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A bem da Nação

ANDA COMIGO - 20

Agora que a cidade está no retrovisor e antes que me esqueça, devo dizer que prefiro Basel a Basileia porque esta versão aportuguesada do nome desta cidade suíça me faz lembrar uma geleia de um qualquer fruto ou mistela gordurosa feita com o pó do basilisco moído fino. E não vá isso fazer mal aos meus leitores que possam estar a contas com os diabetes, opto pelo nome original alemão, Basel, foneticamente mais agradável para o interior das minhas orelhas.

De Basel a Montreux são 165 quilómetros e isso fez-me lembrar que a Suíça não é assim tão estreita como nos possa parecer num relance sobre o mapa que a Senhor Professora lá tinha pendurado na sala das aulas. E porque desta vez íamos com mais pressa do que com vagar, de Montreux vi o lago Léman que se estendia a perder de vista à minha direita e à minha esquerda uma mansão pintada de creme com varandas convidativas para um drink ao pôr do Sol sobre as águas ali em frente, do outro lado da estrada. Lembrei-me também de que devia andar por ali o Festival de Música da cidade mas àquela hora não vimos ninguém nesses preparos festivos. Era cedo, o Sol ainda não passara por cima das montanhas por trás da mansão creme.

A estrada começou a ameaçar subir pouco depois de sairmos da cidade. Não faltou muito para que fosse mesmo estrada de montanha e o nosso destino era o Grande São Bernardo, dali a 80 quilómetros, para passarmos os Alpes e descermos para Itália. Tínhamos que chegar ao cume no pino do Sol para termos mais probabilidades de não apanharmos alguma borrasca que nos deixasse em aflições. Ainda faltavam umas décadas para que passassem a funcionar túneis pelas entranhas dos Alpes. E o nosso fidelíssimo «pão de forma» lá nos pôs nos píncaros dos monges da regra de S. Bernardo e donos do cão «Barry» que nos inícios do séc. XIX salvou, durante a dúzia de anos que trabalhou, cerca de 40 peregrinos em apuros na rota de Roma.

Lembro-me de termos parado lá no cimo para deixarmos algumas marcas territoriais mas não procurámos o mosteiro. A passagem da fronteira deve ter sido fácil pois não me lembro sequer dos Carabinieri que por ali estivessem.

A descida ao longo do Vale d’Aosta seria de 53 quilómetros até chegarmos à cidade de Aosta propriamente dita. Mas o nosso destino era o Castello di Pavone em Ivrea, propriedade do Dr. Ruy d’Andrade, pai do nosso Comandante, a 68 quilómetros depois da capital do vale, a meio caminho para Turim.

A parte baixa do vale é relativamente aprazível mas pergunto-me como é que há quem viva lá para cima. Deve ser para guardarem algum afluente do Pó enquanto menino. Só pode.

Fiquei cansado da subida suíça e da descida italiana. Hoje, fico-me por aqui, amanhã conto mais…

Maio de 2020

Henrique Salles da Fonseca

ANDA COMIGO – 19

 

De Braunschweig a Frankfurt seriam cerca de 350 kms. O dia tinha começado muito cedo, não íamos salvar ninguém da forca e o nosso Comandante, sempre ao volante, merecia descansar. Ninguém se preocupou com a decisão de ficarmos um dia e uma noite no camping local, já na estrada para Hannover se a memória não me atraiçoa muito.

Descansados do stress anterior, lá fomos pelo mapa a baixo sem grande vontade de dar voltas e voltinhas turísticas pelas cidades por que íamos passando até que chegámos a Frankfurt pelo meio da tarde. Demos, aí sim, uma volta pela capital da finança para, como de costume, ficarmos com uma ideia geral e vá de procurar local de pernoita. Sem história.

No dia seguinte esperava-nos uma etapa de 280 quilómetros até Freiburg, já quase na fronteira com a Suíça mas, antes disso, uma volta genérica pelo centro de Karlsruhe – literalmente, «o descanso de Carlos».

Julgava eu que a etimologia do nome tivesse alguma coisa a ver com Carlos Magno e imaginava que ele ali fosse a banhos já que a cidade, entretanto, está integrada no Estado federado de Baden-Wurttemberg. Fantasia pura. A cidade foi fundada em 1715 e quando eu percebi que o nome também nada tinha a ver com Carlos V, tive que passar a lidar com o enigma das bandeirinhas espanholas nos eléctricos da cidade.

Vista a cidade-leque, seguimos caminho…´

Lembro-me perfeitamente de termos subido o Alto Reno pela sua margem direita vendo aqui e ali castelos ribeirinhos para a cobrança de taxas mas já não me lembro de onde a onde foi esse percurso lindíssimo. E não faltará quem diga que esses Senhores feudais só pensavam enriquecer à custa de quem passava mas eu lembro a Teologia Luterana que então era novidade mas que já pugnava pelo bem-comum. E havia que financiar tais acções dos ditos Senhores ao quererem dar bem-estar às populações que governavam.

