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A bem da Nação

FORAM MARÍTIMOS…- 1

 

 

 

CATÁLOGO DUMA EXPOSIÇÃO

 

Foi em Junho de 1874 que Modest Mussorgsky compôs para piano a célebre suite “Quadros duma exposição” em homenagem ao seu grande amigo Viktor Hartmann, arquiteto e pintor, que morrera recentemente (1873) aos 39 anos de idade. Em Março de 1874 tinha estado patente em S. Petersburgo uma exposição dos seus principais quadros escolhendo Mussorgsky dez dentre os expostos e compondo uma música para cada um deles. A suite tornou-se rapidamente num êxito pelas apresentações que dela fez Claude Debussy não tardando muito para que Maurice Ravel a orquestrasse.

 

Assim é com o catálogo da Exposição sobre “A 1ª República em Tavira” que em 2010 esteve patente no Palácio da Galeria, núcleo principal do Museu Municipal da cidade: o que se poderia presumir um simples catálogo com imagens e breves legendas das principais peças expostas, é, afinal, um interessantíssimo documento sobre Tavira nos finais do séc. XIX e inícios do XX.

 

Grande louvor aos «Mussorgskys» tavirenses!

 

Mas os historiadores foram buscar «coisas» muito anteriores à implantação da República…

 

NÃO ERAM VIS, ERAM MARÍTIMOS

 

Em 27 de Junho de 1706 casou André Peres, «o Velho», com Isabel Madeira na igreja de Santa Maria do Castelo de Tavira sendo ele mareante, filho de Bernardo Martins e de Maria dos Reis. Segundo as testemunhas, todos “forão marítimos e não exercitarão ofício algum outro mecânico ou vil”.

 

Ficamos assim hoje a saber que naquele início do séc. XVIII, em Tavira, pelo menos as profissões de mareante e de mecânico não eram vis. Dá para nos perguntarmos por onde andaria então a vileza e porquê tanta preocupação uns «anitos» mais tarde com a edificação de nova cadeia. Para encarcerar que vis se tantos eram marítimos e mecânicos?

 

COMO ERA ENTÃO A MEDICINA…

 

Instruções do Director Geral de Saúde, Dr. Ricardo Jorge, para todo o país e, portanto, para Tavira também, no combate à expansão da pneumónica:

 

«(…) para que cada cidadão aplicasse no lenço: 20 gramas de álcool, 2 gramas de mentol, 10 gramas de amoníaco, 5 gramas de éter sulfúrico e 20 gramas de essência de rosa.»

 

Já o Dr. Castro de Barros, médico de Lisboa, deixava no jornal de Tavira “Província do Algarve” algumas indicações terapêuticas:

 

- Aos primeiros indícios de gripe, o doente deve deitar-se e cobrir-se bem, para suar;

- De 2 em 2 horas deve tomar chá com gotas de licor amoniacal anisado;

- No dia seguinte deve tomar 30 gramas de sulfato de soda desfeito em 2 decilitros de água quente;

- No outro dia (àparte meu: «se lá chegar vivo») deve tomar purgante de um caldo de carne;

- Nos dias seguintes, o doente deve consumir leite e água de 3 em 3 horas, alternadamente.

 

Perante a mortandade em curso, a edilidade decidiu mobilizar o parque automóvel concelhio de modo a que os três médicos e o quintanista de medicina (devidamente autorizado a prestar assistência clínica) pudessem acorrer a todas as chamadas, sobretudo nas zonas rurais onde não havia qualquer dispensário de saúde, médico ou sequer enfermeiro. Foram identificados 4 automóveis (cujos proprietários o catálogo identifica) mas por dificuldades na respectiva condução, optou a Câmara por alugar um trem que ficou à disposição dos clínicos. Mais tarde, talvez que perante a fadiga dos cavalos, foi decidido alugar mais outro trem.

 

Os dias eram de pânico e com os sinos das igrejas a anunciar repetidamente os funerais das vítimas da gripe, o ambiente ainda se tornava mais tenebroso. Assim foi que o Dr. João José Ponce (médico militar reformado que saltou para a frente de combate contra a epidemia) pediu formalmente ao Administrador do Concelho que, «devido à impressão que sobre os doentes produziam os prolongados dobres a finados, providenciasse de modo a olvidar a este inconveniente que aumentava o pânico da população da cidade, já por si muito alarmada com o acréscimo da doença».

 

Por ofício dirigido à GNR, o Administrador do Concelho chamava a atenção para a imundície que se notava na via pública, determinava que se fizesse os guardas cumprir com todo o rigor as disposições do Código de Posturas Municipais tendentes a manter a higiene, sobretudo nas ruas laterais onde a imundície mais se acumulava.

 

EPÍLOGO DOS CASOS FATAIS DA PNEUMÓNICA

 

Não havendo referência a estatísticas das vítimas concelhias (consta que em todo o país elas foram cerca de 60 mil) regista o Catálogo que os dois cemitérios religiosos existentes em Tavira acabaram por ser substituídos pelo novo cemitério municipal, destinado ao enterramento de todos os defuntos de qualquer fé. Foi por isso que o Pároco da Freguesia de Santiago pediu que nele fosse reservada uma parcela para enterramento de católicos. A Câmara – «apesar dos seus membros serem todos dessa religião» – indeferiu o pedido contrapondo que o Padre poderia dar a bênção à sepultura no acto de cada enterramento.

 

Á semelhança do que muitos anos mais tarde um guionista brasileiro de telenovelas escreveu para Odorico Paraguaçu, Prefeito de Sucupira, também o Presidente da Câmara de Tavira que tanto pugnou pelo novo cemitério, o Dr. António Padinha (pronuncie-se «Pádinha»), foi dos primeiros a inaugura-lo de corpo inteiro.

 

AS SENHORAS DE ENTÃO

 

 

Ficou por saber se a idosa Senhora mandou ou não fuzilar sem julgamento o ousado modernista que a captou em imagem juntamente com duas damas de companhia e uma atabalhoada serviçal que lhes seguia no rasto. E, sendo a devota Senhora de grande lealdade monárquica, logo o atrevido fez o daguerreotipo na recém intitulada «Praça da República». Um escândalo não só por ser apanhada em flagrante em local profanado com tal nome mas também por lhe poder captar a alma pela retenção da imagem…


DUAS CURIOSIDADES FINAIS


No dealbar da República, não havendo tempo nem verba para mudar o timbre das missivas oficiais camarárias, foi decidido adaptar o timbre monárquico a que um escriba cortaria a encarnado a Coroa que encimava o brasão.

 

 

 

Sendo escandalosa a higiene e «conforto» da cadeia, logo as primeiras vereações republicanas decidiram edificar novo estabelecimento prisional. O local escolhido situava-se na Rua da Liberdade.


AGRADECIMENTO

 

Um agradecimento especial ao meu Amigo José Padinha Rosado, companheiro de almoços no restaurante da praia do Barril, que me emprestou o catálogo cuja leitura tive pena de concluir.

 

Tavira, Agosto de 2013

 

 Henrique Salles da Fonseca

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