Quarta-feira, 4 de Abril de 2018
KALIMERA – 2

 

EUFORIA

 

Dos dicionários se extrai que «euforia» é um sentimento de alegria e bem-estar que envolve o indivíduo ou que ocorre no meio social.

 

Muito a propósito, a palavra "euforia" tem origem no Grego "euphoria", que significa "capacidade de aguentar facilmente”, de "euphoros", onde "eu" corresponde a “bem” e “phoros” significa “o que carrega”.

 

O termo terá sido utilizado pela primeira vez em 1875 para referir o contentamento dos viciados em morfina. Convenhamos que não «entrou com o pé direito» no léxico moderno.

 

A palavra é também usada no sentido de bem-estar patológico, constituindo um sintoma de diversas doenças mentais. Mas é claro que um indivíduo eufórico nem sempre é portador de um problema psíquico.

 

Contudo, sendo mais intensa, mais breve, mais descontrolada e mais exteriorizada que o sentimento de alegria, a euforia também pode ser apenas uma alegria intensa e passageira que não afecta o estado do psiquismo.

 

Frequentemente, à euforia segue-se a melancolia e quando isso acontece de modo inexplicado, logo se associa o processo ao transtorno bipolar.

 

Na Grécia, à bolha bolsista dos tempos de Constantino Karamanlis, seguiu-se a denúncia do bluff em que a vida grega navegava num processo super-especulativo. Como um pouco por toda a parte, os bancos tinham desbragado a emissão do crédito nomeadamente aos clientes do retalho para que comprassem acções na bolsa eufórica mas quando viram «as barbas a arder» com o rebentamento da bolha especulativa e indesejados níveis de mal-parado, começaram a vender as carteiras tóxicas: os bancos estrangeiros venderam-nas aos bancos gregos e pisgaram-se da Grécia antes que tudo desse para o torto e os bancos gregos levaram Karamanlis a puxar os cordões ao erário público para que o sistema bancário genuinamente grego não fosse todo ao charco. O endividamento público disparou de níveis já muito altos para alturas estratosféricas e foi então que o «Schäuble mausão» falou mais alto do que os gregos gostariam de ter ouvido. E vai daí, eleições à vista porque Karamanlis só queria pisgar-se da cena que deixara instalar-se no sopé do Pártenon.

 

O processo de ajustamento passou por vários resgates de modos mais ou menos radicais sempre apontando para a redução da despesa pública. Mas os vícios eram tantos e tão antigos que só restava recrutar um «encantador de Senhoras» tais quais Ângelas e Cristinas, as chefas dos maiores credores, de modo a que o tempo fosse passando, o Tsipras pudesse manter-se na cadeira do Poder, se encenassem acções tão espectaculares quanto os credores queriam ver e tão demagógicas quanto ao povo apetecia.

 

Mas a mentira não pode eternizar-se e o «encantador de Senhoras» foi finalmente substituído por um triste insignificante de pastinha à cobrador de quotas de clube desportivo que, sem luzes nem ribaltas, passou a fazer o trabalho de casa contando os tostões e somando em vez de sumindo.

 

Resultado? Varoufakis foi à vida e anda agora a criar um Partido Pan-europeu enquanto o desgraçado Euclid Tsakalotos tenta repor alguma verdade nas contas públicas gregas. Mas não será com uma varinha de condão, não. O processo de emagrecimento das velhas mentiras sucessivas tem que ser progressivo de modo a não criar mais tensões sociais e, mesmo assim, lá vai dando um bom-bom ou outro de modo a que a Praça Sintagma não volte a ver mais cenas lancinantes como as da transição de 2015.

 

Crise? É claro que sim, ela existe. Mas disfarçada pela maquilhagem que os credores continuam a financiar.

 

Parthénon-MAR18.jpg

 

À euforia seguir-se-ia a melancolia mas nós, os turistas, somos o verdadeiro anti depressivo de que a Grécia tanto precisava. E, pelo que vi, somos um fortíssimo remédio.

 

Abril de 2018

Acrópole, Atenas-MAR18.JPG

Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 19:57
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Terça-feira, 3 de Abril de 2018
KALIMERA - 1

 

 

Há sensações mais agradáveis do que essa de nos sentirmos analfabetos. É que basta afastarmo-nos dos lugares de Atenas e suas redondezas mais turisticados para que os letreiros gregos sejam um verdadeiro despeneiranso para quem tem a mania de que é sabichão. E lá fui recordando o alfa, o beta, o gama, o delta e seus seguidores mais usados em matemática para começar a soletrar uma palavra ou outra e, daí, tentar extrair alguma informação. Mas os resultados eram tão minguados que foi com alívio que, chegando ao centro, comecei a encontrar letreiros bilingues. Lembrei-me depois do tau, do ró, do fi e do psi para já não falar do nosso amigo pi. Conclusão: vai aprender e deixa-te de peneiras.

Alfabeto grego.png

 

Crise? Não vi. À semelhança do que se vê em qualquer outra capital europeia, topei com alguns sem-abrigo que me pareceram alcoólatras e não propriamente desgraçadinhos escorraçados da sociedade estabelecida pela crise por que a Grécia passou. E aqui aplico o Pretérito do verbo «passar» porque não vejo motivo (aparente) para o conjugar no Presente. E é claro que estou a referir-me a esses tempos no Indicativo. Eu indico que por ali não há crise porque conjuntivamente, a questão seria a de saber se ela (a crise) por ali passasse, se o aspecto da vida que passava à minha frente seria aquele. Impossível.

