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A bem da Nação

QUANDO AS AMIGAS CONVERSAM...

OS SORRISOS EXCESSIVOS

 

Andamos em atritos, a minha amiga e eu. Ela, porque, atribuindo aos fados maléficos os pontapés que leva ou receia levar nas pedras da calçada à portuguesa, que difere bastante da estrada em macadame, porque dá lugar a mais estatelanços, resolveu fechar-se em copas, para equilíbrio pessoal. Eu, porque puxando por ela, para me dizer o que lhe vai na alma, para em seguida explanar o que me vai na minha, levo sempre com negas que me desinspiram e esmorecem.

 

De almas fechadas aos ventos das notícias, falamos mais nos que morrem ou morreram, nos que adoecem ou adoeceram, e de caminho vamos ouvindo histórias de sofrimento ou zangas familiares das amigas que por nós passam. Tudo gente antiga, antigas colegas, antigas companheiras que o tempo conserva ainda, a comprovar que a população está, de facto, a envelhecer, e a trazer à memória velhas frases de pessoas mais velhas, já desaparecidas, caso do meu amigo juiz Brite Ribas, que lembrava telefonicamente e melancolicamente, há uns vinte anos, isto que estamos sentindo agora: “Sinto-me muito só, porque os colegas da minha idade vão desaparecendo, e estou doente”. Não é bem o nosso caso ainda, mas chego a pensar que, até ao fim da vida, o nosso discurso da bica matinal não se vai erguer deste embrutecimento causado pelos problemas pessoais e alheios, mas causado também pela sensação de um genérico aplicado ao país doente e triste, por muito que – ou talvez por isso – os actuais programas televisivos matutinos ou vespertinos nos levem a conviver com o nosso povo de folguedos e de comidas. Embora às vezes também de arte, ao levarem-nos pelos caminhos do património cultural nacional, sem grande zelo de esclarecimento, é certo.

 

 

Por todos esses motivos de recusa em partilhar os meus breves contactos noticiarísticos, exponho sozinha o que me causa engulhos, e tal foi, há dias, o discurso muito amaneirado e dolicodoce de Assunção Esteves referindo-se a Cavaco Silva, desejando-lhe, no final, boa sorte, e falando, como Presidente da Assembleia da República, em trabalho e reuniões frequentes com ele.

 

Talvez ela não tivesse culpa de ter que justificar esse primeiro encontro, perante uma imprensa ávida de fofocas e de discursos vazios, de desejos vazios. Quando se pretende realmente trabalhar, não é necessário tanto badalar. Afinal, nunca eu tinha dado importância ao segundo lugar da nação, limitando-me a registar um ou outro dito espirituoso de outros Presidentes da Assembleia da República que passei a ouvir nas reuniões parlamentares e que abrangeram apenas Almeida Santos, Mota Amaral ou Jaime Gama, por serem contemporâneos da minha reforma.

 

Assunção Esteves é ainda jovem, é mulher – a primeira com esse cargo cá – dizem que competente. Não precisa de sorrir tanto, nem de explicitar tanto as suas funções, pois não têm que ser funções de charme, mas apenas de competência. Como os seus colegas ministros, que desejam desenvencilhar-se o melhor possível das suas funções, com seriedade e empenhamento, segundo afirmam.

 

Nada de extraordinário. Em todas as profissões são necessários a seriedade e o empenhamento. Mas “minister” significa no velho latim, servidor, criado, e embora a palavra tenha evoluído semanticamente, e de que maneira, convém que os actuais servidores da nação se não esqueçam das funções de bem servir, regressando à base etimológica, mau grado a sua permissividade a um Acordo Ortográfico defeituoso.

 

Se o muito riso é sinal de pouco siso, o sorriso excessivo pode ser sintoma de uma subserviência ao primeiro Presidente, que, dado o carácter untuoso que assumiu, de molusco enfiado na sua concha, fechada a qualquer trepidação, que não seja o seu mundo próprio, não precisa de tanta exteriorização de charme alheio.

 

Andamos fartos disso, de subserviências e de agressões. Precisamos de seriedade, não de sorrisos, de ocos blá blá blás. Precisamos de trabalho e competência. De honestidade para pagar o que devemos e para corrigir tantos erros que fizemos.

Faltou a graça neste arrazoado. Mas o tempo ameaçador não dá para sorrirmos.

 

Esperamos.

 

 Berta Brás

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