Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A bem da Nação

SANTO ALEIXO DE EDESSA

Ficou conhecido por «Santo Aleixo de Roma» mas diz-se… diz-se tanta coisa que alguma há-de ser verdade…

… que Aleixo era filho único de rica família romana e que fugiu na véspera do casamento que lhe tinha sido arranjado. Disfarçado de mendigo, foi até Edessa – norte da Mesopotâmia, sudeste da Anatólia – por onde ficou esmoler e contemplativo. Até que foi apontado como «homem de Deus» e fugiu novamente, desta feita de regresso a Roma. Aí chegado, mantendo o anonimato, juntou-se aos mendigos que viviam sob as escadas da casa da sua própria família. Só terá sido identificado postumamente e… de nada há registos, tudo não passa de «diz-se, diz-se». E uma vez que até os milagres que alguém lhe atribuiu não foram suficientemente estudados para merecerem reconhecimento formal, Aleixo foi retirado do hagiológio romano. Tudo a cheirar a peta, portanto. E porquê “Aleixo de Roma” se foi em Edessa que lhe elogiaram a contemplação e em Roma que o apearam dos altares?

Mas a Igreja Ortodoxa mantém-lhe o culto enquanto nós, em Portugal, mantemos-lhe apenas alguma toponímia e fazemos bonecos com o seu nome, os «bonecos de Santo Aleixo». Tudo profano, nada de muito sério.

bonecos de santo aleixo.png

 

* * *

E assim chagamos ao Alexis Tsipras agora apeado do mando em Atenas onde chegara por descrédito dos antecessores e por ter mentido com quantos dentes tinha. A diferença entre este Alexis e o seu onomástico do hagiológio ortodoxo está em que o «Santo» não mentiu, apenas se limitou a fugir das ribaltas que lhe preparavam enquanto o dito Tsipras baseou toda a sua acção na mentira contínua fazendo por esquecer que nem na política se pode mentir por muito tempo e a muita gente em simultâneo.

E que mentiras ferrou ele e a quem?

Ao contrário do Dr. Costa que mente cá dentro levando os «geringonciados» ao engano com orçamentos bem folclóricos logo regados com cascatas de cativações, Tsipras mentiu sempre para fora fazendo orçamentos todos aperaltadinhos com a vontade dos credores internacionais e, virando-se para dentro da Praça Syntagma, dizendo aos seus que o regabofe podia continuar. Mas era claro que não podia continuar e foi só a Alemanha encontrar soluções para os seus próprios problemas (Deutsche Bank, zum beispiel) e a mentira grega teria que cair. Ou seja, Tsipras teve que entrar pela austeridade e… caiu.

A mentira é viciosa e auto-multiplicativa pelo que é absurdo alguém dela se servir como base estratégica duma qualquer política.

Alexis Tsipras, um mentiroso, já caiu.

Quem é o mentiroso que se segue?

A questão portuguesa é tão simples como isto:

- O Governo tenta manter a «geringonça» e leva o país direitinho de regresso à bancarrota;

- O Governo tenta resolver o problema do país e fica sem «geringonça».

Ou será que a democracia deixou de ser compatível com a verdade? É que se essa hipótese se colocar, esse, sim, será um problema muito grave pois a alternativa será entre democracia e demagogia. E é historicamente sabido que as sociedades entram em convulsão quando a demagogia impera e alguém decide pôr-lhe fim.

E de nada vale invocar Santo Aleixo já que esse, sabemos nós, tem muito quem minta por ele.

Julho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

CONVERSAS DE ALDEIA – 4

A melhor maneira de chagar à aldeia era pelo mar mas a praia era a via mais usada. A vereda pela falésia era muito íngreme e as mulas tinham que a descer com as cargas à frente para poderem puxar para trás e não vir tudo de roldão por ali a baixo. Mas o Faustino da taberna não queria nada com as mulas e contratava os miúdos para descerem os barris que os fornecedores deixavam lá no cimo. Só que, se a descida dos barris cheios podia ser uma festa, subi-los vazios era um suplício e vá de pensar noutra solução. Foi assim que se começou a procurar modo de descer e subir a falésia em diagonal em vez de na quase vertical. Foi assim que nasceu a rampa, que a antiga vereda íngreme foi transformada em escada e em que a fonte de água doce ali logo à ilharga foi aprimorada com uma «bica» que, à falta de melhor, foi uma telha que de algures sobrara - a fonte da telha.

