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A bem da Nação

PERGUNTAS PROIBIDAS

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Guterres e os Directórios

 

A eleição de António Guterres como secretário-geral da ONU é uma certeza, após a nomeação pelo Conselho de Segurança onde teve o apoio dos 5 grandes

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O processo de nomeação foi mais duro e transparente do que é habitual, como ficou à vista com o falhanço da manobra desesperada de última hora do Partido Popular Europeu, ao tentar promover a búlgara Georgieva.

 

Os dirigentes do centro direita europeu perderam essa batalha contra os dirigentes do centro esquerda. Contudo, tal como nas antigas guerras de religião entre católicos e protestantes não contava a fé mas sim o poder, também nesta eleição foi o poder da Alemanha orientada a leste que se tentou sobrepor à ideologia.

 

Membros permanentes do Conselho de Segurança

 

A Alemanha não integra os 5 membros permanentes do Conselho de Segurança. E desde 2004 formou o Grupo dos Quatro, com o Brasil, Índia e Japão, a fim de aumentar a sua influência na ONU. Com as dores de cabeça que lhe dá a Europa ocidental, quer reforçar a política de Leste antes de explodir a crise bancária.

 

Com o apoio dos EUA e a abstenção benevolente da Rússia, venceu a candidatura de um católico, socialista e humanista. Venceu o Vaticano que tem diplomatas e um lugar na ONU e no Papa Francisco um modelo para António Guterres. Venceram os países da Lusofonia que o promoveram. Venceu a Europa ocidental, neste caso organizada por François Hollande. Afinal, apoios previsíveis.

 

Mas o pano de fundo da vitória de Guterres é a insatisfação geral com o sistema de directório que pretende governar o mundo desde 1989. A “nova ordem mundial” tem sido empurrada com a barriga pelos directórios informais, coalition of the willing, o gélido G-7. Venceram as nações que sabem que só uma chicotada psicológica tornará a ONU um factor a ter de novo em conta e que, para esse fim, muito depende da personalidade do secretário-geral.

 

António Guterres tem capacidade de diálogo e debate, factores de softpower que contam nas relações internacionais. Provou que sente as questões sociais e favorece uma sociedade inclusiva. Tem princípios e valores com que mobiliza pessoas e recursos contra os lobbies. Em resumo, é uma pessoa decente.

 

Os decentes e os hipócritas

 

A sua candidatura à ONU sob o lema “Nós, os povos” mostra essa visão. Que Guterres venha de uma nação que foi uma super potência do passado mas que hoje conta pouco na Realpolitik, será importante para nós, portugueses. Mas não foi por isso que o mundo o escolheu. Escolheram-no para dar sinais de um mundo novo.

 

É mais que natural que, após a vitória de Guterres, todos se tenham regozijado. Os decentes e os hipócritas. A decência é a qualidade moral que se pede aos que lutam pela inclusão e contra as injustiças.

 

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A hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude – escreveu o moralista La Rochefoucauld.

 

António Guterres vai ter que operar neste mundo onde os directórios soberanos como o G-7 não estão nas mãos de gente decente e onde a gente decente só tem agora controlo sobre a ONU, que não é um poder soberano.

 

Hillary Clinton, a próxima presidente dos EUA, afirmou num dos seus discursos de 250 mil dólares, divulgado pela WikiLeaks: “Estou muito longe das lutas da classe média, devido à vida que vivi e a fortuna económica de que eu e o meu marido agora desfrutamos”.

 

Vladimir Putin, o ex-KGB, pôde apoiar a Turquia e o Irão, reclamar a Crimeia, como em breve reclamará a Bielorússia e o que houver a reclamar da Ucrânia, com o apoio de ⅔ do seu Parlamento e fraca oposição internacional.

 

Theresa May, a gestora que hesita entre o Brexit duro e um Brexit mole é uma Margaret Thatcher fora do prazo de validade e diz que o que lhe interessa é o maior acesso possível aos produtos, serviços e capitais para ambos os lado. Não fala de pessoas.

 

Poder-se ia continuar esta lista dos dirigentes do Directório. A China vai ficar cada vez mais enredada em si mesma. A França já não é o que era. As super potências emergentes como a Índia e Brasil deixaram de ascender. O mundo está complicado. E sem a visão do realismo moral, mais complicado ficará.

 

Quem chega ao lugar onde António Guterres chegou tem uma visão realista do que pode fazer. Sabe que está numa organização de softpower num mundo cuja política é pressionada pelos directórios. Sabe que tem que dar uma chicotada psicológica na ONU. Sabe que na ACNUR conseguiu diminuir 20% do pessoal e aumentar 30% dos apoios financeiros aos refugiados.

 


António Guterres representa o que a comunidade internacional precisa mas sabe que a sua magistratura é de exemplo e influência. Cabe-lhe dar os sinais certos para que o mundo do G-7 se aproxime do mundo de Guterres. O desfecho é incerto.

 

11 Outubro, 2016

Mendo Castro Henriques

Mendo Castro Henriques

Professor na Universidade Católica Portuguesa

 

DAS RUÍNAS NASCE ARTE

 

 

Na Fábrica de Braço de Prata foi inaugurada a 1 de Outubro a XXXª Exposição Ruin'Arte, de fotografias de Gastão de Brito e Silva, espaço onde expôs pela primeira vez, juntamente com Jorge Castro Henriques, sobre os bairros orientais de Lisboa

 

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Das ruínas nasce arte. Com igual rigor se poderia dizer que da arte (de construção) nascem ruínas. É sobre esta parcela de um Portugal arruinado que se desfaz em pó e cinzas, que falam as imagens de Gastão de Brito e Silva. Será a ruína uma inevitabilidade, uma prova de incúria face aos laços de reconhecimento neste país que somos? Será mais um processo de auto-flagelação?

 

As fotografias mostram os efeitos devastadores dos interesses da construção civil ante os quais são impotentes as tentativas de ordenamento urbano. Várias das construções registadas não sobreviverão ao tempo. Muito do casario vernáculo foi sacrificado a opções urbanísticas discutíveis que invadiram velhos centros históricos, áreas de protecção de edifícios classificados e paisagens qualificadas.

 

Exemplos, não faltam. As casas delapidadas no bairro das Fontainhas, no Porto, em volta da primeira cintura industrial da cidade, ainda mais arruinadas desde 2009, com o incêndio e a derrocada da encosta. A torre da quinta de Coina, a torre do inferno erguida entre 1897 e 1914 pelo “rei do lixo”, o comerciante maçónico Manuel Martins Gomes Júnior, no meio de um complexo habitacional abandonado; a fábrica dos Cabos Ávila, vista diariamente por dezenas de milhares de habitantes da Grande Lisboa.