 

Portanto, das duas, uma: ou não há crise ou eles são todos uns fingidos.

 

Vamos por partes…

 

A crise não existe enquanto os credores permitirem, enquanto não puxarem o tapete. E será que vão puxar? Não creio. Arriscavam-se a perder tudo o que lá enfiaram. Assim, pelo menos, vão recebendo os juros.

 

Mas a desfaçatez com que eles mentem aos credores é que me parece fantástica: fazem uns Orçamentos todos certinhos com a vontade alemã e logo de seguida se ficam nas tintas e fazem o que querem. Exactamente ao contrário do que se passa em Portugal onde o Governo faz Orçamentos todos folclóricos para agradar à «geringonça» para logo depois os regarem com uma chuva de cativações que os põem à maneira dos credores.

 

Mentira por mentira, prefiro a nossa.

 

Até que me deparei com um taxista que me explicou tudo.

 

Já lá vamos, fica para a próxima.

 

3 de Abril de 2018

Holanda-JAN18.JPG

Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 22:15
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Terça-feira, 20 de Março de 2018
FILOSOFANDO…

 

 

Quem trabalha para além da superfície das coisas, embora possa enganar-se, limpa o caminho para os outros e pode até fazer com que os seus erros sirvam a causa da verdade.

 

Edmund Burke

In «Uma Investigação Filosófica Acerca da Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo», ed. EDIÇÕES 70, Setembro de 2013, pág. 73



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 18:50
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Sexta-feira, 16 de Março de 2018
OUTRAS DIMENSÕES

 

 

Hoje, trato de duas ocorrências noutras dimensões que não nas tradicionais dos três eixos cartesianos mais a do tempo. E ambas na mesma família.

 

São eles irmãos, filhos, sobrinhos, netos, mulheres e maridos de quem eu gosto e tenho por amigos. Gente de fé, não beata.

 

A primeira história é rápida.

 

Um desses a que rotulo de marido (da mulher dele, está claro), quando criança, andava a certa altura muito murcho, com febres e febrinhas que não atavam nem desatavam com os antipiréticos habituais. Chamado o médico, foi o petiz auscultado demoradamente até que se concluiu que talvez fosse bom passar aos antibióticos, medicação então relativamente moderna. Mas a «coisa» não apresentava modos de cedência e chegaram mesmo a fazer-lhe umas chapas ao tórax. O diagnóstico concluiu por uma primo-infecção, esse vestíbulo da tuberculose. E o nosso «homem», cada vez mais tolhido pelas febres, tosses e tossicas… com a família a entrar em desespero. Ah! Os bifes de cavalo eram muito bons para dar forças a quem elas faltavam e o óleo de fígado de bacalhau tonificava o corpo esmorecido. Ah! Os antibióticos conjugados com os sinapismos também eram muito bons. Os quê? Os sinapismos! E o que era isso? Eram cataplasmas de mostarda que se aplicavam como revulsivo que ao irritar a pele se dizia que descongestionavam os órgãos e tecidos profundos subjacentes e, assim, contrariavam os processos inflamatórios.

 

E nada…

 

Foi já em desespero que o próprio médico assumiu que o cenário era francamente mau e que a sua ciência não lhe permitia mais fazer. Que fossem a Fátima orar.

 

E foram!

Fátima - capela das aparições.jpg

 

Rezaram com verdadeira fé pedindo que se salvasse o rapazito. Por lá ficaram um dia inteiro entre preces e lágrimas mas pela tardinha tiveram que regressar a Lisboa.

 

E nos dias seguintes o António deixou de tossir, a febre desapareceu e há dias fez 74 anos na companhia da mulher com quem é casado há uma porrada de anos e rodeado de filhos, noras e netos.

 

Haja saúde e continuemos…

 

A segunda história tem um final diferente.

 

O novelo de lã era cinzento, dizia miau e tinha patas brancas. E foi o enlevo da criançada. Fez-se um gatarrão mas não era muito de se deixar ficar calmamente em casa. Saltava da varanda do primeiro andar para cima de um telheiro e daí para o jardim. Desaparecia durante uns dias e voltava sempre arranhado e com fome. É claro que andara às gatas em bulha com os outros gatos das redondezas e que nem sequer tivera tempo de procurar comida. Quando voltava, deitava-se sobre o tapete do lado de fora da porta da casa dos donos, da sua casa, até que alguém o visse e lhe desse entrada. Recomposto, era só esperar uma semana e lá ia o «Tareco» às gatas suas amigas.

 

Tareco.jpg

 

Até que um dia o dono adoeceu e se sentou com uma manta sobre os joelhos. E o «Tareco» passou a ficar em casa mais do que até então era habitual deitando-se no chão sobre a ponta da manta que por ali sobrava. Mas se ficava mais tempo em casa, as passeatas eram insubstituíveis e lá ia ele… Só que voltava com mais frequência, claramente para visitar o dono que ele sabia estar doente.

 

Até que um dia chegou junto do sofá vazio do dono. Logo percebeu que já não havia dono a quem pudesse fazer companhia, deu um grito de desespero, saltou e desapareceu janela fora como sempre fizera.