De Freiburgo retive um centro verdadeiramente antigo em torno da catedral católica e lembro-me de uma envolvente urbana com edifícios de bela traça renascentista (?). Vai daí, não procurámos afanosamente a Universidade que não encontrámos. Mas diz-se que estava lá.

Passámos a fronteira quase sem darmos por ela.

Já na Suíça, Basel (Basileia, em português) esperava-nos a 70 quilómetros. E aí deu para recordar Nietzsche que durante anos ocupou uma cátedra na Universidade local sem sequer ser licenciado. Não, não foi por falsificações nem outras imposturas ao estilo das nossas conhecidas cá na «Santa terrinha», toda a gente sabia que ele não tinha concluído o curso em Bonn nem em Leipzig, mas a Universidade de Basel achou que ele era quem mais sabia do tema cuja cátedra queria preencher e por isso lha ofereceu. Mas há mais: o filósofo estivera na guerra franco-prussiana como maqueiro e fora contagiado por graves moléstias que os grandes «sábios» da época tratavam com clisteres de nitrato de prata. Claro está que ia morrendo da «cura» e ficou avariado da barriga para o resto da vida. Assim, para não correr o risco de novas mobilizações pelo Exército da belicosa Prússia, a Universidade sugeriu-lhe que renunciasse à nacionalidade alemã e disponibilizou-se para lhe tratar da obtenção da nacionalidade suíça. Tudo bem, deixou de ser alemão mas o processo burocrático embrulhou-se e nunca obteve a nova nacionalidade. Resultado: ficou apátrida até ao fim dos seus dias.

Não era tarde mas tínhamos tido um dia muito cheio de vistas pelo que pernoitámos num camping qualquer nas redondezas da cidade, já na estrada para Montreux, a 165 quilómetros.

(continua)

Maio de 2020

Henrique Salles da Fonseca

ANDA COMIGO – 18

Unter den Linden, Ópera, Kurfürstendamm (ou apenas Kudamm), Porta de Brandenburgo… e aquilo tudo cheio de obras…

E de quem havia eu de me lembrar? De Herbert von Karajan que devia andar por ali, algures e de Gustav Steinbrecht – dois tipos tão diferentes e, contudo, foi em Berlim que ambos se notabilizaram: um, como intérprete da música erudita; o outro, como autor consagrado de um método de equitação ainda hoje louvado apesar de menos seguido do que o desejável.

… e aquilo tudo cheio de obras…

- Deixem estar. Temos muito que ver deste lado, não vale a pena irmos a Pankow que é o Sector Soviético. Se os alemães de leste só pensam em vir para cá, que vamos nós lá fazer? Já vimos o suficiente ao longo da autoestrada. – assim falava o nosso Comandante. E não fomos.

Até que já estávamos cansados de voltas e mais voltas, já tínhamos uma ideia do que era Berlim ocidental, não nos importámos nada de rumar ao camping, armar a tenda e descansar um pouco debaixo daquelas árvores até que fossem horas de jantar. E assim foi. Até que foram horas de silêncio em todo o parque.

Seriam umas 4 da manhã quando fomos acordados por uma voz portuguesa junto do «pão de forma». Era um funcionário do nosso Consulado (se a memória não me atraiçoa muito) que andava à procura de portugueses nos campings da cidade para nos mandar embora imediatamente.

- Mas…?

- O Senhor desculpe mas as perguntas deve-as fazer quando chegarem à Alemanha Federal. Por onde vieram?

- Por Braunschweig.

- Muito bem, é por lá que devem voltar e despachem-se para não perderem muito tempo na fila aqui à saída. Quanto mais rápidos, melhor.

Percebemos que a hora não era de perguntas mas sim de marcha.

Marchámos mesmo dali para fora. Chegámos à entrada do corredor com destino a Braunschweig e, contra as expectativas, o expediente foi rápido: não eramos alemães de leste em fuga, podíamos sair e quanto mais rápido, melhor.

No regresso, com o dia a nascer no retrovisor, a viagem pareceu mais rápida e quando chegámos à liberdade, perguntámos e ficámos a saber que poderíamos contar aos netos que tínhamos visto a construção do Muro de Berlim.

Nem Zaratustra falara com tanta sabedoria como o nosso Comandante quando decidira não irmos a Pankow.

 Parámos o «pão de forma» à entrada de Braunschweig ainda à vista da «cortina de ferro», apeámo-nos, olhámos para trás, respirámos fundo, pensámos coisas horríveis contra o regime esclavagista e pisgámo-nos para longe da porta do Inferno Vermelho.

