na construção do mundo, transmitindo aqueles valores e virtudes que lhe são tão próprios.

 

  1. Em terceiro lugar, como igreja doméstica, a família Cristã participa profundamente na vida e na missão da Igreja. Como uma comunidade crente e evangelizadora, a família permanece em religiosa escuta da Palavra de Deus e, ao mesmo tempo, proclama-a com firme confiança através dos acontecimentos diários e dos problemas, dificuldades e alegrias que eles contêm. Esta missão apostólica da família tem as suas raízes no baptismo e recebe da graça sacramental do matrimónio uma nova força para transmitir a fé, para santificar e transformar a sociedade. São Paulo, na sua epístola aos Gálatas, diz que “um pouco de fermento leveda toda a massa” (Gal 5:9). Basta a família Cristã ser ‘um pouco de fermento’ para ser um sinal luminoso da presença de Cristo e do Seu amor aqui na terra!

 

Que Nossa Senhora de Fátima obtenha de Deus abundantes bênçãos para as nossas famílias e as torne fontes de vida, de concórdia e de uma fé sólida, alimentada pelo Evangelho. Três anos somente nos separam do Centenário das Aparições. Enquanto Portugal se prepara para este Grande Jubileu, peçamos à Virgem que abençoe esta grande nação, que tão importante papel exerceu na expansão da Boa-Nova, tanto no Oriente, de onde venho, como no Brasil. Grato pela fé que recebi devido a este povo, formulo sinceros votos para que esta nação, que um dos Papas apelidou de “cristianíssima”, continue a dar ao mundo um corajoso testemunho dos valores do Evangelho, sempre guiado pelo materno carinho da sua Celeste Padroeira.

 

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D. Filipe Néri Ferrão

Arcebispo de Goa e Damão, Patriarca das Índias Orientais, Primaz da Índia

ÍNDIA - 6

 

Final - Considerações
Nos cinco textos anteriores demos uma ideia, mais que simplista, da história da Índia. Somente a The Cambridge History of India  são, só, oito volumes com uma média de 700 a 800 páginas cada um! Aquilo, sim, é história!
 
Mas busca daqui e dali sempre se descobrem coisas do maior interesse, e esta é uma delas:
 
Comparem-se as inscrições, com cerca de 5.000 anos, encontradas em Mohenjo Daro nas escavações desta antiga cidade do vale do Hindus,  – as da linha de cima – com as que foram descobertas em cavernas na Ilha de Páscoa, em frente do Chile, a mais de 20.000 quilómetros de distância uma da outra, e relacionem com os primeiros habitantes da Índia, os aborígenes da Austrália, etc, e com a língua mais antiga da Índia, chamada Austric. É evidente que não é coincidência.

Já alguém pensou na possibilidade de construir, nos dias de hoje um palácio como Versailles, a Cidade Proibida de Pequim, a igreja de Notre-Dame, o templo da deusa Meenakshi, a coleção dos templos de Khajuraho com todos as suas figuras mais do que eróticas, pornográficas, ou mesmo o Taj-Mahal? Nem Bill Gates teria capacidade financeira para tais empreendimentos. O que se assiste hoje é à explosão da opulência dos países produtores de petróleo, porque o mundo inteiro paga para isso.
 
Desde há 1.000 ou mais anos quem “pagava” tudo isso era o trabalho escravo ou de miseráveis servos, sempre com um único objetivo em vista: o engrandecimento dos senhores, a auto promoção, quer fossem reis ou chefes religiosos. São obras magníficas, sem dúvida, mas subsiste a pergunta se teriam sido obras necessárias ou só exibição de fortuna e poder.
 
Só há muito pouco tempo se começou a investir em obras sociais, transportes, saúde, educação, e assim mesmo nem em todo, o lado.
Quando se admira, por exemplo, Versailles poucos pensam nos milhares de miseráveis que ali trabalharam, mas na vaidade do “rei Sol”!
Os pobres substituíram os servos ou escravos o que conduziu a sociedades dominadas pelo capitalismo, talvez a mais absurda das ditaduras.
 