 

Retrato de um país em processo de desindustrialização

A exposição é também um retrato de um certo país em processo de desindustrialização. A Fábrica de Fiação Cunha Morais, em Crestuma, com os escritórios devastados e que levou 800 operários ao desemprego; a Fábrica Efanor (de carrinhos de linha), em Matosinhos, a Sereia (Moinho do Breyner) (fábrica de moagem), no Seixal, e a do Paleão (de tecidos), em Soare, a Central termoeléctrica do Freixo (Porto), ou a Fábrica de Cerâmica das Devezas.

 

Expor ruínas não é, necessariamente, um lamento. Pode ser um apelo positivo, em vários sentidos. Documentar o abandono generalizado de construções civis, religiosas, militares, industriais que degradam a paisagem e a que urge pôr cobro, através de medidas de salvaguarda. Ajudar a focar o papel dos especialistas de património no processo de revalorização. Sugerir valências que se poderiam atribuir a muitos destes conjuntos edificados, de várias épocas e estilos.

 

A defesa do património construído contra a sanha destruidora de um certo progresso vem de Almeida Garrett e Alexandre Herculano no século XIX, Pais da Silva no século XX, de Jorge Custódio em anos mais recentes. Agora, como escreveu Mário Jorge Torres a propósito do filme Ruínas, de Manuel Mozos, de 2010, trata-se de um «Portugal revisitado pela noção de perda, substituindo à monumentalidade da História a anonimidade do fragmento irrisório».

 

Ruínas, há muitas. A ruína clássica que inspira a retomar a perfeição. A ruína romântica que assume a culpa do passado. Com Brito e Silva, encontramos a ruína de um certo fim da história. Estes destroços de casas rústicas e solares, de igrejas, fábricas, fortalezas e hospitais multiplicam-se na paisagem do país de norte a sul.

 

Gastão de Brito e Silva mostra o país-subúrbio

As fotos construídas por Gastão de Brito e Silva mostram o país-subúrbio que existe em Portugal. As ruínas são captadas com um fundo de nuvens revoltas e com um espesso chiaroscuro de cinzas, um testemunho da obsolescência de modelos sociais, como lembra Jane Jacobs em Morte e Vida das Grandes Cidades.

 

Mas não estamos perante o lamento de um saudosista. Não se trata de criticar leis de salvaguarda do património. Nem apontar o dedo a técnicos e profissionais do sector que são competentes. Nem entrar em debates sobre a Carta de Veneza e outras orientações da UNESCO para preservar a memória comum. Os organismos especializados, a DGEMN e o IPPAR, privilegiam o restauro de castelos, grandes monumentos religiosos e civis, e a adaptação de velhas ruínas conventuais a unidades hoteleiras, dando-lhes novo uso.

 

Ruínas com excesso de abandono

Sucede que há muito mais por fazer. Donde, este grito de alarme. Ruínas com excesso de abandono, deixam de ser recuperáveis. Algumas das retratadas durarão mais uns Invernos… Depois ficará uma massa disforme e agressiva na paisagem. Para serem ruína, retiraram-lhes primeiro a alma, a razão de ser. O tempo se encarregará de lhes desfalecer o corpo. A morte parece infalível. É o caso da estrutura arruinada do mosteiro cisterciense de Santa Maria de Seiça, a primeira a ser fotografada pelo Gastão, e que já serviu como fábrica de descasque de arroz e que aguarda plano de recuperação.

 

Contudo, outras destas ruínas fotografadas ganharam nova vida. É o caso do Forte da Graça, ou de Lippe, em Elvas, obra setecentista da Guerra dos Sete Anos, um grande testemunho de fortaleza da Idade Moderna. Valeu-lhe ser galardoada pela UNESCO como Património da Humanidade, para lhe encontrarem uma reutilização futura.

 

Portugal pode deixar de existir como país, se continuarmos a perder a capacidade estética e ética de nos olharmos uns aos outros através das referências patrimoniais. Como as que constam nesta exposição, ou no pequeno livro da Fundação FMA e do blogue RuinArte do fotógrafo Gastão de Brito e Silva, já com largos milhares de registos. Não deixemos mais que da arte nasçam ruínas.

 

Mendo Castro Henriques

Mendo Castro Henriques

Professor na Universidade Católica Portuguesa

AINDA RICOEUR

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Paul Ricoeur e os gatos fedorentos

 

TEXTO ESCRITO EM 7 DE AGOSTO DE 2005

 

Tendo deixado passar em branco no passado 21 de Maio, a morte de Paul Ricoeur, aos 92 anos de idade, recolho os meus apontamentos sobre ele. Ricoeur deixa mais que uma filosofia; deixa uma militância. O então (antes do NON) primeiro ministro francês, Jean-Pierre Raffarin, lamentou mais "que a perda de um filósofo". "A tradição humanista europeia chora a morte de um dos seus porta-vozes de maior talento".


Embora não fosse politólogo e menos ainda analista de temas internacionais, Paul Ricoeur tratou a questão pública de modo muito diferente do voluntarismo dos intelectuais; estes tomam posição a propósito de qualquer assunto, mesmo dos que não entendem; sobretudo do que não entendem, segundo Hegel, na Fenomenologia do Espírito. Ricoeur intervinha quando sabia o que se passava.


Associado à revista Esprit, fundada por Emmanuel Mounier em 1932, respondeu à crise da democracia liberal com a alternativa cristã aos desafios do fascismo e do comunismo. Quando Mounier morreu prematuramente em 1950, Ricoeur elogiou o personalismo num belo estudo. Paul Ricoeur produziu óptimas conferências e artigos sobre o significado do Evangelho na compreensão da política. Alertava sempre para a importância dos modernos estudos bíblicos que ajudam a contextualizar as fontes antigas e evitam as posições reaccionárias e atitudes fundamentalistas. Na sua Filosofia da Vontade enfrentou as questões políticas puras: Estado, Economia, Direito.


Em época de desencanto político, Ricoeur foi muito firme num ponto: a condenação da política como corrupta é enganadora, malevolente e infame. A política só é fonte de males devido ao lugar proeminente que ocupa na vida pública, e não por qualquer defeito intrínseco da politização. A política original é fonte de libertação, como sempre lembra José Adelino Maltez. A denúncia sistemática da política é a morte da cidadania. A tentação gato fedorento dos intelectuais europeus (ou será a tentação intelectual dos gatos fedorentos?) é demasiado fácil; os programas europeus de contra-informação acabam por ser o "ópio dos revoltados" que o sistema até fornece nas televisões públicas. Não é por acaso, certamente.


Com Ricoeur, portanto, militar é preciso. Informadamente.

 

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Mendo Castro Henriques

Professor, Universidade Católica Portuguesa

AS MENTIRAS DO BILIONÁRIO

 

Após o primeiro debate entre Hillary Clinton e Donald Trump, a corrida à Casa Branca entrou na recta final, numa semana em que subiram as intenções de voto em Trump e os candidatos estão empatados…

 

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O que era improvável, vai acontecendo. Devido ao populismo.

Donald Trump é um exemplo do populismo ocidental. As suas falhas decorrem da sua falta de princípios. O problema não é ser agressivo, mas escolher amigos e inimigos de modo infantil sem qualquer sentido de interesse nacional. Se diz bem de mim, afirmou Trump sobre Putin, direi bem dele.