 

Passados dois dias, quem abriu a porta viu o «Tareco» deitado sobre o tapete do lado de fora da porta. Sim, tinha ido fazer companhia ao dono naquela outra dimensão.

 

Março de 2018

Barranco, Lima, Peru, 12 de Outubro de 2017.jpg

Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 17:48
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Segunda-feira, 12 de Março de 2018
PORTUGUÊS, LÍNGUA DIFÍCIL

 

 

«Homem mata amante com vinte facadas no Fundão

Vera, assinada com facadas no Fundão..jpg

 

 

«Vera fazia 30 anos este domingo. Foi o filho de cinco anos que encontrou o corpo.»

“Correio da Manhã”, 11 de Março de 2018

 

Sinceramente, acho que as facadas podiam ter sido dadas noutra região da amante e não seriam necessárias as tais vinte. Se fosse na carótida, bastaria uma em vez das vinte no fundão.

 

Nada disto tem graça, ao contrário do que possa parecer à primeira leitura. Eu limitei-me a ler o título, não li a notícia e ignoro todo o drama envolvente.

 

O primeiro problema com que nos deparamos não é o assassinato – com o que nada temos a ver – mas sim o «analfabetismo» do jornalista que redigiu a notícia. Pior ainda, a negligência do chefe desse tal «analfabeto» que deixou passar tal título.

 

É claro que a frase deveria ter sido escrita de modo bem diferente: «No Fundão, homem mata amante com vinte facadas».

 

Eis como o gozo não teria oportunidade de espreitar sobre o ombro de um drama real nem sobre a incompetência de quem comunica com o público.

 

Triste sociedade esta que está nas mãos de tal qualidade informativa.

 

Março de 2018

 

Buenos Aires, 2012.jpg

 Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 14:22
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Sábado, 10 de Março de 2018
ESTA HISTÓRIA QUE VOS CONTO…

Dr. Ruy d'Andrade.jpg

O dr. Ruy D’Andrade montando o seu cavalo «Vulcano» em “piaffer” e seguido pelo seu galgo «Talego»

 

 

O Dr. Ruy d'Andrade foi o último Presidente da Câmara Municipal de Elvas no período monárquico. Como se compreende, tinha muitos conhecidos na região (a sua propriedade mais conhecida é «Font'Alva» onde ainda hoje vive o neto José Luís) e foi um desses conhecidos que o informou de que se preparava o assassinato do Rei D. Carlos aquando do desembarque em Lisboa daí a poucos dias.

 

O Dr. Ruy pôs-se de imediato a galope (neste cavalo???) de Elvas a Vila Viçosa para avisar o Rei do que acabara de saber e, uma vez chegado, foi ter com D. Carlos e transmitiu-lhe a informação. E o Rei, pondo-lhe uma mão num ombro, respondeu: - Oh Ruy! Já viste que bonito está o tempo?

 

Esta história foi-me contada pelo próprio Dr. Ruy que, comentando, reconheceu que o Rei lhe cortou a conversa como se já soubesse de tudo. O Dr. Ruy entendeu que o Rei se queria imolar. Porquê, para quê? Respostas que estão no túmulo de D. Carlos no Panteão Nacional.

 

Março de 2018

Buenos Aires, 2012.jpg

Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 17:25
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Quinta-feira, 8 de Março de 2018
NO DIA MUNDIAL DA MULHER

 

igualdade de género.jpg

 

ATESTADO DE MENORIDADE

 

As quotas de género que impõem uma determinada percentagem de mulheres nas listas disto e daquilo, nos corpos directivos e outras condições profissionais e políticas, são aviltantes por constituírem um atestado de menoridade à mulher.

 

A mulher acaba por ser nomeada para aqueles cargos sujeitos às tais quotas por ser mulher e não propriamente por ser competente para o exercício do cargo. E a dúvida persiste por mais competente que a mulher seja: está lá por ser competente ou por causa das quotas?

 

Uma vergonha para a dignidade feminina.

 

Daqui sugiro a quem exige igual dignidade aos dois sexos que promova o fim desse atestado de menoridade.

 

Março de 2018

 

Henrique Salles da Fonseca.png

Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 13:41
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Sexta-feira, 2 de Março de 2018
OS DISCURSOS QUE REGISTEI - 1

 

Parte 3

ELOGIO FÚNEBRE DE D. MANUEL TRINDADE SALGUEIRO

 

POR

MANUEL DE ALMEIDA TRINDADE

 

2) O INTELECTUAL

 

Este homem, dotado de tão fina sensibilidade, foi também, no mais amplo significado do termo, um intelectual. Para quem o conhecesse de perto não seria, aliás, fácil descobrir qual das faculdades alcançava nele o predomínio: se a cabeça, se o coração. Em todo o caso a vocação intelectual deixou nele bem gravada a sua marca.

 

Cedo se revelou o seu amor ao estudo e a capacidade de aprender.

 

Pena seria se um talento, que se apresentava tão promissor, houvesse de ficar desaproveitado, como certas pedras preciosas que nunca chegam a espelhar o seu brilho por falta de lapidador idóneo, capaz de facetá-las. O que salva muitas vezes estes valores escondidos é a ambição – feliz e santa ambição! – de uma mãe que deseja para os seus filhos uma situação que ela porventura não teve. As mães são capazes de sacrifícios sem peso nem medida.