Tem sido assim em todo o mundo, e continua, guardadas as proporções e as épocas, mas constatando-se que democracia e capitalismo, são, acima de tudo, antagónicas (J. Le Goff).
 
E se é difícil ser-se completamente objetivo, uma verdade antiga continua a sê-la nos nossos dias: “só a História nos leva a conhecer, e compreender, o presente.”
 
Países há que continuam a querer “ensinar” uma história deturpada, com a finalidade única de culpar os governantes anteriores pela incapacidade, inépcia e corrupção do festão atual, e desse modo a maioria dos povos vai perdendo a sua cultura e como consequência pondo de parte os valores e o interêsse coletivo. Basta pensar que num elevado percentual de escolas nos EUA foi proibido o ensino de“A Origem das Espécies” de Darwin, outras, fundamentalistas, insistem que o primeiro homem foi mesmo o Adão da Bíblia, e quando se lhes mostram pinturas rupestres com 15 ou 20 mil anos dizem que é invenção de cientistas falsos, mas o topo de todas essas mentiras, aberrações e/ou negações está na recusa de aceitar que o homo sapiens tem uma só origem comum, e essa, veio de África. A menos que essa gente se considere descendente dum pedaço de barro e de uma costela, como, figurativamente nos conta o Gênesis!
Gente que não entende que corpo e espírito são completamente independentes. Um, como diz o poeta brasileiro Nei Lopes, nada mais é do que “embalagem pra viagem”, descartável, duração extremante precária, auto-destrutível, enquanto o espírito é eterno.
 
A dispersão dos homo sapiens pelo mundo ainda envolve hoje muito mistério. Um deles, por exemplo é o povo Ainu, que vive nas ilhas a norte de Hokkaido, hoje sob administração russa, e de que se desconhecem as origens. Traços aparentam-nos com caucasianos, tibetanos, mongóis, etc.
Grupo de Ainus, em 1904
 
Continuam o mistério sinais inequívocos da presença de ocidentais nas Américas, talvez milhares de anos antes de Colombo, como estas pedras encontradas, a de cima, a pedra rúnica de Kensington, em Minnesota, em 1898  descreve um ataque de skerlings (índios?) a um grupo de vikings.
 
A outra encontrada em um túmulo pré-histórico também no final do século XIX, com caracteres que parecem hebraicos de cananeia, e cujo significado poderia ser “Ano Um da Idade de Ouro dos Judeus”. Teoria corroborada pela descoberta no Tennesee e no Kentucky de esconderijos de moedas romanas de cerca de 135 d.C.
 
Se tudo quanto se tem conseguido apurar sobre a evolução do homo sapiens pela Terra for verdadeira, o que não podemos esquecer é dos nossos primeiros antepassados. Alguns deles com hábitos preservados pela sua determinação em lutar contra invasores, nas ilhas Andamã, que hoje fazem parte da Índia, a um pouco mais de mil quilômetros a sudeste do continente.
Eram assim os nossos antepassados. TODOS!
Para quem não gostou destas nossas jovens parentes... pode escolher estas outras:
Rio de Janeiro, 12/04/2014
 Francisco Gomes de Amorim

ÍNDIA - 5

 

O nosso objetivo ao começar a escrever um pouco sobre a Índia foi com a preocupação de compreender duas situações:
- porque a Índia tinha tanta gente de côr negra, de onde vieram, como se misturaram;
- e a origem do sistema de castas que, abolido oficialmente, se mantém ainda em grande parte do povo;
 
Pensamos ter conseguido ir às fontes mais antigas encontrar as necessárias explicações para esses dois assuntos.
 
Depois, com a chegada dos chamados arianos, novos caminhos surgiram no sub continente indiano, e sobre eles vamos passar “voando”, porque não era, nem é, nossa intenção escrever história, o que seria um absurdo, mas divagar sobre a evolução dos povos.
Vimos que chegaram os arianos, de onde terão vindo, e como o Rigveda, a memória mais antiga que se manteve, conservou e esclareceu alguns dos princípios filosóficos que presidiram os destinos de toda aquela gente.
 