Trump tem quatro bandeiras

  1. No comércio internacional seguirá o americanismo e não o globalismo;
  2. Quanto a Estrangeiros, Imigrantes e Muçulmanos diz que no primeiro dia, expulsará os imigrantes criminosos;
  3. Quer legalizar a posse de armas para diminuir o risco de ataques terroristas;
  4. Quer a redução de impostos para aumentar o investimento.

No seu discurso saudosista, Trump culpa a globalização como origem dos males americanos. Por estranho que pareça, um discurso coincidente com o do perfeito idiota latino-americano: julgar que a esfera nacional é controlada por decisões estatais.

1. Americanismo e não o globalismo

A primeira mentira do bilionário resulta de não entender que o capitalismo tem uma escala global de operações. Isolar-se é ignorar as cadeias globais de valor que alimentam os fluxos de comércio e capitais e o desenvolvimento. A maior parte do valor criado por produtos não reside na produção mas nos serviços e aplicativos.

As políticas proteccionistas produziriam efeitos perversos. Trump mente quando diz que a Ford e a Apple trarão as fábricas de regresso à América. Nada disso sucederá. O chamado “gráfico da curva sorriso” mostra como o valor agregado das transacções não reside na produção dos bens mas no processo de pesquisa, desenvolvimento, publicidade, gestão de marca, serviços.

2. Expulsará os imigrantes criminosos

Numa nação que sempre se orgulhou dos imigrantes, é obra dizer como Trump, expulsarei os imigrantes ilegais, manipulando o clima actual de medo e insegurança, provocado pelos ataques do EI na Europa e pelas ameaças aos EUA

A mentira do bilionário é que quem entra ilegalmente nos EUA não é terrorista nem bandido, mas busca uma vida melhor. Gente que fica com trabalhos não qualificados e sub-empregos pois sabe que americano médio tem melhor formação.

Segundo a Business Insider, os estrangeiros nos EUA são empregadas domésticas, trabalhadores rurais, caixeiros de lojas; nada disto ameaça a empregabilidade dos americanos. Expulsá-los, além de gerar caos social e escassez de mão-de-obra, retiraria 7 milhões de contribuintes e consumidores. Além disso os imigrantes cometem menos crimes do que os locais.

3. Legalizar a posse de armas

Ao comentar atentados terroristas, Trump refere que, caso houvesse civis armados a história seria diferente. É mentira. Em média morrem mais de 10 mil pessoas nos EUA por ano, devido a armas de fogo. Uns concluem que o porte de armas permitira a autodefesa. Mas os estudos mostram não haver relação directa entre armas em circulação e a incidência de homicídios cometidos com armas. É a conclusão da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos (NAS), de 2002, após rever centenas de estudos. E atenção: a taxa de homicídios nos EUA é 4 vezes superior à média dos países com elevado índice de IDH.

4. Redução de impostos

Trump defende a baixa de impostos, a fim de libertar capitais e recursos para a poupança e investimento mas nunca se refere a como diminuir os gastos federais.

O seu plano é reduzir impostos sobre a classe mais rica e os mais pobres. Abaixo de 25.000 dólares anuais, haverá isenções. As grandes empresas baixarão para 15% e as multinacionais poderão repatriar os lucros a uma taxa de apenas 10%.

Mas e o orçamento? A diminuição dos tributos aumentará o défice fiscal e o endividamento do país e reduzirá recursos para cumprir promessas. Com uma dívida de US$ 14 triliões, equivalente a 100% do PIB americano, a estratégia não parece boa.

Trump mente ao afirmar que a redução de impostos aumentará investimentos e o crescimento. Políticas de redução de taxas sem redução de gastos do Governo aumentam o défice federal, reduzem a poupança interna, aumentam a taxa de juros, e acabam por reduzir o investimento potencial. Perde-se o efeito positivo do corte: o aumento de incentivos para empreender, produzir e poupar. Em resumo: não há evidências de que a redução de impostos traga benefícios ao crescimento económico.

Mas que dizer do crescente apoio a Donald Trump por parte do eleitorado americano? Será que Trump representa os ideais do americano médio? Os americanos acreditam nas suas entradas à cowboy? A história responderá se será eleito mas desde já é preocupante.

Trump explora a seu bel-prazer a ignorância da grande massa americana. Os dados são implacáveis e os estudos contrariam-no. Mas ele soma e segue. Que tragédia no país com tantos Prémios Nóbeis e universidades de excelência.

Os americanos já tiveram Presidentes tão mal qualificados como Trump e sobreviveram. Mas Donald Trump é uma ameaça e a falta de qualidade de Hillary Clinton está a tornar possível o impensável.

 

26 de Setembro, 2016

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Mendo Castro Henriques

Universidade Católica Portuguesa

QUAIS MACNAMARAS DA COMUNICAÇÃO…

Antes tínhamos a Inquisição que proibia as respostas. Agora temos a comunicação social que proíbe as perguntas. Antes tínhamos a tortura. Agora temos a televisão. Antes tínhamos a PIDE. Agora temos a net-diarreia.

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É melhor? É melhor para quem? Que seres queremos ser? Que faremos da nossa humanidade?

 

Toda a gente sabe como se proíbem respostas. Fazem-se listas de fórmulas inadmissíveis. Como os Talibãs. Como o Daesh. Como Donald Trump. Como os norte-coreanos. Depois, pratica-se a censura. Exerce-se violência sobre quem dá as respostas erradas. Perseguem-se os prevaricadores. Queimam-se os livros e depois alguém acaba atrás do muro. Ou na fogueira. Ou no pelotão de fuzilamento.

 

Proibir perguntas é mais difícil. É mais capcioso. Mas é igualmente eficaz. Fala-se de coisas irrelevantes. Pratica-se o blá-blá dos programas generalistas. Fazem-se entrevistas com conversa da treta. Faz-se encobrimento, como Hillary Clinton.

 

Assobia-se para o lado, como Durão Barroso. Queimam-se neurónios e o mundo fica disponível para quem sobreviver a tamanha lavagem de cérebro.

 

Proibir perguntas

 

Proibir perguntas é uma técnica que segue muitos padrões. O primeiro é inundar-nos todos os dias com vagas de notícias sobre um facto.

 

Quando há jornalistas sérios, eles sabem detectar e questionar esses factos. Mas o truque consiste em passar de uma vaga, qual onda do canhão da Nazaré em que os pivots se instalam qual macnamaras da comunicação, para a vaga seguinte, enquanto a realidade permanece a doer.

 

Descontados os truques da imprensa, sabemos que a Coreia do Norte faz ensaios nucleares; a direita populista avança na Europa; as eleições nacionais em Espanha dependem das eleições regionais; o Banco Central Europeu continua a emitir 70 mil milhões de euros por mês. Os refugiados continuam a chegar. E quem tem tempo para perguntar porquê, como, quando e onde. E para quê? Já aí vem a vaga seguinte de notícias.