Dirá quem me lê que a água doce foi a razão determinante para o assentamento da aldeia no local em que se encontra ao que respondo que a água doce surge ao longo de toda a arriba fóssil proveniente dos lençóis freáticos que ela, arriba, corta pelo que, não fora a calmaria do mar e o assentamento poderia ter acontecido em qualquer outro ponto da praia.

E, apesar da rampa (de início estreita e agreste), a «rua» principal da aldeia foi naturalmente orientada em paralelo ao mar, direita à Caparica e não ao topo da falésia. Com toda a naturalidade, foi ao longo dessa «rua» que cada família pioneira foi construindo cada palhota. Ponto central, a «Taberna do Faustino» (established since 1942) à frente da qual acabou por se fazer um espaço que logo foi baptizado de «Largo dos Pescadores». Até hoje, tanto o largo quanto a taberna. A diferença é que hoje o largo está empedrado e tem uma construção central que há quem julgue ser um coreto (mas não, é a sede da Associação das Festas dos Santos) e a taberna perdeu a rusticidade primitiva sendo que actualmente anima as hostes locais e forasteiras com sessões de karaoke. E tem uns gelados magníficos. Creio que não vende vinho, sequer. Mas, verdade, verdadinha, nunca perguntei.

Outra diferença em relação aos tempos primitivos: a antiga estrada para a Caparica (ao longo da praia e no sopé da falésia) perde-se logo ali à frente numa picada florestal que, à boa maneira pública, parece ser intransitável. Dizem. Nunca lá fui.

Até que as palhotas de telhados feitos com a palha da praia entrelaçada em molhos muito apertados que garantiam protecção contra a chuva e paredes de caniço se começaram a pouco e pouco a transformar em casas. Começou a técnica do «pau a pique», lá foi aparecendo um tijolo ou outro, sempre à custa de muito trabalho e grande sentido de pioneirosmo. Telhado de telha (passe o pleonasmo) foi coisa relativamente recente, lá pelos anos 50 e tal…

Tudo feito por cada um, com total sentido de propriedade.

Está o Leitor a perceber por que é que os vermelhos do dogma não entram aqui?

Não entraram esses mas entraram aqueles de quem politicamente menos se esperava, os do camartelo que só a muito custo foram impedidos de levar tudo pela frente. Até ver, sobreviveram os pescadores mas já ninguém confia nos da política.

Ou será que é a democracia que não gosta de gente independente, de espírito pioneiro, de trabalho, não grevista e dona do seu próprio património desde há praticamente um século?

Julho de 2019

TABERNA DO FAUSTINO-2019-07-10.jpg

Henrique Salles da Fonseca

CONVERSAS DE ALDEIA – 3

A pergunta que pode ter ficado a pairar no espírito de quem leu a «Conversa - 1» poderá ser a da razão pela qual a aldeia nada tem a ver politicamente com o tom vermelho que a rodeou de 1974 até às passadas autárquicas (2017) em que os vermelhos foram destronados pelos rosados.

Então, há que andar um pouco até lá a trás no tempo para perceber que tudo começou pelo fundo do mar.

Como assim? Pois é exactamente como vou contar a quem me ler, Senhoras e Cavalheiros.