 

O exemplo vem já do Evangelho na pessoa da mãe de Tiago e de João: «Senhor, fazei com que estes dois meus filhos se sentem um à Vossa direita, outro à Vossa esquerda, quando se instaurar o Vosso reino».

 

A Providência serve-se destas preocupações, às vezes demasiado terrestres, para encaminhar os homens e as coisas para os seus fins altíssimos. Ela se encarregará, através das purificações do sofrimento – o «cálix» de que Jesus falou, em resposta, à mulher de Zebedeu – de dar o verdadeiro sentido ao fruto de um desejo materno.

 

Nesse já longínquo ano de 1911, em que o jovem Trindade Salgueiro terminou o curso de instrução primária, não consta que estivesse muito vulgarizada a instituição de bolsas de estudo, como acontece hoje por toda a parte, para permitir a ascensão de valores que, doutro modo, jamais se revelariam. Nessa altura, se isso acontecia, era por excepção. A Mãe, a qual não desejava ter um filho que viesse a morrer de naufrágio, como havia morrido o marido pescador, teve de suportar as consequências da sua generosa ambição. No testamento espiritual em que o Arcebispo de Évora espelhou a sua alma, há uma discreta alusão a esses primeiros anos em que, para o seu «Menino» ter uma posição na vida, muito trabalhou e sofreu a pobre Mãe.

 

Em Outubro de 1914, depois de ter concluído o 3.º ano no liceu de Aveiro, Trindade Salgueiro entrou no Seminário de Coimbra.

 

Havia completado, dias antes, 16 anos de idade. Não se podia dizer que fosse uma vocação tardia, mas já não era uma vocação de infância. Decidia-se a iniciar a vida eclesiástica precisamente na idade mais difícil – a idade em que os jovens começam a desabrochar para a vida afectiva e a deixar-se tocar pelo encanto e pela sedução do amor humano.

 

E decidia-se também numa época da vida da Igreja em que esta não prometia vida fácil a quem quisesse servi-la.

 

A Diocese de Coimbra, que nessa altura estendia a sua jurisdição até ao Vouga, englobando dentro do seu território a cidade de Aveiro e a populosa vila de Ílhavo, encontrava-se na situação de sede vacante. O bispo Bastos Pina, velho roble gigantesco, acabara por ceder ao peso dos anos e das desagradáveis surpresas que trouxera a mudança do regime. Era uma hora amarga aquela que atravessava a igreja em Portugal. A Lei da Separação, entre outras arbitrariedades cometidas, mandara encerrar todos os Seminários Menores. Dos Maiores a Lei apenas permitia que cinco continuassem abertos: deviam, porém considerar-se a funcionar em casa alheia, da qual haviam consequentemente de pagar renda, pois o Estado tinha confiscado em benefício seu a propriedade deles.

 

Muitos pais, que antes da proclamação do novo regime tinham incitado – nem sempre porventura com recta intenção – os seus filhos a seguirem a carreira eclesiástica, agora, perante os vexames e o cerceamento das legítimas liberdades a que eram sujeitos os católicos em geral e o clero em particular, tiveram medo.

 

O Seminário de Coimbra contava em 1910 mais de duas centenas de alunos; pouco tempo depois, via reduzido para 35 o número dos candidatos ao sacerdócio.

 

Antes de 1910 ninguém teria cometido a ousadia de pensar que fosse possível em Portugal uma Igreja livre, a qual, para ocorrer às suas necessidades, houvesse apenas de viver da generosidade dos fiéis. O meio século já decorrido é a demonstração de que é possível não só a existência de uma Igreja livre, num clima de mútuo respeito perante o Estado, mas também de uma Igreja viva e renovada.

 

Profetas da desgraça, porém, fora e dentro do País, auguravam para a Igreja, senão o desaparecimento, pelo menos um declínio fatal. Quem havia de nos dizer que, cinquenta anos depois, um Sucessor de Pio X havia de atravessar o Atlântico para, a convite das Nações Unidas, dirigir, da sede destas, a todos os povos não uma simples mensagem de paz, mas um autêntico código que regule a convivência pacífica entre as Nações?

 

Poucos seriam capazes destas previsões em Outubro de 1914, quando o jovem Trindade Salgueiro entrou no Seminário de Coimbra para seguir a carreira eclesiástica. Ser padre, quando tantos, receosos do futuro, renunciavam a sê-lo abandonando o Seminário, terá parecido uma loucura. Quem sabe se não terá sido precisamente esse espectáculo de abandono e o rosto da Igreja desfigurado pela perseguição, que acordou a vocação sacerdotal de Trindade Salgueiro, como a de alguns outros heróis de há cinquenta anos?

 

No ano seguinte tomava posse da Diocese o sucessor de Basto Pina. Era um antigo aluno da Faculdade de Direito de Coimbra, Governador do Bispado do Porto durante o exílio de D. António Barroso. Chamava-se D. Manuel Luís Coelho da Silva. Não é sem comoção que pronuncio este nome. Ele suscita no meu espírito um movimento de ternura e de gratidão. Conheci-o já no declínio da vida. O homem enérgico, que afrontou com indómita coragem inúmeras dificuldades, era nesta altura um leão moribundo. Quando a vida dele se finava, a minha apenas desabrochava.