 

A revolução da consciência

 

O outro padrão de perguntas proibidas incide sobre a revolução da consciência que mudou a humanidade há uns 2500 anos. O mundo mudou desde que no século VI a. C. falaram personalidades como Confúcio e Lao-tsé na China, os autores dos Vedas e Buda na Índia, Zaratustra ou Zoroastro no Irão, os primeiros profetas em Israel e os filósofos pré socráticos na Grécia.

 

A revolução da consciência tornou impossível em cada uma dessa civilizações que leis, regras e normas sociais falem sozinhas, mesmo que falem mais alto que a voz da consciência. É um escândalo do ponto de vista jornalístico admitir que nada de importante aconteceu nos últimos 2500 anos. Mas se a comunicação social continua a ignorar que há factos da consciência mais altos, mais fortes e mais duradouros que os factos do dinheiro, do poder e da técnica, então não temos jornalismo.

 

O terceiro padrão de perguntas proibidas incide sobre a religião. A religião é apresentada como factor de guerras e conflitos. Como origem de fundamentalismos. Como etapa ultrapassada. O lado positivo destes equívocos é recusar a identificação do cristianismo com o triunfalismo ocidental que em tempos existiu.

 

O lado negativo é que é pior. Abraham Lincoln disse no discurso de Gettysburg, em l863: “A democracia é o governo do povo, pelo povo e para o povo.” O que nunca se acrescenta é que a frase foi adaptada da tradução das Escrituras por John Wycliff. “This Bible is for the government of the people, by the people and for the people”.

 

Em Portugal, os pais fundadores do liberalismo colocaram no exórdio da Constituição de 1822 a seguinte afirmação: “Em Nome da Santíssima e Indivisível Trindade, as Cortes Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa (…) decretam a seguinte Constituição Política, a fim de segurar os direitos de cada um e o bem geral de todos os Portugueses.” Mas continua a ser proibido perguntar por que razão a humanidade passou a datar a história entre antes e depois de Cristo.

 

Essa notícia foi tão forte que os redactores gregos das Escrituras chamaram-lhe a boa notícia, o evangelho. Afinal, eles é que eram os jornalistas.

 

13 de Setembro de 2016

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Mendo Castro Henriques

Professor na Universidade Católica Portuguesa

 

 

Também publicado no Jornal O TORNADO

JOSÉ FRANCISCO E SEBASTIÃO JOSÉ

Portugal não tem uma tradição de Estado mínimo, pelo contrário: é uma Nação envolvida por um Estado criado pela Coroa

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Esta realidade, somada à falta de uma cultura de serviço conduz a que, inevitavelmente, os poderosos que numa geração reconstruíram o Estado, na seguinte já estão a espezinhar os mais fracos.

 

A história de Portugal é uma sucessão destes ciclos em que já só uma revolução ou reforma de fundo resgata o país. A mais recente foi em Abril de 1974.

 

Vem isto a propósito da obra A Verdadeira Equipa do Marquês de Pombal, do investigador Mauro Burlamaqui Sampaio, lançada a 5 de Setembro na Torre do Tombo, após uma década a pesquisar em arquivos de Portugal, Itália e Brasil.

 

Escrever sobre Pombal em Portugal é aproximar-se de uma floresta com uma tocha a arder

Sebastião José foi sempre invejado quer quando o menosprezavam no seu tempo como “Fidalgote da Rua Formosa”, “o jesuíta rebelde” e, na má-língua dos Lisboetas, “o perucas” ou o “urso” nas críticas de Camilo.

 

Pombal é elevado aos píncaros desde o centenário proposto por Teófilo Braga em 1888 e depois justamente continuado pela propaganda republicana, culminando na estátua da Rotunda, iniciada por subscrição maçónica e concluída por Salazar.

 

Entre os píncaros e as baixezas de Pombal, a obra de Mauro Burlamaqui segue uma via prudente, alicerçando uma tese com nova documentação sobre os protagonistas da equipa de D. José I e do ministro Sebastião José. A tese é que, com ideias vindas de trás, os mercadores-banqueiros, nacionais e estrangeiros residentes no Reino, tinham os capitais e os conhecimentos e as ligações internacionais para dar corpo à reforma de Portugal com a autoridade da Coroa e o poder de manobra do grande ministro.

 

A partir de 1747 e até 1756, D. José rodeou-se de homens como Alexandre Gusmão e os ministros Marco António Azevedo Coutinho, Diogo de Mendonça Corte Real e mercadores banqueiros Roberto Godin, Vasco Lourenço Veloso, Cristiano Stockler, Hermano José Braamcamp, Paulo Jorge, Luís Nicolini, Carlos Burlamacchi e Pedro Pedegache.

 

Com o terramoto e as conspirações, Pombal trouxe figuras como Francisco de Almada e Mendonça, Aires de Sá e Melo, Martinho de Melo e Castro, D. Luís da Cunha Manuel, Theotónio Gomes de Carvalho, Frei Manuel do Cenáculo e mercadores como Inácio Ferreira Souto, António Caetano Ferreira, Alexandre António Bon, Ippolito Burlamacchi , Luca e Paulino André Lombardi.

 

Assim nasceu e implantou-se uma rede portuguesa de negócios da Europa e no Atlântico

 

A gestão do norte da Europa (Eixo-Norte), que controlava e geria o comércio com Inglaterra, Holanda e cidades Hanseáticas e outras, foi confiada a Hermano José Braamcamp, Paulo Jorge, Gildemester, Perochon, Stockler e Vanzeller. O Plano do Sul da Europa (Eixo-Sul), que controlava e geria o comércio com Itália, Sul de França, Cádiz e ainda a estratégia contra a Companhia de Jesus, foi confiado a Luís Nicolini, Franscisco de Almada, Nicolao Piaggio Aires de Sá e Melo os mercadores Ferreira, Burlamacchi, Bon e Cruz Sobral.

 

Lisboa pôde articular o controlo das redes Norte e Sul da Europa com o eixo imperial Brasil e África e as Companhias de Grão Pará e Maranhão e a de Pernambuco e Paraíba e a firma Pury, Mellish & Desvime. A reforma de Portugal foi possível com os capitais, conhecimento e vontade de servir deste grupo, depois atenuados com a conspiração dos Távoras e a corrupção de Pombal.

 

O primeiro resultado da obra de Mauro Burlamaqui é que o plano não teria sido possível sem José Francisco António Inácio Norberto Agostinho de Bragança, ou seja, D.José I. É um mito falar de “O rei no torno e Pombal no trono” . A “Equipa do Marquês de Pombal” começou por ser a “Equipa do rei D. José” que a seleccionou desde 1747, e a manteve no favor régio com tal pujança que D. Maria I continuou a recorrer aos seus serviços, uma vez afastado Pombal.