Assim como «Deus dá a roupa conforme o frio», também o mar dá as ondas conforme os fundos e os ventos. Ora, sendo os ventos praticamente os mesmos desde a Cova do Vapor até ao Cabo Espichel (salvo pormenores momentâneos), a grande diferença na ondulação resulta dos fundos, todos eles arenosos mas por isso mesmo sujeitos aos efeitos das correntes. E estas, tramadas, não deixam os créditos por mãos alheias sendo sabido que o mar passou a meter-se pela Costa de Caparica adentro quando foi construído o pontão na praia do Tamariz, ali ao Estoril. Problema este que sucedeu ao que foi o quase desaparecimento da Cova do Vapor quando dali foram retiradas as areias (que quase a ligavam ao Bugio) para a construção dos cais do resto do porto de Lisboa. E diz quem sabe que o problema (da Caparica) só será resolvido com o fecho da Golada do Tejo, ou seja, refazendo a ligação da Cova do Vapor ao Bugio. À custa de que novas mudanças? Eu não sei e temo que mais ninguém saiba – a menos que algum modelo já tenha sido ensaiado no LNEC-Laboratório Nacional de Engenharia Civil.

Todo este relambório (palavra, palavrinha que não sou professor de hidráulica e só sei o que me contaram os antigos) para dizer que as gentes desta costa há muito que andam à procura da serenidade dos elementos para que possam «ganhar a vidinha». E é da faina diária que cuidam, tudo o resto é acessório ou quase. Peixe, é o «pão deles de cada dia» e tentam pescá-lo nas melhores condições possíveis, como se compreende.

Vai daí, é sabido que frente à Costa de Caparica o mar nem sempre é tão benigno como pescadores e turistas gostariam e lá para as bandas da Aldeia do Meco pior ainda. Mas, a meio do caminho, há uma mudança importante nos fundos que passam de irregulares (com fundões e correntes extravagantes) a lisos e, em consequência, com o mar a apresentar uma ondulação regular, previsível e, diria mesmo, serena. Bom mar para banhista e determinante para a qualidade de vida de quem se dedica à pesca.

E como os antigos já sabiam disto, vai de fazerem umas palhotas nesta praia para poderem ir ao mar com a calma conveniente em vez de correrem perigo de vida nos outros locais desta mesma costa. Passavam então os anos 20 do século XX. Não esquecer que a faina se fazia (e continuaria a fazer por muito tempo) à força dos braços humanos agarrados aos remos como nos tempos megalíticos ou de Napoleão.

Mas se aqui se pescava, era na Caparica que se vendia o peixe pelo que a dúzia de quilómetros de praia tinha que ser percorrida diariamente por quem se dedicava ao comércio. Não havia estrada útil por cima da falésia e mesmo que houvesse, seria mais longa e não haveria dinheiro para pagar o transporte de carro ou sequer de carroça. Solução? A butes e pela praia. De preferência pela areia molhada que sempre é mais rijinha. Da Caparica, as mulheres (os homens andavam ao mar) traziam à cabeça (as mãos eram para dar aos filhos que se lhes colavam às saias) as precisões que os pescadores lhes encomendavam; daqui para a Caparica ia o peixe para o mercado. Lota? Qu’é isso? Se a havia, passavam-lhe à margem.

Os filhos nasciam na Caparica mas assim que andavam ficavam na praia à volta das palhotas e as mulheres escalavam-se nos cuidados ao «rancho» da criançada. Até que umas passaram a ficar e outras a ir e vir. E as palhotas começaram a ganhar maior solidez com barrotes que vinham da Mata dos Medos já puxados por uma ou outra mula falésia a baixo por vereda de metro e meio que os ecologistas hoje proibiriam.

Felizmente para a aldeia assim nascente – e para Lisboa na época dos primeiros assentamentos – naquela época não tinham ainda nascido as mães dos actuais ecologistas. E Portugal fez-se sem eles.

Julho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

 

CONVERSAS DE ALDEIA - 2

A outra grande novidade – mas desta vez para a aldeia - foi a minha ambliopia.

- A sua quê, Senhor?

E lá tive que explicar… mas decidi encurtar explicações e passar a dizer que estou quase cego. Então, é aqui que aparece a grande diferença entre as pessoas da cidade a quem informo de chofre da minha situação que julgam – não sei por que motivo – que eu esteja a fazer humor e se põem a rir e as pessoas daqui, da aldeia, que de imediato se apercebem do meu problema e assumem a gravidade apropriada. Não há dúvida, as pessoas daqui são muito directas e as da cidade muito complicadas – sofisticadas, dirão elas próprias.