 

Trindade Salgueiro encontrava-se na geração do meio: aquela que pôde colher a lição do ínclito Prelado e transmiti-la, aureolada de admiração e respeito, àqueles que vieram depois.

 

Seria difícil dizer até onde a sua alma ficou marcada pela impressão digital da grande personalidade do bispo Coelho da Silva. Frequentes vezes, em conversa particular ou em discurso público, lhe vinha à mente a lição da vida e os nobres exemplos do Bispo de Coimbra, tão fortemente a sua figura lhe tinha ficado gravada no coração.

 

Depois da primeira Grande Guerra, a Alsácia voltou à posse da França. O governo francês deu-se pressa em restaurar as antigas faculdades de Teologia de Estrasburgo. Para atrair escolares, ofereceu bolsas de estudo a alunos estrangeiros. Trindade Salgueiro, ordenado sacerdote em 1921, foi indigitado pelo seu Prelado para concorrer a uma dessas bolsas. No Outono de 1922 o jovem presbítero atravessou pela primeira vez a fronteira do País para começar os estudos superiores naquela cidade da beira do Reno. Aí alargou a sua cultura e a sua experiência humana.

 

Então, como agora, havia em Estrasburgo duas Faculdades de Teologia: uma católica, outra protestante. Estava-se nessa altura ainda longe do espírito ecuménico que havia de soprar sobretudo a partir da segunda Guerra Mundial. A Teologia revestia um aspecto polémico e apologético. Dentro dessa orientação, a Escola de Estrasburgo tornava-se notável principalmente pelos estudos de Teologia positiva e de investigação histórica. A ela pertenciam grandes figuras de teólogos que Trindade Salgueiro recordava sempre com veneração e carinho. Muitos deles eram colaboradores desse monumento de ciência teológica, honra da cultura católica francesa: o Dictionnaire de Théologie Catholique. Bastaria lembrar, além do nome de Mr. Amann que depois de Vaccant e Mangenot assumiu a direcção da enciclopédia e a levou a termo, os dos professores Gaudel e Rivière, para só citar aqueles de quem mais vezes lhe ouvi falar.

 

Foi nessa linha de investigação histórica que Trindade Salgueiro se deixou orientar durante o tempo dos seus estudos em Estrasburgo. O Título da tese de doutoramento fala por si: «La doctrine de Saint Augustin sur la grâce d’aprè le Traité à Simplicien».

 

A passagem pela França deixou marca indelével no espírito do jovem estudante. Desde então Trindade Salgueiro nunca mais deixou de ser um frequentador apaixonado dos livros franceses. Muitos nomes de autores de além Pirenéus, alguns deles já hoje suplantados por outros de brilho mais intenso ou simplesmente mais recente, aprendemo-los nós, os que passámos pelo Seminário de Coimbra na geração seguinte, da boca de Trindade Salgueiro: René Bazin, Paul Bourget, Paul Claudel, os Padres Gratry e Sertillange, Jacques Maritain, Henry Bergson, para só falar nalguns.

 

A frequência dos autores franceses, mais claros embora nem sempre tão profundos como os de língua alemã, contribuiu para um estilo de pensamento e de arrumação de ideias que era característica do espírito de Trindade Salgueiro. Os seus escritos, sempre bem esquematizados, límpidos e ordenados, a que não faltava às vezes uma pontinha de ironia queiroziana, revelava a ordem de um pensamento em que predominava o método da análise e da dedução. Por alguma coisa o seu espírito se tinha formado na prática de Descartes.

 

Trindade Salgueiro era uma vocação nítida de intelectual – não do erudito dado simplesmente à investigação, mas do homem que investiga para ensinar, que reflecte para transmitir. Disso deu ele sobeja prova durante o magistério exercido, com tanto brilho, no Seminário diocesano e, mais tarde, na Faculdade de Letras de Coimbra.

 

Alguém lamentará porventura que a este homem, tão amplamente dotado, não tenha disso possível deixar uma obra escrita à altura do seu talento. Esse, talvez esqueça que Trindade Salgueiro se ordenou primariamente para servir a Igreja e o serviço da Igreja obriga muitas vezes a renúncias dolorosas.

 

A cidade de Coimbra, pela presença ali da Universidade e especialmente dos jovens que a frequentam, oferece um vasto campo de apostolado. Rapazes e raparigas buscam o sacerdote a fim de encontrar nele a luz e a ajuda para os problemas da inteligência ou as dificuldades do coração.

 

Os serviços da Diocese, o magistério do Seminário, as obras de apostolado, requerem quem delas se ocupe e lhes garanta a existência e a eficácia.

 

Quem se ordenou para servir a Igreja, em época em que os apóstolos não abundam, sentirá pena de não poder consagrar mais tempo ao estudo, mas não pode deixar de prestar os trabalhos que lhe são pedidos ou de atender as almas que o procuram.

 

Esta divisão interior deve ter torturado a alma de Trindade Salgueiro, obrigado pelas circunstâncias de uma Diocese que se refazia a ter de multiplicar-se e de dispensar-se. Essa renúncia não será hoje o seu menor mérito junto de Deus.