 

Mas o terramoto de 1755 não alterou o essencial do plano de reforma do Estado

 

Em Agosto de 1756, o povo de Lisboa em ruínas recebe os 14 navios da Companhia de Pernambuco. Vários dos mercadores e homens de negócios então falidos passaram a funcionários no Estado, incluindo a Junta do Comércio, tais como Caetano Ferreira e Alexandre António Bon, Francisco Nicolao Roncon, Avondano e Alberto Jacqueri de Salles, homens de confiança de Pombal.

 

Deixo aos leitores da obra de Mauro Burlamaqui seguirem as biografias de Mercadores-Banqueiros capazes de influenciar a política europeia. De alguns deles restam traços nessa Lisboa que, em 1750, era a quarta cidade da Europa, uma ”Hong Kong” do Atlântico.

 

O Palácio dos Quintelas junto ao Chiado que serviu de morada e quartel ao General Junot em 1808 e a Quinta das Laranjeiras de Inácio Pedro Quintela. A Quinta das Águias, onde Corte Real filho executou melhoramentos. O Palácio de Vasco Lourenço Veloso em Santa Apolónia, actualmente Quartel da GNR. Pelo meio descobrimos, Miguel Tibério Pedegache, arruinado em 1755, mas que desenhou a célebre Colecção de Gravuras com ruínas do terramoto para o Journal Étranger de Paris.

 

Após a publicação da tese de Mauro Burlamaqui Sampaio haverá ocasião para se pronunciarem os historiadores, os académicos e o público em geral. Mas desde já se detectam novidades que obrigarão a uma releitura do século XVIII português. A obra nada tem a ver com teorias de conspiração. Descreve um momento de viragem histórica para Portugal e fundamental para o futuro do Brasil.

 

A história de um povo é feita de grandes e pequenas coisas. A monumental estátua da Praça do Comércio foi financiada pelos comerciantes de Lisboa a cujas esposas o rei D. José concedeu o tratamento por “Dona”.

 

Ao tratarmos por “D. Ermelinda” ou “D. Maria” a senhora que nos atende na loja, talvez nos lembremos de quem foi o José Francisco e não fiquemos tão obcecados com o Sebastião José.

 

6 Setembro, 2016

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Mendo Castro Henriques

Universidade Católica Portuguesa

 

 

GUERRA À GUERRA?

 

Mobilizar a Europa contra o fundamentalismo
Estará a Europa em guerra? Após cada ataque terrorista, há discursos políticos e acções policiais mas a sequência não tem fim à vista. Os Conselhos de Ministros não se reúnem no Verão

 

Os presidentes viajam para a abertura dos Jogos Olímpicos. Na Síria, prosseguem as operações militares. Na África subsahariana, os meios de intervenção ocidental são muito limitados.

 

As autoridades nacionais continuam a falar em “guerra contra o terrorismo”, o que desafia a lógica: não se faz guerra contra um método de combate.

 

A Europa não está em guerra porque os apelos à mobilização são seguidos por mensagens que só dão armas ao inimigo. Quem fala em ataques à “comunidade católica” ou à “comunidade judaica”, esquece que uma nação de cidadãos é o contrário de um mosaico de comunidades.

 

A Europa não está em guerra porque não aplica soluções para impedir o financiamento de locais de culto radical nem corta os financiamentos da propaganda Salafi-Wahhabique que favorecem as ações jihadistas.

 

A luta contra as redes islamitas exige desenvolvimento económico e social, mas também um forte compromisso das forças políticas em não tolerar pactos com os fundamentalistas islâmicos e seus agentes de países como Arábia Saudita, Qatar, e Líbia.

 

A Europa não estará em guerra enquanto não lutar contra os jihadistas usando as regras de direito comum e dando advertências aos media que se sobreponham aos pareceres técnicos das Entidades Reguladoras da Comunicação. Os velhos partidos políticos que cohabitam com os proprietários dos meios de comunicação e as vedetas dos media pouco fazem. Falta o envolvimento dos cidadãos.

 

Quase se pode dizer que alguns media são coprodutores dos eventos terroristas. Os canais de notícias informam mal, espalham boatos e rumores, difundem imagens que disseminam o medo, e ostentam a tagarelice dos auto-proclamados especialistas. Tudo isto reforça a propaganda jihadista.

 

A informação séria vem do Ministério Público e das Administrações Internas . O resto do tempo dos media é emoção e, a cada cinco minutos, o nome do canal informativo, porque a concorrência é dura. Esta histeria dos media desestabiliza as pessoas e encoraja os actos terroristas.

 

O objectivo remoto dos fundamentalistas é desencadear guerras civis na Europa a partir dos conflitos identitários e comunitários que acendem com cada atentado. Assim procede o Daesh e assim declara o sírio Abu Musab al-Suri, como explicado por Gilles Kepel .

 

Al-Suri prega a luta contra os apóstatas, islamófobos e judeus, as vítimas escolhidas. Uma vez que os políticos clássicos estão desacreditados e não servem para vítimas – o Daesh não ataca ministros, nem deputados nem banqueiros – os fundamentalistas procuram pessoas com que a sociedade se identifique. Escolhem alvos como Cabu, Wolinski, Charb, em França, ou gente anónima nas ruas, metros, ou centros comerciais, para criar a revolta e abrir as portas à guerra civil.

 

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O objectivo é sempre o mesmo: promover a guerra entre grupos, entre comunidades imaginárias sobre cujos escombros nasceria um imaginário califado da Europa.

 

Na Europa de hoje, tal como na ex-Jugoslávia não é o ódio religioso que causa os atentados: são os extremistas de ambos os lados que querem destruir a boa vizinhança.

 

Não se trata de guerra religiosa. Tanto o Papa Francisco como as autoridades religiosas das outras duas grandes religiões defendem exemplarmente a paz. Após cada ataque têm renovado as mensagens e manifestações de repúdio do terrorismo. Podemos ter a certeza de que qualquer escalada de provocações trará nova manifestação de reconciliação entre as autoridades religiosas.

 

Jean-Yves Camus, diretor do Observatório da Fundação Jean Jaurès afirma que os ataques jihadistas visam provocar a extrema-direita. Não há, de momento, risco de crescimento da extrema-direita.

 

Face a este panorama, é importante identificar as propostas que mobilizam contra o fundamentalismo.

 

O primeiro esforço é a escolha das palavras. Falar de guerra será aceitável quando ela se impuser . Se queremos a Europa mobilizada contra o terrorismo, devemos começar por dizer que esta mobilização é pela cidadania. Em particular isso deve ser explicado aos jovens, suscetíveis de incorporarem as forças armadas e as forças de segurança.

 

Depois, a batalha da informação. É preciso que as cadeias de televisão não sejam co -produtoras dos ataques terroristas. A informação em tv’s, jornais e redes sociais deve ser complementada por informações pessoais procuradas noutras fontes que divulgam o trabalho de pesquisadores em filosofia, economia, religião, direito, geopolítica …

 

Depois, vem a batalha contra o medo: é uma luta pessoal e uma exigência coletiva. É preciso evitar que o medo se espalhe e degenere em pânico. Nunca esquecer que os terroristas são empreiteiros do medo. A batalha da informação ajuda a conter medos e dirige a energia para as acções necessárias.