Como se chama a um pensamento votivo em que se formulam ideias medonhas? Não por certo uma oração.

Ainda faltavam 28 anos e 3 meses para que aquele Inferno se desmoronasse. Em vez de pensamentos horríveis contra os algozes, devíamos ter pedido pelas suas vítimas. Claramente, não é pela negativa que se salva a Humanidade.

(continua)

Maio de 2020

Henrique Salles da Fonseca

ANDA COMIGO – 17

Próximo destino, Braunschweig. Seriam 300 quilómetros no sentido Sul passando novamente por Hamburgo e por Hannover, a dos nossos cavalos mas também sede dos pneus alemães e da Casa estaminal da «Senhora de Hannover» que, entretanto, se senta no trono da Velha Albion.

Sim, a Casa de Hannover é de uma família nobre alemã que foi escolhida para dar uma nova dinastia à Grã-Bretanha em 1714[i] e, daí, eu chamar à Rainha Isabel II de Inglaterra «a Senhora de Hannover». E, já não ela mas um seu antepassado não muito longínquo, Duque de Braunschweig.

Fomos à sede desse ex-Ducado visitar uma antiga professora de alemão dos meus companheiros de viagem que nos conseguiu receber para jantar no seu «vasto» apartamento T1. Mas íamos lá também porque era ali que começava o corredor de passagem terrestre através da Alemanha soviética em direcção a Berlim. E, dando uma curta volta de carro, fomos ao longo da medonha «cortina de ferro» que, vista do nosso lado, era um muro em placas de cimento com torres de vigia espaçadas de modo a que cada torre pudesse cobrir de metralha a distância até à torre seguinte. E eu pensei como é que aqueles Vopo’s (Volks Polzei - «Polícia do Povo» ou «Polícia Popular»), vendo-nos do lado de cá tão satisfeitos da vida, não aspirariam o mesmo para si próprios. Foi então que comecei a imaginar o significado de «lavagem ao cérebro». Com base nesta deturpação do sentido da vida, olhei para aquele muro, para aquelas torres, seus ninhos de metralhadoras e seus fanatizados polícias e temi que algum deles tivesse um inesperado espasmo neuro-muscular no respectivo dedo a postos no gatilho. Eu não sabia – e continuo sem saber – quais as instruções que aqueles desgraçados tinham – se era para estarem sempre com o dedo a postos no gatilho durante todo o tempo de serviço ou se podiam descansar de tantos em tantos minutos. É que se as ordens fossem de engatilharem permanentemente, os tais espasmos poderiam acontecer inesperadamente com as mais trágicas consequências. Nada aconteceu, passámos por dentro do campo de fogo sem ocorrências de nota, os Vopo’s deviam ter entrado ao serviço pouco tempo antes.

Vamos, não vamos…?

Vamos, não vamos…?

Fomos!

Na manhã seguinte metemo-nos no «pão de forma» quando o Sol se levantou e pedimos entrada no corredor para Berlim. Depois de muito morosas verificações, lá fomos finalmente autorizados a passar. Esperavam-nos 230 quilómetros por uma autoestrada hitleriana com registo de hora de entrada e marcação de hora máxima de chegada. Vedações laterais ao longo de toda a autoestrada não fosse – segundo a propaganda do Camarada Walter Ulbricht - algum ocidental tentar-se pelo «paraíso» socialista e entrar clandestinamente por ali dentro… Mas as tentações eram refreadas pelo que pudemos ver no trabalho rural. Afinal, as vedações eram para os refrear a eles e não a nós. Sim, estou a ser irónico porque seria de muito mau gosto tentar fazer humor com aqueles cenários de escravatura. E isto passava-se em 1961, não em 1691. Camaradas, não tentem fazer dislexia à minha frente para não passarem por um vexame.

Vimos Magdeburgo à distância e imaginámos Potsdam já quase no destino. Verificada a hora, passámos em liberdade para Berlim livre. Antes de tudo o mais, procurar um parque de campismo. Ficámos num que não era muito afastado do Tiergarten que é como se diz «jardim zoológico» em alemão.

(continua)

Maio de 2020

Henrique Salles da Fonseca

 

[i] - https://pt.wikipedia.org/wiki/Casa_de_Han%C3%B4ver

 

ANDA COMIGO – 16

Com tanta andança, o curso passou como um «augenblick»[i] e, mal demos por nós, já era hora de emalar a trouxa.