Cerca de 600 a.C. surgem dois pequenos desdobramentos da mais antiga religião, o hinduismo, que vem desde todos os tempos, o jainismo e o budismo. A primeira fundada por Mahavira, voltada sobretudo para o ascétismo, a pureza, o total respeito pela natureza incluindo o vestiário, que aboliram. Nada mais completo do que o contato com a natureza seria o corpo não ser coberto de panos ou andrajos. Mais tarde foram proibidos de entrar nas cidades sem no mínimo um pano que lhes cobrisse o sexo. A mais alta estátua isolada da Índia, com dezoito metros de altura, é em honra dum santo jainista Gomateshwara Bubali, que se apresenta completamente nu.
Gomateshwara, vendo-se os andaimes montados para a festa, que inclui limpeza e pintura
Na mesma época aparece Siddhartha Gautama, o Buda (em sânscito, O Iluminado) que procurou pela introspeção ultrapassar a dor e o sofrimento, o apêgo às coisas materiais, para, em paz alcançar o Nirvana.
A maior estátua do mundo em Leichan, China. Buda, 71 metros de altura
Nesta época começa a fixar-se a gramática do sânscrito, língua de origem ariana (veja-se a relação entre sânscrito, a língua nobre porque podia ser escrita, e a palavra portuguesa escrita, em relação à língua do povo, somente falada, o prácrito, prático!).
 
Cerca de um século depois de Mahavira e Buda, os persas sob o comando dos reis Ciro, Cambises, Dario e Xerxes, expandem-se para ocidente ocupando o vale do Hindus. Depois é Alexandre quem conquista todo o Império Persa, atravessa as montanhas Hindu Lush, e a seguir o rio Hindus, vence um exército indiano comandado por Poro na batalha de Hispades, e em 326 a.C. desiste de seguir em frente.
 
Perto dali perde o seu famoso cavalo Bucéfalus que manda enterrar junto a uma nova cidade, Nicea, que manda construir e deu ao lugar onde enterrou o cavalo o nome de Bucefala.
 
A Índia já estava muito dividida por reinos maiores ou menores, mas aparece uma tendência a se unificarem para ganhar forças, sobretudo depois de terem assistido ao poderio e organização dos exércitos helénicos.
 
Neste cenário surje um personagem chave na história da Índia: o primeiro grande império fundado em 321 a.C por um obscuro guerreiro, Chandragupta, comandante do exército de Magadha, da dinastia Nanda. Revoltou-se contra o rei Dhana Nanda, que era extremamente cruel e perverso com o seu povo, mas a revolta falhou e fugiu para junto de Alexandre Magno pedindo refúgio e conselho, quando este se encontrava no noroeste da Índia. Assegurado levou a cabo um novo ataque ao rei Nanda, matando-o e subindo ao trono. Dava-se início a uma nova dinastia na História da Índia, a dinastia Máuria, que reinou um século e meio e unificou de imediato todo o norte do sub continente.
 
Sob Chandragupta, seu ministro Kautalya Chanakua escrevia o Artha shastra que é o mais antigo e um dos maiores tratados sobre economia, política, administração, assuntos exteriores e guerra que, junto com os Éditos de Ashoka se constituiram no arcabouço doutrinário de todos os governantes do império.
 
Com a unificação, a Índia experimentou um longo período de paz e prosperidade com desenvolvimento da economia e ciência, melhoria do comércio, agricultura e sistemas administrativo, tributário e legal. No campo da religião Chandragupta incentivou o jainismo enquanto Asoka, seu neto, que conquistou o sul e se tornou o maior de todos os reis da Índia, favoreceu enormemente o budismo a que se converteu, tornando-se o predecessor da tutela dos direitos dos animais.
 
Deve-se ao Império Gupta, também, a invenção dos conceitos de zero e infinito e os símbolos para o que viria a ser conhecido como os algarismos arábicos (1-9).
 