 

Vem seguidamente a luta no terreno contra os fundamentalistas islâmicos na Europa onde operam através do salafismo-wahhabismo com correntes de transmissão em França, Alemanha e Espanha.

 

Finalmente, vem a guerra com operações militares. Os campos de batalha de hoje podem não ser os de amanhã. Os jihaddistas infestam os territórios iraquianos e sírios e a África subsahariana mas amanhã poderão saltar para a Turquia, ou Líbia. Para um país como Portugal poderá ser interessante cooperar com as operações do exército francês no Sahel, barrando a África contra o jihadismo.

 

A Europa precisa de uma mobilização pela cidadania contra os fundamentalistas islâmicos que visam criar um ambiente de guerra civil entre “comunidades”. Os jihadistas agrupam-se em pequenos células mas não representam uma verdadeira alternativa ao estilo de vida ocidental.

 

A finalizar, sugiro que vejam o filme britânico Eyes in the Sky de 2016. É um retrato dos dilemas em que se chocam as duas grandes tradições de direitos no Ocidente usadas contra os fundamentalistas: o direito supremo da comunidade sobreviver – salus populi suprema lex esto – como diziam os romanos; e os direitos humanos levados ao ponto extremo de fazer justiça, mesmo que o mundo se perca.

 

É este dilema que está no centro da mobilização das nações europeias.

 

11 Agosto, 2016

 

Mendo Castro Henriques.jpg

Professor na Universidade Católica Portuguesa

 

O TOPO DO ICEBERGUE

 

O contragolpe de Erdoğan

 

O presidente islâmico Erdoğan utilizou o golpe militar de 15 de Julho para lançar um contragolpe que está a fazer mergulhar a Turquia no caos e a isolá-la internacionalmente.

 

Hoje, 19 de Julho, o governo demitiu mais de 15.000 funcionários no Ministério da Educação, 257 funcionários no gabinete do primeiro-ministro e 492 clérigos na Direcção dos Assuntos Religiosos. Além disso, mais de 1.500 reitores universitários foram convidados a demitir-se.

 

A purga seguiu-se à demissão de 8.800 polícias, e às prisões de 6.000 soldados, 2.700 juízes e promotores, dezenas de governadores, e mais de 100 generais – ou pouco menos de um terço do corpo. 20 sites de notícias também foram bloqueados. E tudo isto num estado em pé de guerra contra os Curdos e na fronteira da Síria.

 

O conflito aberto entre as Forças Armadas que garantem a laicidade do Estado, e o governo islâmico do AKP já vinha de trás. A política de islamização em slow-motion parecia estar a levar a melhor, após purgas maciças no corpo de oficiais.

 

Contudo, desde os protestos em massa em 2013 na Praça Taksin, a sociedade turca ficou dividida.

 

O presidente e o governo transformaram metade do eleitorado do AKP em militantes e recusaram-se a ouvir a outra metade e a maioria da elite turca.

 

Em política externa, Erdoğan proclamava “zero problemas com os vizinhos” mas conseguiu deteriorar as relações com os parceiros globais e regionais.

 

Com a crise na Síria, provocou o regresso das lutas no Curdistão turco, colocando o país em estado de guerra. No Egipto, o seu protegido islamita, o general Mohamed Morsi, foi deposto. A relação com a União Europeia ficou arruinada após a Alemanha reconhecer o genocídio arménio de 1915.

 

Após décadas a lutar por esse objectivo, a Turquia perdeu a oportunidade de aderir à UE num futuro previsível. As tensões com os Estados Unidos cresceram com a questão curda. O abate do bombardeiro russo provocou uma crise com Moscovo.

 

Perante esta deterioração do regime, os adversários militares do presidente avançaram a 15 de Julho. Sobre o pronunciamento falhado, muito iremos saber nos próximos dias e semanas.

 

Como foram capturados o chefe do Estado-Maior General Hulisi Akkar e outros altos comandantes refém dos rebeldes? Porque foi ordenado o bombardeio do edifício do Parlamento turco? Porque falhou o golpe? Porque faltou coordenação?

 

O golpe de 15 de Julho – semelhante ao de 1960 – foi organizado por oficiais intermédios que formaram um Conselho da Paz. Fala-se que o líder foi um comandante na reserva da Força Aérea.

 

Os comunicados lidos na TRT falavam de uma Turquia de regresso a Ataturk. Mas há indícios de que tinha apoiantes do movimento Gülen nas forças armadas. Contudo, a Turquia é o país dos documentos forjados.

 

Os serviços de informações souberam da tentativa de golpe apenas 5 horas antes. Se o 1º Exército com sede em Istambul, e o seu Comandante Gen. Ümit Dündar tivessem avançado em força, talvez a história fosse diferente.

 

Assim, apenas unidades isoladas ocuparam o Aeroporto Atatürk e cortaram as pontes do Bósforo. O gen. Dündar chamou as unidades aos quartéis, e o golpe colapsou em Istambul, a zona europeia da Turquia. No resto do país, foi caindo aos poucos durante a madrugada de 16 e Ümit Dündar passou a chefe do estado maior do Exército. Até ver.

 

Começou então na manhã de 16 de Julho o contragolpe de Erdoğan e que continua em força. Fala-se de mais de 2800 militares, incluindo cinco generais, e 2745 juízes e muitos jornalistas presos, números a confirmar. O espancamento dos militares derrubados pelos militantes do AKP também nada augura de bom.

 

O contragolpe de Erdoğan está a consistir num expurgo radical dos presumíveis Gulenistas nos tribunais supremos e intermédios. As listas já estavam preparadas.

 

Nada de bom virá da Turquia nos tempos mais próximos. A mão de ferro de votantes que Erdoğan converteu em militantes promete o pior. Desde o fim de semana de 17 de Julho, EUA e a União Europeia já estão a passar para o plano B de isolamento do regime turco.

 

A deriva de Erdoğan para a ditadura ou “democracia plebiscitaria” sem poderes independentes já recebeu avisos de John Kerry, da União Europeia, da chanceler Merkel, da NATO de que não pode continuar. E não recebeu apoio dos países árabes. A questão dos refugidos tornou-se, novamente, dramática.

 

À medida que continuar a eliminar o Estado de Direito, num processo que já vinha de trás, Erdoğan vai ter que contar com a oposição dos EUA e da União Europeia. A política joga-se em muitos palcos e do icebergue só se vê o topo.

 

Iceberg.jpg

The tip of the Iceberg — Image by © Ralph A. Clevenger

 

Contudo, metade da nação turca sente-se bem com o estilo autoritário e a arrogância de Erdoğan. Quase 50% deram-lhe a maioria absoluta do Parlamento em Novembro do ano passado. E só o trabalho de uma geração poderá mudar este culto do poder e quebrar o fatalismo otomano. É uma questão cultural, e não tem solução política à vista.