E aqui vamos nós…

De Verden rumámos a Norte para darmos uma volta por Hamburgo já que das vezes em que fôramos a Holstein   e ali ao lado à procura do «leiteiro», tínhamos passado por lá como raposa por vinha vindimada. E nesta volta vi o mesmo que já tinha visto em Bremen: as ruínas da guerra que ainda vira dois anos antes, tinham desaparecido completamente e a cidade vibrava de energia como se nada tivesse acontecido tão pouco tempo antes. Sim, uma cidade da famosa «Liga Hanseática» que nas matrículas dos seus carros continuava a ostentar «HH» - «Hansastadt Hamburg» significando «cidade hanseática». O mesmo em relação a Bremen com as matrículas «HB»[ii]. E, na falta do famoso «Derby» que naquele ano já se realizara, limitámo-nos a passar no recinto que se situa no meio de um parque enorme no Langnese que é uma zona chique ao longo da margem direita do Elba que, apesar de todas as sarrafuscas, continua a passa por ali a caminho do Mar do Norte.

Retomando o caminho do Norte, o destino era no Mar Báltico, Kiel, a uma centena de quilómetros.

Fomos a casa do Capitão do Porto que era primo da cunhada da tia não sei de quem… Lembro-me de ter visto uns navios atracados na margem oposta do porto e lembro-me duma salada de batata que foi servida ao jantar e de que gostei muito - a ponto de me lembrar dela 59 anos depois de a ter comido. Não tive lata de me servir segunda vez mas vontade não faltou. Mais que isto, olhei para o Báltico ali mesmo à nossa frente, cinzento e encrespado e pensei na tragédia do «Wilhelm Gustloff», navio de cruzeiros alemão torpedeado já em 1945 por um submarino soviético durante a evacuação dos alemães residente em Königsberg na Prússia Oriental entretanto tomada pelo Exército Vermelho. Morreram mais de nove mil pessoas, tantas quantas assim não chegaram a Kiel[iii], precisamente àquele sítio onde eu estava naquele momento - o cais das almas.

E, a propósito de Königsberg, lá ao fundo longínquo deste mar, lembrei-me de dois que lá ficaram enterrados: Immanuel Kant e o nosso Marquês de Alorna, D. Pedro Almeida Portugal, que partira para França desgostoso por o Duque de Lafões, membro da Junta Governativa que funcionou entre a partida da Família Real para o Brasil e a primeira invasão francesa, não o ter deixado defender Olivença das tropas franco-espanholas e que, numa reviravolta, decidira aderir à causa napoleónica e acompanhar o Imperador na acção de sacudir as teias de aranha da velha realeza europeia. Mas a desmedida ambição de Bonaparte levou-o a «esticar a corda» e a ser batido pelo General Inverno russo. E assim foi que o nosso Marquês, arrastando-se na retirada, acabou em Königsberg. E lá está. E se Kant lá pode ficar porque em vida nunca de lá saiu, o nosso Marquês bem podia ser trasladado para Almeirim já que é tempo de fazermos as pazes com a História.

Arrumados os talheres nos pratos a dizer que chegáramos ao fim, dados os dedos de conversa protocolar para que não fosse «comida feita, companhia desfeita», foi a hora da despedida e dos agradecimentos.

Fomos pernoitar num qualquer camping que esqueci e no dia seguinte começaríamos nova grande aventura…

(continua)

Maio de 2020

Henrique Salles da Fonseca

[i] - literalmente, «piscar de olhos» significando «instante»

[ii] - O mesmo relativamente a Hannover que já não sou capaz de recordar como eram. Aguardo que um leitor me ajude – no modelo do pós-guerra, não as matrículas actuais.

[iii] - https://pt.wikipedia.org/wiki/MV_Wilhelm_Gustloff

 

ANDA COMIGO – 15

Já referi numa crónica anterior que o nosso professor de equitação (cujo nome esqueci rapidamente) participou no Concurso Hípico Nacional Oficial realizado em Verden enquanto lá estávamos. É claro que fomos assistir, não à prova do dito professor, mas apenas à mais importante que era disputada em duas mãos, uma antes da hora do jantar e a outra depois do dito. No intervalo, um desfile de bandas militares tão ao gosto alemão cuja apresentação, já noite cerrada, concluiu com o Hino Nacional no que foi acompanhado por toda a assistência de pé e que enchia por completo as bancadas do estádio municipal. Não sei o que aconteceu aos cantantes mas eu fiquei com um apertado nó na garganta. Joseph Haydn tinha um certo jeito para a música. Creio que a emoção que encheu o estádio tinha também a ver com o facto de, na sequência da derrota alemã na II Guerra Mundial, aquela parte da Alemanha Federal estar sob ocupação militar inglesa e, daí, um certo exacerbamento diplomaticamente admissível do nacionalismo. Tudo sereno, os cavaleiros ingleses que montavam bem, eram tão aplaudidos como os alemães. E a presença inglesa sempre era de alguma utilidade perante os russos ali tão perto, do outro lado da fronteira inter-alemã.