 

Diz-se que Francisco Soares, que também foi professor de Coimbra, pesando antecipadamente a sua vasta obra na balança do juízo final, estaria disposto a trocá-la por um simples acto de amor de Deus. Quantos actos de amor de Deus e do próximo terá praticado D. Manuel Trindade Salgueiro durante os quinze anos em que exerceu o magistério no Seminário diocesano e na Faculdade de Letras, pregou semanalmente no púlpito da Sé Nova, escreveu o artigo do fundo do jornal «Correio de Coimbra», prestou assistência eclesiástica aos estudantes do C. A. D. C. e às raparigas universitárias – em tudo, instrumento dócil nas mãos do seu Prelado?…

 

(continua)



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 14:15
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OS DISCURSOS QUE REGISTEI - 1

 

Parte 2

ELOGIO FÚNEBRE DE D. MANUEL TRINDADE SALGUEIRO

POR

D. MANUEL DE ALMEIDA TRINDADE

 

 

1) O HOMEM

 

Manuel Trindade Salgueiro foi um homem de Ílhavo. Dizer que foi um homem de Ílhavo é dizer que foi um homem que trazia o mar no coração e nas veias. Se se encostasse o ouvido ao seu peito, talvez se ouvisse dentro dele, como acontece aos búzios, o murmúrio das ondas.

 

Os homens de Ílhavo têm a vocação do Oceano. A sua terra é o mar. Ali vivem, ali trabalham e ali morrem também. Mais do que o lavrador, o seu destino está pendente do incerto e do imprevisto. Quando saem para o mar, acompanha-os sempre a dúvida do regresso. Talvez esteja aí a razão por que são tão profundamente religiosos. O Senhor dos Navegantes podia ali ser invocado antes mesmo de Ílhavo ser terra cristã. Junto dos altares da igreja paroquial há sempre luzes acesas em sinal de prece pelos que andam no mar, e as paredes da igreja e das capelas cobrir-se-iam facilmente de ex-votos de promessas feitas por homens em perigo, ou pelas mulheres e filhas deles que ficaram em terra à espera de eles voltarem.

 

Nem sempre as preces são atendidas. Há lâmpadas que parecem arder inutilmente. Há orações que se assemelham às pérolas perdidas no fundo dos Oceanos e parece não servirem a ninguém. Esse é um mistério cuja solução se encontra escondida no coração de Deus. As almas simples aceitam-no com resignação. A fé dá-lhes a resposta antecipada daquilo que não conseguem por ora compreender.

 

Manuel Trindade Salgueiro era filho de um homem do mar – de um homem que perdeu a vida no mar. Nos cemitérios das outras terras, pelas lápides sepulcrais pode refazer-se a história das gerações. Os filhos podem ajoelhar-se junto das jazidas dos pais: o pó das sepulturas é feito da carne dos seus maiores. Em terra de pescadores, porém o cemitério dos homens é, muitas vezes, o mar.

 

Um homem do mar, que perdeu o pai no mar, sente no marulhar das ondas o que os outros descobrem na brancura das campas ou na silhueta esguia e recolhida dos ciprestes. Talvez esteja nisso a razão por que D. Manuel Trindade Salgueiro gostava tanto do mar. Quando voltava a Ílhavo o seu passeio predilecto era até junto do amurada da Barra, em frente do Oceano, por onde todos os dias entram e saem os barcos que andam na faina da pesca.

 

O homem de Ílhavo tem um modo de ser especial. Senhor absoluto e plenamente à vontade dentro do barco, sente-se estranho em terra. A terra é o domínio da mulher. É ela que governa o dinheiro, que matricula os filhos na escola, que trata do baptizado ou dos papéis do casamento. Em terra o homem sente um complexo de inferioridade, ou, quem sabe, de superioridade, como se valessem pouco as coisas da terra, comparadas com aquelas, mais importantes, que ele vive em cima das ondas.

 

Tenho pensado no que teria sido aquela criança, órfã de pai desde os mais tenros anos, se, em vez do pai, lhe tivesse faltado a mãe. Em Ílhavo esta circunstância reveste um significado especial.

 

Conheci a Mãe de D. Manuel Trindade Salgueiro. Nessa altura já tinham passado as agruras e os apertos de uma vida pobre, que, para se manter com dignidade, teve de suportar sacrifícios e humilhações.

 

Quem nasceu de uma família rica ou mesmo remediada não é capaz de imaginar quanto é pesada a vida dos que nasceram privados de tudo. Um padre contemporâneo em Coimbra de D. Manuel Trindade Salgueiro, o Dr. Luís Lopes de Melo, que tão profunda influência havia de exercer na mocidade académica coimbrã, dizia em certa ocasião aos vicentinos: «Eu dou graças a Deus por ter nascido e crescido no meio do povo e nessa escola de pobreza e de trabalho. Devo à memória daqueles que me geraram esta palavra de gratidão. Vi-os sofrer, vi-os chorar, vi-os passar toda a espécie de privações para que o seu filho fosse crescendo numa posição social que eles não tinham».

 

Trindade Salgueiro podia fazer suas as palavras de Lopes de Melo – apenas com uma diferença: é que os sacrifícios que, no caso deste, eram partilhados pelo pai e pela mãe, no caso de Trindade Salgueiro recaíam apenas sobre os ombros débeis da Mãe.