 

Por outro lado, e por paradoxal que seja, o governo Erdoğan foi salvo pelos meios de comunicação turcos, que ele perseguiu nos últimos anos. Sem a CNN-Türk, NTV e outros canais que desafiaram as ordens dos revoltosos, e lhe deram palco a para chegar às massas, o golpe poderia ter sucesso. A própria comunicação do presidente às massas populares via telemóvel ficou um ícone da política contemporânea.

 

Será que Erdoğan se vai render aos meios de comunicação livres? Certamente que não. Mas os meios não o vão ajudar também. Um governo eleito é melhor que um governo golpista.

 

O governo em funções foi eleito e deve ser substituído nas urnas. Se não fosse sacrificado o governo eleito em 1960 por um golpe militar, talvez a democracia turca fosse hoje muito mais forte.

 

Talvez tenha passado a era dos golpes militares. Mas a paz não começou.

 

As portas do inferno estavam entreabertas. Agora ficaram escancaradas. Razão de sobra para o Ocidente se precaver e lutar ainda com mais denodo pelos valores que inventámos de paz e de respeito. Paz e respeito, sim mas estupidez e cobardia, não.

 

Aguardemos.

 

19 de Julho de 2016

 Mendo Castro Henriques.jpgMendo Castro Henriques

Faculdade de Ciências Humanas, Universidade Católica Portuguesa

BREXIT

 

A derrota do sucesso

 

Ainda estamos a digerir o que sucedeu em Inglaterra desde o referendo de 23 de Junho. A começar pelos ingleses, pois cada vez é menos evidente se o Brexit vai avante. Por muitas razões.

 

Muita água correrá debaixo das pontes do Tamisa até surgir uma solução. Mas uma coisa é certa. Os critérios para explicar o fenómeno do Brexit não são económicos, nem financeiros nem sequer políticos mas sim culturais e vão até ao tutano do ser humano.
 

Desde 23 de Junho desenrola-se um espectáculo tão agitado quanto uma tragédia de Shakespeare, alimentado pelos demónios à solta da xenofobia, ganância, ressentimento e traição, e de uma falta total de bom senso e pragmatismo, tudo isto no país europeu que julgávamos corresponder a este estereótipo.

 

O poema Waste Land de T. S.Eliot aplicou-se nos anos 20 a uma sociedade devastada pelos desastres da Grande Guerra. Um século depois, a minha percepção do que se passa em Inglaterra é que uma sociedade também é devastada pelo sucesso.

 

Nenhuma praça financeira é tão orgulhosa quanto a City de Londres onde trabalham mais de meio milhão de pessoas. A City só tinha a ganhar em ficar na Europa. Mas a City perdeu no referendo.

 

Nenhuma monarquia europeia parece tão legítima e enraizada quanto a britânica. Mas a rainha Isabel II arrisca-se a ser a última do Reino Unido se a Escócia quiser ser independente e europeia.

 

E, sobretudo, nenhum povo europeu tem a reputação de ser tão democrático quanto os britânicos. Contudo, o dia 23 mostra o pior da democracia como ditadura da maioria que vai buscar legitimidade ao grotesco abuso de poder da maioria conjuntural.

 

Se uma maioria – mesmo qualificada – votasse restabelecer a pena de morte, quem acharia legítimo? 75% dos jovens britânicos votaram pela Europa e claro que são contra o fim de direitos como a liberdade de circulação no espaço europeu.

 

A democracia nunca deve ser uma ditadura da maioria, seja na região da Madeira, na Coreia do Norte, ou no Reino Unido. Não pode sujeitar-se a decisões conjunturais que se contradizem. O 1º referendo ao Brexit disse Não. O 2º disse Sim. Quase 5 milhões já pediram um 3º referendo mas seria ridículo e gravoso seguir esse caminho.

 

Uma consulta popular com implicações constitucionais exige uma maioria qualificada. E as constituições democráticas restringem algumas opções legislativas a fim de proteger pessoas e minorias. Em nome do bem comum que não pode ser destruído por demagogos.

 

Mas foi isso mesmo que sucedeu no 23/6. Após uma campanha de mentiras e xenofobia do lado dos Brexiteers e após uma campanha mole do Remain, a apontar os males da saída e nunca os benefícios da União. Boas razões havia de ambos os lados. Há sempre. Chama-se política.

 

Creio que ainda ninguém assinalou que o 23 de Junho é o Midsummer’s night dream, o sonho de uma noite de S. João, com uma galeria de personagens dignas de Shakespeare.

 

Sonho de uma noite de Verão.png

A Midsummer Night’s Dream

“The Reconciliation Of Oberon And Titania” by Joseph Noel Paton

 

David Cameron demitiu-se na manhã de 24. Tem muitas culpas no cartório. No início terá sido um “Blair dos Conservadores”. Mas a ambição levou-o a propor um novo referendo para roubar votos ao UKIP. Agora vai atravessar o deserto.

 

O carismático Boris Johnson demitiu-se no dia 27. Após sair de mayor de Londres, passou-se em Fevereiro para o Leave. Seria o herdeiro de Cameron. Mas logo a 24, sem fazer declarações e vaiado percebeu que era um rato numa armadilha.

 

Nigel Farage, o ex-dirigente do UKIP da extrema-direita, mostrou um grau de irresponsabilidade total. No dia 24 começou a negar as promessas do Brexit. A 5 de Julho foi-se embora, com a sua fatiota bem engomada e o ar de palerma. Foi o tiro final no porta-aviões.

 

Jeremy Corbin, um dinossauro socialista que não aprende nem esquece nada deixou que o seu eleitorado trabalhista, farto de sofrer, desse a vitória ao Brexit. Deverá ser o próximo a demitir-se.

 

Michael Gove, Teresa May e outros talibans Conservadores que traíram o seu líder, David Cameron, irão disputar a liderança. São verdadeiras bruxas de Macbeth a preparar o cálice de veneno (1).

 

Caso o Brexit avance, fica à vista o desastre: o desinvestimento, a queda da libra, a independência da Escócia, os problemas das fronteiras da Irlanda, de Gibraltar, de Calais, a montanha de nova legislação… a lista é grande.

 

O resultado do referendo não é vinculativo. O Parlamento pode decidir de outro modo. Quem vai despoletar a granada do artigo 50? Quem quererá fazer o harakiri britânico ?

 

Quem mais depressa entendeu que nem tudo estava decidido em Inglaterra foi a chanceler Angela Merkel. Desmentiu as declarações duras e estúpidas da reunião dos Seis no Luxemburgo e veio abrir a porta a um estadista razoável em Inglaterra.

 

Há quem goste de esquecer que a Alemanha actual é a nação europeia que bebeu até ao fim, com Hitler, o cálice do populismo. Por isso proíbe os referendos na sua Constituição e recusa a ditadura das maiorias.

