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A bem da Nação

A SEMENTINHA, TAL QUAL A OUTRA

 

 

Após o suspense vivido com a proposta de coligação pelo PR entre os principais partidos, que ninguém contava que fosse aceite, Cavaco Silva veio confirmar o que já se sabia, que só servira para atrasar e prejudicar mais a governação económica do país, mas o nosso Presidente estava contente com o interregno, que, ao que parece, lhe permitira lançar semeadura profícua criando colaboracionismo e paz entre todos os portugueses, após as palmatoadas daquele.

 

Mas a questão das sementes citadas pelo Presidente como processo de frutificação, trouxe-me à mente a “sementinha” da Toada de Portalegre de José Régio, que essa, sim, frutificou em acácia ramosa, lá na casa tosca e bela e numa cepa da velha varanda, transplantada a seguir para junto dos ciprestes do cemitério

 

Eu não julgo que as sementes do nosso Presidente venham a ter o mesmo destino macabro da acaciazinha de José Régio, que, apesar de tudo, teve um efeito benéfico de apaziguadora espiritual. Só que não acredito nelas. Aqui o fruto das sementes é mesmo um paleio indestrutível. Estou a ouvi-los já, dentes arreganhados na ferocidade do saber que, acalmado o medo de perda da côdea, se prepara para continuar a derrubar.

 

 

…………………………………….

Senão quando o amor de Deus

Ao vento que anda, desanda,

E sarabanda, e ciranda,

Confia uma sementinha

Perdida entre terra e céus,

E o vento a traz à varanda

Daquela Minha Janela

Da tal casa tosca e bela

À qual quis como se fora

Feita para eu morar nela!
Lá no craveiro que eu tinha,

Onde uma cepa cansada

Mal dava cravos sem vida,

Nasceu essa acaciazinha

Que depois foi transplantada

E cresceu; dom do meu Deus!,

Aos pés lá da estranha casa

Do largo do cemitério,

Frente aos ciprestes que em frente

Mostram os céus,

Como dedos apontados

De gigantes enterrados...

Quem desespera dos homens,

Se a alma lhe não secou,

A tudo transfere a esperança

Que a humanidade frustrou:

E é capaz de amar as plantas,

De esperar nos animais,

De humanizar coisas brutas,

E ter criancices tais,

Tais e tantas!,

Que será bom ter pudor

De as contar seja a quem for!
O amor, a amizade, e quantos

Mais sonhos de oiro eu sonhara,

Bens deste mundo!, que o mundo Me levara,

De tal maneira me tinham, Ao fugir-me,

Deixando só, nulo, vácuos,

A mim que tanto esperava

Ser fiel,

E forte,

E firme,

Que não era mais que morte

A vida que então vivia,

Autocadáver...
E era então que sucedia

Que em Portalegre, cidade

Do Alto Alentejo, cercada

De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros

Aos pés lá da casa velha

Cheia dos maus e bons cheiros

Das casas que têm história,

Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória

De antigas gentes e traças,

Cheia de sol nas vidraças

E de escuro nos recantos,

Cheia de medo e sossego,

De silêncios e de espantos,

- A minha acácia crescia.
Vento suão!, obrigado...

Pela doce companhia

Que em teu hálito empestado

Sem eu sonhar, me chegara!
E a cada raminho novo

Que a tenra acácia deitava,

Será loucura!..., mas era Uma alegria

Na longa e negra apatia

Daquela miséria extrema

Em que vivia,

E vivera, Como se fizera um poema,

Ou se um filho me nascera.

 

 

 Berta Brás

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