Para além da afabilidade dos anos anteriores, esta gente simples desdobra-se agora em manifestações de solidariedade comigo e lá vêm todas as histórias da saúde de todos e de cada um… o Zé está com um mialoma múltiplo, a mulher do hortelão já foi operada duas vezes aos olhos, a Ana anda às voltas com o bócio, o irmão da minha senhoria… um festival de maleitas distribuídas adrede e sem grande parcimónia. Como é que estas doenças estavam todas tão escondidas e só vieram à tona quando lhes contei da minha ambliopia? Deve ser como com as granadas que explodem por simpatia. E isto, já para não falar da mulher do Márinho que está toda tolhida com a ciática.

E assim começou a ronda dos jantares em que não podemos falhar um único restaurante sem que alguém imagine uma zanga que não existiu.

Ontem estava prevista uma chuvada mas, afinal, esteve um magnífico dia de praia e acabámos a jantar na esplanada do Bininho - as sardinhas estavam óptimas e o pôr-do-Sol anunciava-se deslumbrante mas as Senhoras da mesa a trás de mim estavam eufóricas com a aguardente velha com que fecharam a sessão delas e captaram a atenção de todas as mesas à volta da delas. Avó, mãe e neta a falarem como se não houvesse mais ninguém por ali e dizia a avó que a prima ou tia delas, a Alda, tinha casado aos 12 anos.

- Aos 12 anos, avó?

- Sim, aos 12 anos. Mas o marido era bem mais velho e adorava-a pelo que só consumou o casamento quando ela tinha 14 anos. O Xi nasceu quando ela tinha 15 anos.

- Tanto tempo casados para só consumarem o casamento dois anos depois…

- Ele sabia que tinha ali uma criança, não propriamente uma mulher.

- E casar com essa idade, era legal nessa época?

-Parece que sim, nunca ouvi dizer que tivesse havido algum problema. E foram muito felizes até que morreram.

- Morreram de quê?

- De gordos. Ele pesava 160 quilos e ela chegou aos 140.

- Credo! A mãe conheceu-os com esses pesos?

- Só os conheci mesmo com esses pesos. Não me lembro deles antes de serem umas avantesmas. Somavam «só» 300 quilos e depois de partirem não sei quantas camas, mandaram fazer uma de alvenaria. E já que passavam para os tijolos e argamassa, mandaram também fazer as mesas de cabeceira de tijolo e cimento, não fosse alguma coisa desconjuntar-se. Diziam que tinham regressado à Idade da Pedra e fartavam-se de rir com a ideia. Viviam numa gruta, eram trogloditas. E riam, riam…

E a cada explicação da senhora, a risota da filha e da neta contagiava as mesas à volta e a magnificência do pôr-do-Sol… foi-se.

- Oh mãe! E como é que eles chegaram a esses pesos?

- Gula, filha, gula! Parece que tinham um vizinho lá ao lado da quinta deles que era comerciante de porcos e quando era da matança, o tio reservava logo duas dúzias de chouriço de sangue para comer ao pequeno almoço.

Bem, aqui, com esta tirada, a esplanada do Bininho veio a baixo com a gargalhada geral. Mas o Sol pusera-se e nem todos tínhamos bebido aguardente velha. Começámos a sentir frio e tivemos que pedir a conta para regressarmos a penates. Com pena por perdermos a continuação… Já vínhamos perto do assador, à saída da esplanada, ainda andava risota lá para trás. O que teria sido que a avó contara?