Com as castas, sobravam servos, escravos, muita mão de obra disponível para os grandes senhores, uma imensa concentração de poder nos bramanes e sobretudo nos kshatryia ou rãjanya – os que ficaram conhecidos por rajás – para a construção de grandes templos ou palácios e começa então o período da monumentalidade.
 
Acaba o Império Gupta com a invasão dos hunos brancos, nos séculos V e VI d.C., idos do atual Afeganistão, que também arrasaram a Europa central e do leste, e continuamente a ser invadida por tribus e exércitos vindos de outras terra, começa a invasão islâmica no século VIII que se apodera de Deli no século XII. Iconoclastas, foram destruindo na sua passagem imagens de figuras humanas como há pouco fizeram os talibãs com as estátuas de Buda. Deixaram uma obra magnífica, sim, o Taj-Mahal, mas como tudo no islão, somente decorado com flores e frases do Corão.
 
Finalmente a colonização britânica acaba vencendo os imperadores muçulmanos, sempre mal recebidos pelos indianos, e que termina com a separação dos atuais países, Paquistão, islamizado e Índia, ainda com quase 14% de muçulmanos, constantemente hostilizados pelos hinduistas, que são mais de 80% da população total.
 
A colonização britânica pode ter tido muitos males, como todas, mas foram os cientistas ingleses que decifraram e conseguiram traduzir os textos sagrados do sânscrito, que descobriram e prospectaram sítios arqueológicos e deram a conhecer ao mundo as maravilhas daquele país.
Rio de Janeiro, 7/04/2014
 Francisco Gomes de Amorim

ÍNDIA – 4

 

 

Foram mais os filólogos do que os arqueólogos que se aproximaram do conhecimento da origem dos arianos, uma vez que encontraram inúmeras ligações entre o sânscrito, o grego e o latim, que obrigatoriamente os levaram a concluir que algum dia tinham tido uma fonte comum, como por exemplo as palavras que designam a bétula e a faia – árvores de climas frios, mas não gelados – e ainda a tartaruga e o salmão, com áreas de desenvolvimento original bem específico, que em sânscrito, eslavo antigo, alemão, lituano, grego e outras línguas tem muita semelhança.

 

Ao mesmo tempo foi difícil entender como povos que não tinham deixado grande cultura na sua origem, tivessem dado um avanço às tradições milenares do sub continente indiano.

 

Mas é preciso lembrar que eles atravessaram regiões onde grandes civilizações despontavam, principalmente na Mesopotâmia.

 

Esses arianos não chegaram todos à Índia numa só vaga, mas foram-se sucedendo, as primeiras encontraram as grandes cidades das zonas do Hindus e do Pendjad – Pend, cinco, ab, rio, Cinco Rios – como Harappa e Mohenjo Daro, talvez no fim do seu apogeu, mas exibindo ainda as suas grandezas.

 

Este imenso fluxo de povos arianos e iranianos, durou uns seis séculos, apesar de se ter conhecimento que há talvez uns 20.000 anos as migrações haviam começado.

 

À medida que os novos migrantes foram penetrando para Leste, sempre à procura de melhores terras, ao encontro da região do rio Ganges deparavam-se com as populações autóctones, em sua maioria de origem africana. Os negros, com sistema de vida muito primitivo, que se distinguiam dos povos do Oeste e Norte, de pele mais branca.

 

E começa aqui um dos mais longos sistemas coloniais e de escravatura de todos os tempos.

 

Os arianos, invasores, mais fortes, mesmo quando em alguns casos tiveram que se misturar com os autoctones, quase que só o faziam através de casamentos de interesse, com os chefes locais, porque precisavam de paz e sobretudo da mão de obra.

E assim nasce o que se chama brahmanismo, palavra do sânscrito que significa os de caracter nobre, os nobres, os brahmanes, e com eles o sistema de castas.

 

Sendo o povo indiano extremante religioso, os brahmanes reservaram para si o exclusivo de conduzir os rituais religiosos, ficando assim com o “poder” de comunicar com os deuses, estando acima de todos os outros, eles que eram os sacerdotes, e os poetas, os que nos deixaram a história antiga, mesmo via oral.