 

Foram esses sacrifícios e essas angústias vividas pela Mãe e presenciadas pelo filho – e de que ele sabia ser o objecto e o motivo – que soldaram as duas vidas para sempre. A quantos filhos, que não estimam suficientemente os pais, teria sido útil uma experiência assim! É uma das facetas mais belas da personalidade deste homem, que foi um gigante do espírito, a ternura e o carinho que ele teve pela Mãe. Também a pobreza tem neste mundo as suas compensações.

 

Os homens, que encontram na vida uma mulher que lhes cativa o coração e com o qual constituíram um lar, podem continuar a amar a própria mãe e guardar para ela um cantinho no coração, onde se refugiam nas horas em que têm saudades de quando eram pequenos. Mas o amor da mãe tem ressonâncias inéditas no coração de um padre, que por vocação renunciou ao amor humano, para se dar todo ao amor de Deus e do próximo. Santo Agostinho (que foi também um órfão de pai – aliás duplamente órfão, pois Patrício era pagão) e, mais perto de nós, S. João Bosco ou o Cardeal Mindszenty poderiam ajudar-nos a descobrir este mistério de amor sublimado que é o amor do padre pela sua mãe.

 

Mas este Bispo, que cultivou com ternura comovente o amor da Mãe, não se deixou enredar no exclusivismo esterilizante em que se deixam cair tantos homens mesmo quando o objecto do seu amor é a pessoa da própria mãe.

 

Manuel Trindade Salgueiro foi um homem que cultivou a amizade para além do âmbito das paredes domésticas. Ele suscitava-a pela sua simples presença, pela solicitude e pela bondade do coração. Não foi um homem feito para viver sozinho. Por muito religiosa que fosse a sua alma, ele não recebeu a vocação do monge. O monge é um separado do mundo, alguém que vive, já no tempo, a condição da eternidade. Não consigo imaginar um monge a ler interessadamente um jornal diário e a procurar nele a notícia de um luto para levar à família uma palavra de consolação, ou então as vicissitudes de uma discussão ou de um acontecimento. Trindade Salgueiro foi um homem imerso no tempo; melhor diria, um homem debruçado sobre o tempo, ávido de fazer descobrir aos homens, que ele foi encontrando pelo caminho, as certezas donde contemplava e amava os seus irmãos.

 

A sua amizade não consentia acepção de pessoas. Este aristocrata do espírito era capaz de se fazer estimar tanto de altos magistrados, de professores da Universidade ou de pessoas de estirpe, como de gente humilde – os vizinhos do prédio em que morou, os antigos companheiros da escola primária, do liceu ou do Seminário.

 

A ele recorriam muitos em suas aflições. As relações, que se lhe foram deparando ao longo da vida, jamais as aproveitou para benefício próprio. A ambição foi vírus que nunca circulou nas suas veias. Foi doutor, professor universitário, académico, bispo sem nunca o ter desejado nem porventura suspeitado. Tudo isto lhe aconteceu, por desígnios de Deus ou justa estima dos homens, mas nunca porque o quisesse, ou tivesse dado um passo para isso. Mais do que a honra, que o vulgo aprecia e em que facilmente se fixa, ele via a responsabilidade e o serviço.

 

Procurei desenhar o perfil do homem.

 

Se agora quisesse encontrar uma palavra para definir esta fisionomia tão pouco vulgar nos traços físicos como nas características morais, teria de recorrer a um vocábulo estrangeiro, por não ser fácil encontrar outro que evoque de igual modo todas as facetas deste homem excepcional. Chamar-lhe-ia um gentleman.

 

Foi-o na apresentação exterior, sempre impecável, cuidada mas sem afectação, nobre mas com simplicidade. Foi-o também no trato afável, simples, cordial; no dom de simpatia com que sabia sintonizar-se com quem o procurava, mesmo que não estivesse de acordo com as suas ideias ou os seus sentimentos.

 

Se a palavra não se prestasse a um significado profano, que está longe da minha intenção como estaria longe da realidade, seria caso de empregar aqui o termo «elegância». Elegância é sinónimo de ordem, de harmonia, de compostura.

 

Não creio que esta harmonia e elegância exterior fosse possível sem um governo interior, fruto de uma sensibilidade apurada, que lhe veio da herança materna, de uma inteligência luminosa e de uma educação doméstica que se foi aprimorando ao longo da sua vida, em múltiplos contactos, desde os bancos do liceu e do seminário à cátedra universitária e à missão episcopal.

 

Os requintes de educação que alguns homens têm a felicidade de encontrar, desde o início, no berço e na tradição familiar – e outros aí poderiam encontrar mas não encontram – adquiriu-os D. Manuel Trindade Salgueiro, em larga escala, por intuição e esforço próprio. Nisso está o seu mérito. Poder-se-ia dizer dele que foi um nobre de espírito, trazendo embora nas veias o sangue de um pescador.

 

(continua)



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 13:42
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Quinta-feira, 8 de Fevereiro de 2018
CABO DA ROCA

 

OU

O FIM DA PICADA – 2

 

E a palestra continuou depois de um mini intervalo para dar entrada a mais ouvintes que vinham sabe-se lá donde.

 

Retomada a palavra, avancei para a solução dos problemas até ali enunciados que, como tinha dito, é a Ética cuja reposição me parece imperiosa.