Julho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

CONVERSAS DE ALDEIA – 1

TUFA-1.jpg

 

 

Na aldeia, os cães têm um elevado estatuto mas, mesmo assim, algumas coisas os distinguem dos humanos. Por exemplo, os cães andam quase sempre com as mãos no chão enquanto os humanos só de vez em quando, em especial depois duma noitada; os cães são alimentados pelos humanos e não o contrário; os cães nunca votaram mas há humanos que o fazem, uns mais do que outros desde o quase nunca até ao quase sempre – e como a aldeia é na praia, creio que a ida às urnas depende muito da maré. A maré dá peixe, há dinheiro, há voto; a maré não dá peixe, não há voto para ninguém. Encravada em «terra do dogma vermelho», a aldeia não é dessa côr (passa muito pela côr parecida mas sem dogma) pelo que os da militância férrea há muito que a desprezam e, vai daí, não os vêm buscar para os levar a votar. Ainda se enganavam e levavam os cães…

E voltando aos canídeos, este ano, à minha chegada à aldeia, a grande novidade foi a «comissão de recepção» que era composta pela “Nina”, pelo “Tufa” e pelo “Lucky”. Porquê novidade? Porque nos anos anteriores não seria hora de eles andarem a cheirar pelo parque de estacionamento onde deixo o meu carro. Mas desta vez, também novidade, a “Nina” cumprimentou-me cheirando-me a mão que lhe apresentei e abanou o rabo. O “Tufa” e o “Lucky” cumprimentaram-me como sempre fazem quando apareço quer me tenham visto há cinco minutos, na véspera ou há um ano, com simpatia ao modo canino. O “Lucky” envelheceu e disseram-me depois que o “Tufa” está surdo mas que continua a ladrar à Lua cheia. O “Amarelo” teve que ser posto a dormir porque estava em grande sofrimento e o “Lake”, que tanto gostava de furar as ondas na praia à compita com o dono, acordou morto. Ninguém ainda me falou dos canzarrões que antigamente viviam no parque de estacionamento mas, na verdade, levaram sumiço. Não eram de ninguém, eram de toda a aldeia, eram os verdadeiros guarda-nocturnos contra forasteiros de intenções duvidosas como os cães tão bem sabem farejar. Devem ter emigrado para a outra ponta da aldeia onde os restaurantes têm ementas mais variadas. E, para além do mais, em Portugal vigora a lei do livre estabelecimento e lá na outra ponta também deviam estar precisados de renovar o quadro de guarda-nocturnos. Agora percebo por que é que a «comissão de recepção» estava no parque de estacionamento - os grandelas tinham sumido.

E chega de canzoada!

Amanhã trato dos bípedes.

Julho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

ADIVINHOS E PROFETAS

Todos queremos mais do que temos e eu, entre outras queixas, tenho a de que na minha putativa longevidade não conseguirei encaixar tudo o que gostaria de estudar - por exemplo, aquela obra em dois tomos de Karl Popper “A sociedade aberta e os seus inimigos”. Já estive com ela várias vezes na mão mas são dois tomos e… afasto-me do escaparate às arrecuas.

Contudo, de forma totalmente inesperada, foi Raymond Aron que a págs. 116 da edição portuguesa das suas “Memórias” me facilitou a vida transcrevendo uma passagem do dito livro, logo da terceira página do primeiro tomo, em que Popper resume o que se propõe fazer com a dita obra: Este livro tenta mostrar que a sabedoria profética é nociva, que a metafísica da História obsta à aplicação do método científico, elemento por elemento, aos problemas das reformas sociais. E esforça-se também por mostrar como podemos tornar-nos fazedores do nosso destino quando pararmos de nos arrogar o papel de profetas.

Pela informação de Aron se fica a saber que Popper se referia com erudição ao falhanço já então previsível da profecia a que há quem chame o determinismo histórico marxista e nós, testemunhas da queda do muro de Berlim e do colapso da URSS, sem erudição, podemos afirmar que Marx foi, afinal, um adivinho que não acertou.

Julho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

DAMÁSIO NA RTP

Chegou-me há pouco um vídeo de uma entrevista concedida pelo Professor António Damásio à RTP na qual o ilustre neurologista é conduzido pelo entrevistador a afirmar que «as redes sociais são um perigo para a democracia».

Mas é claro que uma pessoa do gabarito do Professor Damásio, não se deixa influenciar por opiniões alheias e só afirma o que efectivamente quer afirmar.