 

A seguir vinham os nobres e os guerreiros que não podiam deixar de ser contemplados, os kshatryia ou rãjanya, depois os vahisya ou viç, os agricultores, mercadores e artesãos, e por fim a classe dos servos, os Çudra possivelmente o nome de uma tribu Dasa conquistada pelos arianos. Os Shudra, ou Dalit, palvra do século XIX para designar os membros da mais baixa casta, para parecer menos pejorativos, que nós conhecemos comos os Párias.

 

Os três primeiros grupos pertencem ao grupo dos conquistadores arianos e o último aos Dasyus. E a distinção entre eles foi simples, uma questão de varna, ou jati, côr ou pele: os arianos eram coletivamente conhecidos como os de “côr clara” e os Dasyus como de “côr negra.”

 

Tão forte foi este sistema implantado que afetou todas as outras religiões, e todo o povo indiano, o que justifica que o budismo tenha quase desaparecido de muitas regiões da Índia, absorvido pelo sistema de castas passado para o hinduismo.

 

E pior, a proibição, salvo casos muito especiais, de casamentos entre gente de classes diferentes.

 

Com o sistema de castas implantado, os rituais e sacrifícios foram ganhando cada vez mais importância e codificados na literatura védica, o que permitiu sempre concentrar mais e mais poder e riqueza nas mãos dos membros das duas primeiras classes.

 

Os Shudra – notar a relação com a palavra portuguesa “choldra” – coisa imprestável, ralé – eram os intocáveis, aqueles que fazem trabalhos considerados indignos, sujos, lidando com os mortos (animais ou pessoas), com o lixo, ou outros empregos que requerem constante contato com aquilo que o resto da sociedade considera abjeto e desagradável.

 

Privados de direitos e sendo propriedade privada, como “coisa”, foram a mão de obra, os grandes obreiros dos monumentos, hoje considerados maravilhosos, que pouco adiante os poderosos foram mandando construir.

 

Pouco falam os Vedas sobre a estratificação do povo em classes, mas isso ficou marcando e distanciando, sempre os poderosos dos mais fracos, desgraçadamente ainda classificados pela cor da pele.

 

Só mais tarde fazem referência a indivíduos que não merecem o “status” nem os privilégios dos nascidos duas vezes. Com o tempo, os Shudra, ficaram excluidos dos rituais de purificação, como impedidos de atingir o moksha – última serenidade de libertação da transmigração – devido ao seu carma – a lei de causas e efeitos que transcende o limite da existência – e deste modo condenados a permanecer eternamente na terra.

 

O homem esquece com facilidade o que não lhe interessa recordar.

 

Talvez não soubesse, como ainda hoje a maioria não deve saber que o Homo Sapiens, a espécie a que pertencem os seis ou sete biliões de habitantes deste planeta, terá surgido em Africa, como já dissemos, há uns duzentos mil anos, o que demonstra que todos, mas todos, viemos do mesmo lugar e que os nossos antepassados foram, repito, todos, negros.

 

Não é preciso lembrar a “vovó” Lucy, que terá vivido há mais de três milhões de anos, porque essa estava ainda muito longe do Homo Sapiens. Era um Australopithecus afarensis. Talvez tenha sido, talvez, um antepassado do homem moderno. E também era de África.

 

Rio de Janeiro, 02/04/2014

 

Continua

 

 Francisco Gomes de Amorim

ÍNDIA – 3

 

 

No texto anterior ficámos na dança, cujas origens igualmente se perdem no tempo. Não é uma dança comum. Está intimamente ligada à concentração e meditação, com posições de yoga, algumas copiando estatuetas do deus Xiva, o deus da música e da dança, fonte de energia cósmica, que perpetua o movimento do universo representado na imagem abaixo pelo círculo de fogo.