 

E a questão estaminal da nossa conversa é a de saber o que é a Ética. Então, para desfazer muita confusão que por aí navega, comecei por afirmar simplisticamente que a Moral é a questão dos princípios enquanto a Ética é a questão dos factos.

 

Muito resumidamente, disse que todas as religiões têm as suas escrituras sagradas as quais, criando a respectiva Teologia, deram origem a verdadeiros códigos de conduta que definiram os grandes princípios da Moral correspondente e foi a partir daí que cada sociedade, descendo aos factos reais da vida quotidiana, criou a sua Ética; assumindo a obrigatoriedade do cumprimento, cada Ética vestiu o figurino de quadro jurídico.

 

Breve, a lógica descendente tem origem nas Sagradas Escrituras que definem a Moral que, por sua vez, induz a Ética e é esta que fundamenta o quadro jurídico.

 

Exemplos? Muitos. Mas basta referir a Bíblia cujo Antigo Testamento fundamenta o Judaísmo, os Vedas que são a base do Hinduísmo, os Ensinamentos de Buda que deram origem ao Budismo, o Novo Testamento que, em conjunto com o Antigo, fundamenta o Cristianismo, o Corão que é a Sagrada Escritura do Islão.

 

Contudo, como vimos de início, o homem pós-moderno extremou a sua própria laicização donde resulta que a inspiração divina nada lhe diz e ele se desliga de tudo que tenha origem nesse tipo de Valores. Não vale, portanto, a pena invocarmos princípios religiosos – venham eles donde vierem – para levarmos o pós-moderno convicto a aceitar um quadro jurídico que se inspire numa Ética que por sua vez se fundamente numa Moral de origem divina.

 

Então, como havemos de sair deste beco?

 

A questão pode-se resolver a partir duma frase que cito muitas vezes que, apesar de ser da autoria de um Cardeal, pode ser laicizada com toda a facilidade pois ela própria a isso conduz: «as coisas não são boas ou más porque Deus as mande ou as proíba; antes as manda porque são boas e as proíbe porque são más»[i].

 

Ou seja, tanto o bem como o mal existem fora da discussão teológica e por isso é possível erigirmos uma Ética laica que se fundamente na «Declaração Universal dos Direitos do Homem»[ii] e na «Declaração de Ética Mundial»[iii]

 

Para não cansar a assistência, referi apenas as linhas gerais deste último documento que começa por condenar a usurpação dos ecossistemas do planeta, o abandono dos miseráveis, o recrutamento forçado de crianças como soldados, a agressão e o ódio cultivados em nome das religiões.

 

E depois deste posicionamento crítico, passa para a positiva afirmando haver uma reserva de valores fundamentais comuns a toda a Humanidade que constituem a base para uma ética que fundamente uma ordem mundial duradoira, nomeadamente pelo reconhecimento de alguns princípios:

  • Há que respeitar a comunidade dos seres viventes (humanos, animais e plantas) preocupando-nos com a conservação da Terra, do ar, da água e do solo – princípio ecológico;
  • Todas as nossas acções e omissões têm consequências que devemos ponderar – princípio da responsabilidade;
  • Devemos dar aos outros o tratamento que deles queremos receber - princípio da equidade;
  • Temos que nos encher de paciência;
  • Nos cumpre servir o bem comum;
  • Deve prevalecer uma relação de companheirismo entre homem e mulher com igualdade de direitos – princípio da dignidade humana;
  • Temos o direito de combater a ânsia pelo poder – princípio da democracia política.

 

Estas, algumas das bases que devem servir para a construção de uma ética laica mundial na qual se revejam os pós-modernos que por aí pululam à nossa volta.

 

Concluí a palestra com a revelação de um segredo (pedindo que não o revelassem aos pós-modernos): esta ética laica mundial pode na perfeição ser considerada ecuménica pois resulta de um longo diálogo inter-religioso e o documento em apreço tem origem, afinal, nas confabulações desenvolvidas no seio do Parlamento das Religiões Mundiais.

 

Então, o que menos importa será saber se a origem da Ética Mundial tem ou não uma génese religiosa; basta saber que ela nasceu para servir a Humanidade.

 

Cabo_da_Roca_sunset.jpg

 

É que, assim não sendo, nos resta constatar que chegámos ao Cabo da Roca onde a terra acaba, onde é o fim da picada e onde, portanto, só poderemos optar entre atirarmo-nos ao mar ou darmos meia volta e meditarmos ponderadamente sobre o que queremos fazer da vida.

 

* * *

 

Dei por finda a palestra e não apanhei mocadas na cabeça. Mas passadas as portas do anfiteatro, retomaram pela certa aqueles finalistas a dinâmica das festas da queima das fitas arquivando algures numa dobra recôndita do cérebro as coisas que o tipo do bigode disse desejando que ele se coce com urtigas pois «nós somos hedonistas felizes como o cão dele».

 

Fevereiro de 2018

Henrique em Praga.jpg

 Henrique Salles da Fonseca

 

[i] - D. Manuel Clemente, Cardeal Patriarca de Lisboa, então Bispo do Porto, no seu livro “1810-1910-2010 DATAS E DESAFIOS”, pág. 121

 

[ii] - 1948

[iii] - Assinada em Chicago em 1993



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 16:01
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