Ou seja, o Professor Damásio acha que as redes sociais são um perigo para a democracia. E justifica essa opinião pelo facto de aparecerem muitas opiniões «rápidas, não ponderadas», que facilmente entram em conflito com outras opiniões igualmente imponderadas criando climas de crispação que não existiriam caso as opiniões fossem menos espontâneas, ou seja, mais pensadas.

Confesso que não esperava este tipo de argumentação. Esta, sim, parece-me excessivamente rápida e pouco sólida para quem nos habituou a uma assíntota na escala racional muito mais alta do que a do comum dos mortais. Esperava eu que o Professor nos dissesse algo do género de que o excesso de intensidade e de duração da actividade cerebral pudesse pôr em causa a saúde dos contendores ou «coisa» equivalente do seu foro científico; não esperava que se introduzisse pelo campo da técnica da retórica, matéria acessível a espíritos muito menos dotados do que o do ilustre entrevistado.

À falta, pois, de argumentos cientificamente oportunos nesta circunstância, permito-me discordar do Professor Damásio uma vez que me sinto absolutamente tranquilo para «discutir» com ele em matéria profana, acessível aos banais.

Então, eis a antítese:

- As redes sociais não põem a democracia em causa e são mesmo um novo expoente da democracia.

Dando voz directa ao cidadão comum na praça pública, as redes sociais permitem a ultrapassagem dos políticos profissionais, dos «opinion makers» mais ou menos encartados, à comunicação social como ela se habituou a existir controlando «rebanhos dóceis» de leitores, ouvintes e telespectadores.

De facto, em momentos de stress, foram já várias as vezes em que nas redes sociais se geraram movimentos não controlados por centrais sindicais, Partidos políticos, jornais, rádios ou televisões e em momentos menos stressantes, opiniões houve (e continua a haver) que vingaram e fizeram com que o establishment se sentisse ultrapassado.

Identificada a «corporação estabelecida» ou a «established corporatrion», que assim se sente em «maus lençóis», passemos à questão do populismo.

Aí vai então o establishment a correr a bradar que é o populismo a ganhar força. Então, a questão é a de saber se o que eles, os do establishment, fazem não é populismo. É claro que sim! Os políticos para ganharem votos, os jornalistas para ganharem audiências e, daí, publicidade, os opinion makers para ganharem avenças dos órgãos de comunicação ou lobbies a quem facturam, ou para ganharem ego se forem apenas vaidosos, todos querem ser ouvidos pelo maior número possível de leitores, ouvintes, especrtadores… E isso, o que é a não ser populismo? Falam apenas para ilustres membros de Academias? Falam apenas para os «camarotes» ou falam sobretudo para os «galinheiros»?

Dir-me-ão que os do establishment não querem derrubar a democracia e que os populistas sim, pretendem usufruir da liberdade que a democracia proporciona para a derrubarem. Ao que respondo que isso não passa duma falácia ou de um sofisma pois qualquer sistema democrático tem a obrigação de possuir um quadro legal que lhe permita defender-se desse tipo de ataques não fazendo sentido adjectivar de populista todo aquele que se expressa fora dos canais mais tradicionais, nomeadamente nas redes sociais.

Portanto, as redes sociais, por si próprias, não põem em causa a democracia e, pelo contrário, dando voz directa ao cidadão comum na «praça pública», são um expoente da democracia directa, a que não carece de intermediários. E esse é o problema de quem está habituado a dirigir a opinião pública pois sente que o tapete lhe foge de baixo dos pés.

E mais: ainda havemos um dia destes de entrar na discussão mais melindrosa que é a da representação parlamentar e estatuto do Deputado.

Para concluir, uma pergunta (com resposta) e um pedido:

PERGUNTA – Lá em casa, a faca serve para barrar o pão de manteiga ou para assassinar o vizinho? (assim é o uso que se faz das redes sociais)

PEDIDO – Senhor Professor António Damásio, apareça para nos ensinar nos temas em que é exímio mas deixe a trivialidade para nós, os que não chegamos à assintota de Vossa Excelência.

