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A bem da Nação

UM OUTRO LADO DA HISTÓRIA

 

 

De regresso à ilustre figura de S. Roberto Cardeal Belarmino, recordo que foi a sua eloquência que o levou ao reconhecimento público como erudito da mais elevada estatura; as obras que publicou que em vida o alcandoraram à honra de Cardeal; a genuína bondade, impecável virtude e espiritualidade ímpar que o canonizaram. À doutrina por si produzida nos diversos campos da Teologia se deve a que tenha sido canonicamente declarado Doutor da Igreja alguns séculos depois da morte (Acta Apostólica de 9 de Novembro de 1931).

 

E recordo também como ele andou sempre na linha da frente relativamente aos grandes temas da Igreja Católica do seu tempo. Foi assim que assumiram especial relevo as discussões que manteve com os teólogos luteranos e calvinistas mas também foram importantes as intervenções que teve no processo inquisitorial de Galileu Galilei.

 

 

 

Consta também que Belarmino era pessoa de trato afável e de reconhecida sensatez. Em suma, era também pessoa de grande equilíbrio.

 

E foi precisamente este equilíbrio que explicou como, em problemas tão graves como o do primeiro processo inquisitorial de Galileu, soubesse manter-se a uma altura e serenidade de visão que, tanto aos consultores do Stº Ofício como ao ilustre acusado, faltaram.

 

Esta página da Inquisição foi, durante séculos, bandeira de combate contra a Igreja. Ainda hoje, há muito quem se banqueteie com a triste figura dos teólogos caturras na imobilidade da Terra e no movimento do Sol perante o génio que afirmava a imobilidade do Sol e o movimento da Terra.

 

Convenhamos, contudo, que esses teólogos se baseavam no que a melhor ciência teológica à época permitia considerar sobre as afirmações de Galileu. E parece que Galileu, em vez de calar os seus acusadores com argumentos de índole científica da mecânica celeste, se meteu por caminhos que não dominava relativos à esfera esotérica celestial.

 

Perante estratégia de defesa tão mal imaginada por figura tão genial, foi Galileu intimado pelo Stº Ofício em 26 de Fevereiro de 1616 a não defender mais a teoria heliocêntrica como verdade absoluta ficando-lhe só a faculdade de a propor como hipótese mais coerente com algumas das suas novas descobertas.

 

Mas houve mais e, aqui, em grande desfavor da Igreja cuja leitura das Escrituras era então feita em sentido absoluto, ou seja, à letra. Tal como actualmente fazem os sunitas wahhabitas relativamente ao Corão.

 

Mas entretanto a Teologia cristã evoluiu muito e actualmente já os teólogos reconhecem que nada pode haver nas Escrituras que afronte o heliocentrismo.

 

Só que, naquela época, a leitura era hermeticamente literal, as interpretações (Giordano Bruno) podiam facilmente ser consideradas heresias e o «caldo» facilmente se entornava.

 

Para cúmulo, quaisquer dúvidas que pudessem advir do heliocentrismo desabando sobre a doutrina católica então vigente, só poderia dar força aos que eram alcunhados de «desvairados reformadores», os luteranos e os calvinistas. E esta era uma luta de vida ou de morte em que a Igreja não podia ceder.

 

Colhe agora tentarmos saber o que pensava Belarmino de tudo isto.

 

Num tempo em que os exegetas se aferravam demasiado ao sentido literal das Escrituras, Belarmino não duvidou propor uma fórmula ultra progressista para os parâmetros da época:

 

- Digo que se chegarmos a descobrir uma prova real de que o Sol está fixo e não gira à volta da Terra mas, pelo contrário, a Terra gira à volta do Sol, então será necessário proceder com todo o cuidado à interpretação das passagens da Escritura que parecem indicar o contrário e devemos antes dizer que as não compreendemos até aqui, do que declarar falso aquilo que está demonstrado.

 

A título de curiosidade, refira-se que Galileu foi submetido a três processos inquisitoriais, respectivamente em 1616, 1624 e 1633[1].

 

Aquando do pontificado de Urbano VIII, foi-lhe decretada detenção (1º processo) mas o Papa determinou que a pena fosse cumprida em regime de residência fixa no Palácio Apostólico (residência do próprio Papa), com uma pensão e fazendo-se acompanhar dos cientistas que Galileu considerasse importantes para o desenvolvimento dos trabalhos científicos. Evangelista Torricelli, por exemplo.

 

No terceiro e último processo, já Belarmino morto, constará das Actas do processo que Galileu «invocou repetidas vezes a lembrança do Santo e amável Cardeal para que do sepulcro acudisse em sua ajuda».

 

Afinal, na furna inquisitorial nem todos eram algozes.

 

Agosto de 2013

 

 Henrique Salles da Fonseca

 

BIBLIOGRAFIA:

 

 

“LUZ NO CANDELABRO”, Domingos Maurício SJ, in BROTÉRIA, Fevereiro de 1932 reproduzido na mesma revista em Julho de 2013, pág. 81 e seg.

 



[1] Por não cumprir as sentenças anteriores

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