         

             

É conhecida a crença hinduísta na reencarnação. Os hindus acreditam que o espírito ou a alma, – o "eu" verdadeiro de cada pessoa, chamado de atman(vão reparando na semelhança de algumas palavras: primeiro da deusa Mai ou Maha, para mãe, agora atma para alma) – é eterno, e já o Rigveda, que terá sido escrito entre 1.700 e 1.100 a.C. fala nisso.

 

De acordo com um antigo texto hindu, certa vez perguntaram a uma rainha chamada Latika porque ela gastava tanto tempo e dinheiro colocando lâmpadas de azeite nos santuários: mil lâmpadas somente para o santuário de Vixenu, o ser supremo e bem-aventurado. Latika que se recordava das suas vidas anteriores respondeu que numa encarnação anterior, como camundongo, tentara roubar a mecha de uma lâmpada que estava quase a apagar-se no templo de Vixenu. Nesse instante um gato soltara um grito estridente e Latika fugiu aterrorizada. Na pressa esbarrou na lâmpada atiçando a chama. Em recompensa por ter reactivado a chama, Latika recebeu o privilégio de reencarnar como princesa e desposar um rei. Se um simples acto, involuntário, lhe tinha merecido tamanha recompensa, os méritos de ter mantido a chama acesa deveriam ser, na verdade, muito grandes. Ao morrer foi levada ao céu para ali “gozar dos prazeres divinos”.

 

Seguindo o exemplo de Latika os fiéis continuam a manter lâmpadas com azeite diante das imagens religiosas. As ofertas de azeite, ou incenso ou flores, procedem sempre da mesma motivação. A origem desta prática, de acender lâmpadas às divindades igualmente se perde nas noites dos tempos.

 

(O que fazem hoje os cristãos, judeus, xintoístas, e até os que continuam com a sua religião animista ou só no respeito e veneração dos antepassados? Acendem lamparinas, velas, queimam incenso, etc.)

 

Chegamos agora às invasões, que transformaram a Índia naquilo que ela é hoje: povos vindos de inúmeros lugares, de aspectos físicos os mais diversos, além de uma infinidade de línguas e dialectos. Índia é um sub continente onde correm rios caudalosos, boas terras para agricultura, e se cultivavam já sorgo e arroz, e por muito incrível que pareça, o milho! Não se sabe que variedade de milho, apesar de os mais antigos registos deste cereal terem aparecido em vestígios arqueológicos na caverna Guila Naquitz no Vale de Oaxaca, no México que datam cerca de 6.250 anos, e nas cavernas de Tehuacan, Puebla, com cerca de 5.450 anos. No entanto na cultura harappiana, do vale do Hindus, também cultivavam milho, no mínimo há 4.500 ou 5.000 anos.

 

E além disso um produto que provocou a grande admiração dos invasores: uma espécie de lã, que estes só conheciam das ovelhas, mas vegetal, com a qual faziam tecidos, desde os mais finos a grossos, para proteger do frio, desconhecido até então: o algodão!

 

São os arianos os primeiros conhecidos grandes invasores. Até então chegaram de muitos lados, pequenos grupos ou tribos, que se instalaram em toda a região, mas sem configurarem invasão, nem alterarem os costumes locais, muito pelo contrário, os absorvendo.

Através da maior parte da Europa até a Índia, existem ainda, ou pode ser demonstrado, terem existido no tempo passado, um número grande de línguas, cujas formas e sons, quando cientificamente analisados mostram uma origem comum.

 

Estas línguas são chamadas pelos cientistas de Indo-Germânicas ou Indo-Europeias. O termo Indo-Europeu parece ter sido inventado pelo Dr. Thomas Young um físico e egiptólo, em 1813. Ele incluiu neste grupo também o basco, finlandês, e línguas semíticas. O nome Indo-Germânicas foi usado por um filologista germânico, em 1823, com a ideia de incluir as línguas que do mais distante leste até ao oeste, se estendia desde a Índia até ao Atlântico. Ele teve a capacidade de observar que a língua sagrada da Índia, o sânscrito, a da Pérsia, da Grécia e Roma, a língua dos celtas, germânicos e eslavos, estiveram, algum dia, todas intimamente ligadas.