Julho de 2019

Henrique da Salles Fonseca

A ÉTICA DE UNS…

…e o hedonismo de outros

 

Eu tenho a sorte de ser neto de Tomás da Fonseca (1877 - 1968), esse vulto da cultura portuguesa do séc. XX, que se dizia ateu.

E porquê?

Porque «a ultrapassagem do metafísico pelo positivo só se sustentou enquanto este último viveu da herança dos estádios anteriores (teológico e metafísico). Porém, o sucessivo afastamento e descuido em relação àquelas fontes deixou-o animicamente esvaído e eticamente desamparado».

O primeiro parágrafo deste raciocínio de D. Manuel Clemente a págs. 40 e seg. do seu livro “PORQUÊ E PARA QUÊ – Pensar com esperança o Portugal de hoje” assenta como uma luva ao meu avô e o segundo assenta como uma palmatória à geração pós-moderna actual.

Tomás da Fonseca dir-se-ia ateu mas viveu sempre numa irrepreensível ética cristã de solidariedade e benevolência, na autêntica compaixão para com o próximo, de honradez e de trabalho. Dominava com destreza a Teologia mas nunca se deu bem com o dogma. Contudo, a luta que travou foi contra o domínio clerical da sociedade portuguesa em que nasceu e em que se fez homem.

No início do século XX, a sociedade rural do interior de Portugal vivia numa quase hierocracia e foi contra esse domínio que ele fez a batalha da sua vida.

Perante perfil absolutamente ético, creio necessário que, para remissão do pós-modernismo que nos vem sendo imposto e tem conduzido a juventude ao mais refinado hedonismo, haja «uma síntese a empreender para nos retomarmos como humanidade e com o que aprendemos entretanto» (op. cit).

A minha sorte é a de ter testemunhado o exemplo do meu avô – e o do meu pai – por contraste com os que julgam que tudo lhes é devido sem esforço e que nas crises reais ou imaginadas se sentem «à rasca». É que a crise pode ser real, exógena ao indivíduo, mas a pior de todas é a endógena, a que corresponde à falta do sentido ético, a do «quero tudo», a que sobrepõe o ter ao ser.

No transe, os profissionais da demagogia também deviam fazer uma pausa, caso ainda possuam parâmetros que lhes permitam distinguir o bem e o mal, tenham algum conceito de bem-comum e tenham a coragem de afirmar que a liberdade de cada um acaba onde começa a do vizinho. E mais: a liberdade democrática tanto reconhece direitos como exige o cumprimento de deveres. Mas isso já deve ser pedir muito a quem quer ganhar votos…

Henrique Salles da Fonseca

COM OS PÉS BEM ASSENTES NAS PEDRAS

Como será na outra dimensão que não esta, material, em que nos encontramos? Não sei e não pensei ainda no assunto. O que sei é que não me vou preocupar por enquanto com o tema. Por enquanto…

Mas, embora possa parecer um absurdo, agora penso em James Joyce e na sua epifania, a epifania joyceana dos lugares e das suas ocasiões. E do que se trata? Trata-se de «vermos» o que aconteceu nos lugares por que passamos, sobre as pedras que pisamos. Mas isso, numa condição: a de sabermos o que se tenha por ali efectivamente passado. Então, vemos as cenas, imaginamos as pessoas, os factos historicamente conhecidos. E tudo isso acende luzes na nossa mente até ao ponto de consciencializarmos os pormenores, os fundamentos dos acontecimentos, a quinta essência dos locais.

Eis por que espiritualismo nada tem a ver com espiritismo; James Joyce nem sequer terá conhecido Allan Kardec. E eu prefiro «Ulisses».

A epifania a que me refiro acontece a partir do conhecimento prévio do que tenha acontecido, resulta de nós, não é uma adivinhação nem uma revelação de algo que não conhecíamos e que nos seja trazida… por quem? A transcendência joyceana é endógena, genuinamente nossa, não usa mesas com pé de galo nem fumos mais ou menos anabolizantes espirituais.

E nada me diz que James Joyce tenha curriculum que o eleve aos altares.

 

Henrique Salles da Fonseca

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D