Noutra ocasião, passámos por um Concurso Regional em que participavam sobretudo cavalos novos com cavaleiros velhos (experientes) e cavaleiros velhos com cavalos novos. Estávamos a falar em português entre nós e um par de cavalheiros perguntou-nos delicadamente que língua estávamos a falar. À nossa resposta, logo um deles exclamou – Ah! Eusébio und sardinien! ao que o outro acrescentou – Amália! Naquelas épocas, diziam os brincalhões, os maiores símbolos de Portugal eram o Eusébio, a Amália Rodrigues, o então Capitão Henrique Calado e o Cardeal Cerejeira. Joking, of course.

Duma vez, fomos à sede da Coudelaria de Holstein, a cerca de 160 quilómetros a Norte, já a caminho da Península da Jutlândia, onde vimos cavalos à moda antiga, cavalões com 1,70 m. ao garrote e volume que os fazia parecidos com wagões dos caminhos de ferro, de garupa horizontal, raça a que pertenciam vários cavalos do nosso Exército e que competiam no «gordo». Lembro-me do «Palpite» (montado pelo Tenente Coronel António Pereira de Almeida) e do «Rovuma» (espero que um leitor me ajude a lembrar quem era o seu cavaleiro).

Doutra vez, visitámos o Depósito de Garanhões do Estado em Warendorf, a 200 quilómetros a Sul da nossa Escola, onde residiam os padreadores de todas as raças cavalares que o Estado Alemão considerava relevantes. Foi aí que vi pela primeira vez um cavalo a pesar mais de uma tonelada. É claro que se tratava de uma raça destinada ao tiro, não à sela, aquilo a que muita gente associa ao francês Percheron.

Como se vê, passeámos muito e, a pretexto dos cavalos, ficámos com uma vasta ideia da Alemanha então acessível a um ocidental. E ainda a procissão mal tinha saído do adro…

(continua)

Maio de 2020

Henrique Salles da Fonseca

ANDA COMIGO - 14

 

A sueca que foi escolhida para, de tarde, montar o cavalo que, supostamente, era o  do Director, montava inequivocamente bem mas ninguém me convence de que a sua estética não pesou na balança da escolha. E, nesta perspectiva, tanto quanto me lembro, as opiniões eram unânimes: imbatível num raio de alguns quilómetros à sua volta.

Quis, no entanto, o determinismo histórico que a maré das nossas atenções se desviasse dela e rumassemos alhures.

E, então, foi assim: havia uma aluna muito tímida e que não se aproximava de ninguém. Um verdadeiro «bicho do mato». É claro que chamou a atenção de todos os circundantes mas ninguém se sentiu em condições de ajudar. Eramos quase todos da idade dela e «Santos de casa não fazem milagres». Ou seja, não teríamos ascendente sobre ela para a convencer de que ninguém lhe faria mal. Até que o nosso Comandante, compadecido, sendo o mais velho da classe dos alunos, meteu conversa e ela não fugiu. Para espanto de toda a gente, ela começou a descontrair-se e a interagir com os outros alunos, com quase normalidade. Seria pouco mais velha do que eu, não era alta nem baixa, nem gorda nem magra, nem feia nem bonita, era totalmente banal. Mas tinha uma particularidade: era austríaca e gostava muito de um dia poder montar um cavalo lipizano. Do que a vi montar, creio que ainda lhe faltariam uns anitos para que o pudesse fazer num cavalo ensinado à séria. Mas isso é o que menos interessa para esta história.

O que mais interessa é que ela acabou por contar (quase a confessar) que era filha de mãe solteira, fruto duma relação menos ortodoxa com o Burgomestre (Presidente da Câmara Municipal) de Graz, a segunda mais importante cidade da Áustria, no tempo da anexação pela Alemanha durante o regime nazi. O pai era engenheiro e arquitecto e, apesar disso, vivia agora sob identidade falsa num arredor de Hamburgo a distribuir leite de porta em porta. O outro sonho dela era um dia conhecer o pai. Perguntada, que sim, tinha o telefone dele.

O nosso Comandante ofereceu-se para a levarmos num Domingo a conhecer o Pai. Ficou a pensar e passado um ou dois dias aceitou a oferta. Só que naquelas épocas faltavam umas décadas para aparecerem os telemóveis e seria necessário usar o telefone fixo da Escola, o que não era fácil dado o horário de funcionamento da Secretaria não coincidir com as horas a que o destinatário estaria contactável. Mas tudo se arranjou com a disponibilidade do nosso Director de abrir a Secretaria a hora apropriada para o efeito. Lembro-me perfeitamente de que só à terceira vez é que o contacto se estabeleceu.