 

Como os povos, nas suas deslocações, muitas vezes perdem a sua língua de origem e adoptam uma outra, os termos Indo-Europeias ou Indo-Germânicas, foram abandonados e decidiu-se que o termo mais apropriado para os falantes dessas línguas deveria ser Viros, que significa homens na grande maioria das línguas em questão.

 

Afinal o que se sabe sobre os antigos humanos? Através de algumas palavras preservadas, especialmente em línguas de regiões muito afastadas, há pouca probabilidade que as palavras passem de um lugar para outro. No entanto encontram-se algumas de animais e plantas e pouco de indústrias, cuja semelhança faz crer que esses povos, hoje separados, estiveram antes longos períodos em áreas circunscritas, e por muitas gerações. Por exemplo a palavra “mare”, do latim, mar, tem noutras línguas significados relativamente “perto” como pântano ou local de atracar um barco.

 

Os Viros não eram de certeza nómadas, mas povos já assentados, do início do neolítico. Conheciam o boi e vaca, carneiros, cavalo, cão, porco e algumas espécies de cervos. O burro, camelo e elefantes parecem ter-lhes sido desconhecidos nos primeiros tempos. Há vestígios de que cultivassem o milho, prova do seu assentamento.

 

Também se conhecem as espécies vegetais, sobretudo fruteiras e árvores fornecedoras de madeira.

 

Com estes elementos começa a ser possível localizar de onde saíram os primitivos habitantes falantes destas línguas. Não parece ser da Índia, já que a fauna e flora desta região era diferente.

 

Se eles utilizavam a madeira das faias – árvore do género Fagus – teriam que viver numa área que no máximo podia ir ao norte, até à Prússia e a sul à Crimeia, região de grandes florestas. Mas para a criação de gado, ovelhas e sobretudo a produção de alimentos, como milho, aveia e outros cereais, só há na Europa uma região com as necessárias características, que são as férteis planícies limitadas pelos Cárpatos a norte e leste, os Alpes a Ocidente e, contornando os Cárpatos, ao sul, pelos Balcãs.

 

As faias que não vingam mais para sul, encontram-se também aqui.

 

Se esta área foi o habitat original dos arianos, e tudo leva a crer que sim, a difusão dos povos de língua Indo-Germânica, começa a fazer sentido. Crê-se que esta expansão terá começado cerca de 2.500 a.C.

 

Depois fica fácil seguir o caminho que levaram: uns atravessam o Bósforo ou o Dardanelos para a Turquia, seguem, com os seus animais, pelos lugares mais propícios, outros contornam o mar Morto e descem para a Pérsia, outros passam a norte do mar Cáspio, e todos vão-se aproximando do Afeganistão, sempre através das regiões que lhes proporcionavam estabilidade, ou onde se assentassem e certamente se mesclavam, para prosseguirem, até se depararem com os Himalaias.

 

Alguns passaram para a planície do Hindus mais a ocidente, mas depararam-se com o grande deserto indiano, mas a grande maioria terá cruzado a cordilheira do Hindus, que separa o Paquistão do Afeganistão, pela única passagem, um vale, Kyber Pass, que liga as actuais cidades de Cabul, por Jalalabad até Peshawar.

 

Começa a chegar à Índia – hoje Paquistão e Índia – uma nova civilização, mais avançada e culta, que dá origem à história, com o Rigveda. Cerca de 1800 a.C.

 

Com isto o desenvolvimento da escrita e de religiões antigas como a que se veio a chamar hinduísmo, e mais tarde o budismo e jainismo.

 

Como nestes textos só estamos a tratar da Índia, é bom esclarecer que muitos povos, tanto arianos, como persas, frísios, arménios, e muitos outros, atravessaram as montanhas dos Himalaias e prosseguiram para a Ásia Central, como, as primeiras migrações, que saindo de África se foram espalhando pelo mundo desde há mais de 50.000 anos.

 

23/03/2014

 

A continuar

 

 Francisco Gomes de Amorim

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