 

Neste momento, resta esperar que se erga alguém do Partido Conservador com a coragem de dizer que o Brexit é um crime contra a história da Inglaterra e contra a Europa das nações.

 

Os ingleses hão-de recuperar mas têm pela frente o ano mais longo das suas vidas. Apesar de tudo é o país de Churchill e de Shakespeare. De estadistas capazes de decisões corajosas e anti populistas e de gente capaz de parar para pensar, como só a cultura é capaz.

 

O Brexit não foi bom nem mau: foi a consequência de uma sociedade degradada até ao tutano pelo sucesso aparente, da sua libra orgulhosa, das suas instituições tradicionais. Mas nada disso vale quando desaparece aquele espírito de sacrifício, abnegação e bem comum que faz as nações viver.

 

A finalizar. O lado bom deste mal inglês, desta derrota do sucesso, foi ter alertado para o outro mal crónico da Europa: o pan-germanisno. Mas esse fica para o próximo artigo.

 

5 de Julho de 2016

Mendo Castro Henriques

Mendo Castro Henriques

Faculdade de Ciências Humanas, Universidade Católica Portuguesa

 

 

(1) Teresa May foi entretanto nomeada Primeira Ministra

BREXIT

FICA, INGLATERRA!

 

Escolho o dia anterior ao referendo britânico sobre o “Fico” ou “Saio” da União Europeia, para me pronunciar sobre o tema. Antes de saber os resultados, desde já declaro, com risco, que creio que vencerá o “Fico!”

 

E creio que será um melhor resultado para os europeus e para o mundo. Creio que também será melhor para os britânicos, mas respeitar as democracias nacionais significa respeitar o que elas decidirem.

 

Antes de mais, aquilo a que os manipuladores de opinião chamam Brexit – termo de si já traiçoeiro – oculta um consenso entre os ingleses pró e contra: não gostam que a democracia britânica receba ordens da burocracia de Bruxelas. É uma premissa maior partilhada pela esmagadora maioria dos ingleses.

 

Mas depois dividem-se, claro, na premissa menor. Os da “Saída” usam toda a casta de argumentos, desde as lamúrias neoliberais e conservadoras à maneira da senhora Thatcher – “Quero o meu dinheiro de volta!” – até ao nacionalismo tacanho do UKIP com medo dos estrangeiros e nostalgias do império, passando pelo racismo e xenofobia que levaram ao tenebroso assassinato da deputada Jo Cox, do “Fico”.

 

Os do “Fico” fazem contas de que abandonar a Europa sairá muito caro - menos 5% do PIB a prazo; falam da responsabilidade social e política da Inglaterra para com o projecto europeu, como Corbin; e, tal como Cameron, falam da instabilidade política. Uns poucos dizem ainda que a Grã-Bretanha fechou o ciclo do império e tem de acolher a Europa, o Erasmus e a mobilidade.

 

Se olharmos para o mapa das sondagens, sabemos que Escócia e Grande Londres votam maioritariamente pelo “Fico” e que Gales o Ulster também assim votam, em menor grau. E que as províncias inglesas votam maioritariamente pela “Saída” com manchas mais difíceis de racionalizar.

 

Os argumentos económicos e financeiros já foram explicados cem vezes. A City dos negócios financeiros gosta da UE. Os exportadores ingleses gostam da UE. Os ingleses das cidades menores e províncias têm medo de perder empregos e pagar impostos para os “ preguiçosos do sul” com quem passam férias sem trabalhar. Os escoceses e, em menor grau, galeses e irlandeses do norte gostam da UE porque assim não estão vinculados apenas à “little England”.

 

Contudo, o tutano dos argumentos de ambos os lados, nas entrelinhas, nos subentendidos, nos understatements de que o ingleses tanto gostam é outro: é a defesa apaixonada da democracia de que os ingleses justamente se ufanam desde a Magna Carta; é o sentido do humanismo individual que vem desde o anónimo de York no séc XI, até Tomás Moro no séc. XVI, e Winston Churchill na segunda Guerra Mundial. “Their finest hour” foi sempre contra os feudais, contra os fundamentalistas, contra Napoleão, contra os nazis. Será que Bruxelas é um papão deste tipo? Ou será que a Inglaterra tem um complexo de superioridade?

 

MCH-brexit.jpg

Fica, Inglaterra!

 

Bruxelas não é papão como os fundamentalistas e os nazis. Mas a enorme propaganda dos tablóides agitados pela sede de poder de Boris Johnson e Nigel Farage e os activistas do Brexit fazem passar essa imagem. Entretanto, os Britânicos com coragem e coração dizem o contrário e não abusam das palavras “independência” e “liberdade”.

 

A tradição das liberdades civis Inglesas tem muito de mito histórico, mas foi narrada tantas vezes que se tornou um acervo real. A Inglaterra fez a revolução há tanto tempo – cortaram a cabeça ao rei em 1640 – antes de 1789, antes de 1820, antes de 1917 – que parece ter tido uma transição gradual para a democracia. Claro que o parlamento do século 18 não era democrático. E o sufrágio só começou a mudar na década de 1880.

 

E assim chegamos à tradição da democracia. Na Inglaterra, a oposição pode levar o governo a renunciar. Na União Europeia, não é assim. O Parlamento Europeu é uma coligação de grandes partidos, o que até evita conflitos. A Comissão que não é eleita faz as vezes de um governo real. Assim, as críticas sobre a natureza anti-democrática da UE são justificadas. Agora só um ingénuo julgaria resolver os conflitos de interesses entre as nações por referendos e decisões de maioria: seria a morte dos pequenos países. Os problemas podem ser resolvidos por negociação e consenso.

 

Ficando a Inglaterra na UE a 23 de Junho, nada fica resolvido dos podres de Bruxelas. O euro é cada vez mais uma fonte de divisão europeia. O euro dos credores vale mais que o euro dos devedores e o BCE não só não resolve esta divisão como a agrava. O euro empurra para a união monetária e esta empurra para um estado confederal. Com o “Fico”, ou com a “saída”, este problema continua em cima da mesa.

 

Mas com o “Fico”, há uma grande diferença que todos os europeus saberão saber apreciar. Com o “Fico”, a Grã-Bretanha terá dado um enorme sinal de que quer continuar a contribuir para domesticar os ímpetos burocráticos de Bruxelas, em vez de deitar a toalha ao chão: e que pretende continuar a alimentar a seiva democrática.

 

A permanência da Grã-Bretanha será um sinal para todos os Europeus que Ingleses, Escoceses, Galeses e Irlandeses do Norte não querem ser substituídos pelos mecanismos de tomada de decisões em Bruxelas. Que poderemos contar com eles, para organizar a vida em comum do século XXI e acolher o mundo numa fase de grandes desafios.

 

Por isso, do alto lugar da minha insignificância, eu apelo: Fica, Inglaterra!

 

22 Junho, 2016

 Mendo Castro Henriques.jpg

Mendo Castro Henriques

Faculdade de Ciências Humanas, Universidade Católica Portuguesa

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