Foi então combinado o encontro para um determinado Domingo, num certo caféhaus na tal terrinha, pelo meio da tarde, sem mais testemunhas para além do nosso Comandante.

Nós, os rapazes, já não tínhamos assistido ao telefonema prévio e não fizemos perguntas. Agora, na visita ao «leiteiro», não apareceríamos sequer pelo que o «pão de forma» tinha de ficar um pouco afastado.

Assim foi e apenas soubemos que, feita a apresentação, o nosso Comandante se retirou e veio ter connosco onde ela viria juntar-se-nos quando o encontro terminasse. Saímos do carro e ficámos por ali a cirandar até que, para nosso espanto, ela veio ter connosco acompanhada do pai. Foi como se nós, os rapazes, ali não estivéssemos e a despedida foi um mero aceno de cabeça do «leiteiro», um breve aceno da mão do nosso Comandante e outro do ex-«bicho de mato». Nem um «obrigado». Apeteceu-nos dizer os palavrões que calámos mas ela não se calou nos 120 quilómetros que nos separavam de Verden. Já então eu decidira vir a ser economista e não psiquiatra pelo que desliguei daquele desabrochar de um entupimento de anos e anos.

A partir de então, ela passou a portar-se com toda a naturalidade e a concentrar-se na realização do outro sonho, montar um lipizano.

Em alemão diz-se «Glückliches Ende» quando os ingleses dizem «Happy End».

(continua)

Maio de 2020

Henrique Salles da Fonseca

ANDA COMIGO – 13

Camarata de três beliches, seis ocupantes. Nós eramos cinco, o último a caber foi um retardatário que não ficou na história. Significa isto que era alguém perfeitamente normal que não se distinguiu pela positiva nem pela negativa. Ou seja, não era nem cantor da Ópera de Berlim nem membro encartado de alguma estrebaria. Lembro-me, isso sim, de o nosso Comandante ter determinado que, desde que ele estivesse presente, só falaríamos alemão mesmo entre nós, os portugueses. Tudo correu sobre esferas a ponto de não me lembrar de quem ele era.

No primeiro dia do curso, formatura na «parada» da Escola para preleção quanto às regras gerais seguida de distribuição de cavalo a cada aluno.  A égua que me coubera dois anos antes tinha ido para o campo a fim de criar. Desta vez coube-me uma égua meio sangue árabe. Tratava-se de um processo de aligeiramento da raça dos cavalos de Hannover de modo a poderem ser mais maleáveis e competitivos. Esta primeira fase através do sangue árabe veio a ser complementada com o sangue inglês no que resultou num tipo de cavalo actualmente considerado o melhor no mundo desportivo. Há décadas que os hannoverianos são a raça mais representada nos Jogos Olímpicos – seguidos, no Dressage nos últimos anos, pelos lusitanos.

O professor de equitação já não era o de dois anos antes, o Senhor Hansen, que sabia de equitação e ministrava as aulas a cavalo de modo a poder exemplificar a qualquer momento. Desta vez, tínhamos um «rapazola» que sabia de cor o manual de instruções (o livro da Federação Equestre Alemã) e não devia gostar de montar pois nunca o vimos a cavalo a não ser nas vésperas do concurso hípico que se realizou na cidade e em que ele tinha que participar por exigências curriculares. Passo ao lado das matérias técnicas da equitação para não maçar os leitores não iniciados mas digo apenas que o círculo é a base da equitação, que dois anos antes montávamos sempre em círculo no picadeiro e que desta vez nunca recebemos ordem para o fazer. Eu circulava sempre que me parecia conveniente e lá estava o professor a perguntar ironicamente onde é que eu ia. De tarde, o Director sentava-se na tribuna a ver os alunos que ele convidava a montarem outros cavalos. Perguntado, pedi para montar a mesma égua que me tinha sido distribuída para as aulas da manhã. E foi de tarde que consegui pô-la no autoequilíbrio, nas marchas laterais, no recuar e a saída a galope a partir do passo. No final, já saía a galope a partir da paragem. Todo o cavalo com sangue árabe precisa que tenhamos muito mais cuidado com o seu dorso do que com os dos outros cavalos e o trabalho nas aulas de manhã não era o mais conveniente para esta minha nova amiga. Da tribuna, o Director não dava ordens, apenas intervinha se algum de nós cometia um erro. Desta vez, o cavalo dele foi atribuído a uma aluna sueca que era claramente a melhor cavaleira entre todos nós. Passados 59 anos, também o nome dela se me varreu.

O professor de condução de atrelagens era o mesmo de dois anos antes, o Senhor Kreutzer. Sabia ensinar e gostava de nos dar as aulas, a nós, portugueses, em francês pois aprendera a língua durante os dois anos que estivera em França como prisioneiro de guerra e que, entretanto, praticava raramente.  As lições de condução eram feitas na cidade e sempre pelo mesmo percurso que os cavalos já tinham decorado. Nós, os alunos, só tínhamos que os deixar andar ou parar conforme o tráfego automóvel. Eles, os cavalos, sabiam exactamente onde deviam andar a passo e onde podiam trotar; o galope não fazia parte do currículo para o exame deste grau de bronze. Nem o piso das ruas da cidade seria apropriado ao galope. Nunca mais pratiquei, esqueci quase tudo. Pena.

Concluído o curso, fizemos os exames de equitação e de atrelagens e trouxemos as belas medalhas do tamanho de um relógio de pulso e respectivas miniaturas para pregar na lapela. De bronze, habilitavam-nos a participar em competições regionais na Alemanha. Nenhum de nós os cinco o fez. Onde estarão as minhas que há décadas as não enxergo…?

Prometo não voltar a incomodar os leitores com mais equitações até porque há outras coisas para contar.

Amanhã há mais.

Maio de 2020

Henrique Salles da Fonseca

ANDA COMIGO - 12

Parque de campismo todo por nossa conta. Pareceu-nos que lá no outro extremo estava uma autocaravana com aspecto de que estava lá a título permanente ou abandonada. Assentáramos perto da Portaria e das casas de banho. À falta de uso, oxalá que funcionassem. Funcionavam, estavam limpas e se quiséssemos água quente que avisássemos o guarda para ele acender o termoacumulador com antecedência. Tudo bem, entrámos na Alemanha com o pé direito.

No dia seguinte seria a última etapa até ao destino, a Escola da Associação dos Criadores de Cavalos de Hannover, em Verden, onde eu estivera dois anos antes.

Dali, onde estávamos, a fronteira com a Holanda, a Bremen seriam 320 quilómetros e de Bremen a Verdem seriam mais 45.  Para chegarmos a horas de podermos escolher camarata e beliches, não poderíamos mandriar. Mas como a mândria não era o nosso timbre, levantámos arraial ao mesmo tempo que o Sol e metemos rodas à estrada.

Agricultura até à berma das estradas. Dois anos antes, ainda vira lavrar com arados puxados por cavalos mas desta vez já não vi senão máquinas. Isto significa que a agricultura não é a parente pobre da economia mas sim a sua base de sustentação: o agricultor produz sabendo de antemão que vende a preços convenientes, ganha dinheiro e investe em equipamentos e produtos correntes  produzidos pela indústria que faz crescer os serviços e assim sucessivamente…

Chegados a Bremen, demos uma volta pela cidade que nada tinha de especial para mostrar a não ser a mim. É que, dois anos antes, eu vira ainda ruínas dos bombardeamentos aéreos da guerra de 39-45 e naquela volta já não vi ruínas nenhumas nem nada que se parecesse. E voltei a lembrar-me de uma característica dos alemães que notara na minha visita anterior: alemão vive para trabalhar. E a minha confabulação continuava com a ideia de que latino trabalha para viver. Muitos e muitos anos mais tarde, estudei um pouco a causa desta realidade e fiquei a saber que as teologias protestantes de Calvino e de Lutero afirmam que o trabalho agrada a Deus e que só com efectivo contributo para o bem-comum se alcança a salvação eterna (e não pelo «comércio das bulas»). Mas isto aprendi eu muito mais tarde e naquelas épocas limitei-me ao conhecimento empírico de uma realidade que não sabia explicar. E estava ainda mais longe do Übermensch[i] de Nietzsche que, umas décadas depois da sua morte, veio a influenciar os nazis com a mitológica superioridade germânica.

Mas, na verdade, em dois anos desapareceram por completo os vestígios da guerra e de certeza que não foi sentados numa tasca a fumar narguilé que eles, os alemães, ressurgiram das cinzas como a Fénix.

Mas não será só a teologia que é decisiva nesta realidade: o facto de há muitas gerações não haver analfabetismo adulto, é por certo determinante na capacidade individual e colectiva de relançamento de vidas destroçadas. Os pobres de espírito, sim, estendem a mão a caridade por falta de desenrascanço, o empirismo do «know how» inglês e do «Fachwissen» alemão.

E, quando menos esperávamos, estávamos a ver a torre da grande igreja de Verden, aquela que eu sempre achei que tinha dimensão de catedral, tema que nunca investiguei.

Chegados ao estacionamento fronteiro à Escola, logo apareceu o Director que ainda era o meu conhecido Fritz Meyer Stocksdorf que, do «alto» do seu 1,60 m, nos deu as boas-vindas e nos conduziu à Secretaria para os procedimentos administrativos convenientes. Entretanto, nós, os rapazes, fomos logo à procura da camarata em que eu ficara dois anos antes e, como era meu desejo, estava livre e à espera de que a ocupássemos. Só depois desta marcação de território é que fomos ao «pão de forma» buscar os nossos pertences.

Era o dia 31 de Julho de 1961, véspera do 1 de Agosto em que começaria o nosso curso de equitação e condução de atrelagens para no final fazermos os exames da Federação Equestre Alemã e passarmos a ter as inerentes medalhas de bronze. Naquelas idades, aquilo era importante para nós.

(continua)

Maio de 2020

Henroque Salles da Fonseca

[i] - Literalmente, «sobre-humano» mas no sentido de «homem superior»

ANDA COMIGO – 11

Foi depois de almoçarmos no «camping» nas cercanias de Amesterdão que nos lançámos a caminho de Alkmaar para atravessarmos o dique do Zuidersee e chegarmos a Zurich. Sim, na Holanda há uma cidade homófona da da Suíça mas esta a que nos dirigiríamos situa-se na Frízia. E lá estamos de novo a falar de vacas. Mas estas são malhadas de branco e preto e vocacionadas para a produção de leite, não de filet mignon como as nossas visitantes espanholas de há uns dias a trás. Ao todo, esta etapa seria da ordem dos 150 quilómetros, 32 dos quais sobre o dique.

E vamos lá nós perceber aquela gente… O Zuidersee é um golfo do Mar do Norte que se estendia por ali dentro até ao centro da Holanda mas o nome significa literalmente «Mar do Sul» (zuider = do Sul; see = mar). Muito bem, admito que tenham sido os donos das vacas leiteiras a baptizar o dito mar que, em relação a eles (mas só a eles) se estende no sentido do Sul. Relativamente a todos os outros holandeses, o Mar do Sul situa-se a Norte. Mas quem somos nós para lhes afinar as bússolas? O que interessa é que todos sejam felizes. O golfo já foi muito mais vasto do que o é actualmente e as suas margens primitivas fazem parte dos territórios ganhos ao mar. Daí, a importância fundamental do dique por que passámos. E se aquela grande obra começou por ser um dique que sustinha as investidas do Mar do Norte, depois de algum tempo passou a ser uma barragem pois os níveis das águas de cada lado passaram a ser diferentes. A muralha passou a barrar a entrada das águas do mar naquela zona que tinha sido um seu golfo. Daqui, o ditado que apregoa que «Deus fez o mundo e os holandeses fizeram a Holanda»[i] (e os portugueses fizeram os mulatos).

Em meados de 1961, Zurich – esta, por que passámos à saída do dique – de cidade tinha o nome pois era, na nossa escala de valores urbanos, uma vila nem grande nem pequena, antes pelo contrário. Bonita, muito bem arranjada a fazer jus à paisagem envolvente que, como o resto da Holanda, me encantou. Uma particularidade que aqui notei pela primeira vez: a erva dos campos era pujante e ruminável até ao alcatrão, sem as bermas carecas típicas da Península Ibérica mais setentrional. A partir desta constatação, passei a observar o mesmo em toda a Europa por onde fomos passando e sobre que contarei…

Perguntado em inglês, um súbdito holandês respondeu-nos cortesmente que por ali não havia nenhum parque de campismo mas que avançássemos em direcção à fronteira alemã que logo lá encontraríamos o que procurávamos. Daquela Zurich a Bremen seriam cerca de 330 quilómetros. Ainda o Sol ia alto, foi decidido avançar até à fronteira a cerca de 10 quilómetros e perguntar a um guarda (se os houvesse) onde seria o parque de campismo mais próximo. Sim, havia guardas fronteiriços que não se cansavam muito com o trabalho e o «camping» mais próximo ficava ali logo à frente, já na Alemanha, a menos do que ao alcance de um tiro de arcabuz. E se a medição da distância parecia reminiscente de uma vintena de anos antes, o ambiente fronteiriço era sereno se não mesmo amistoso. Não sei como eles se entendiam mas nós, na Holanda falámos inglês e na Alemanha falámos alemão.

Era cedo, o Sol ia no ar, assentámos acampamento, demos uns quantos dedos de conversa e vimos a noite chagar. Era igual às que tínhamos visto do outro lado da fronteira. A paisagem é que, sendo verde e bem tratada, não era mignone como no país das vacas leiteiras, das túlipas e da rainha Juliana.

Ainda hoje estou para saber se foi esta rainha que inventou a sopa.

(continua)

Maio de 2020

Henrique Salles da Fonseca

 

[i] - https://pt.wikipedia.org/wiki/Afsluitdijk

 

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