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A bem da Nação

O PLANETA DOS PALHAÇOS - 2

Capitulo 2 – O Encontro

 

Andavam ambos procurando cogumelos para a janta, quando de tanto procurar e procurar, se perderam no meio de uma floresta frondosa e que era tida como sendo cheia de acontecimentos de mistério.

 

A floresta em questão, era localizada num sítio muito remoto, no sopé de uma região montanhosa fronteiriça onde poucos se atreviam a ir, à exceção de um determinado Palhaço Alegre, tido muito aventureiro e destemido, e de uma determinada Palhaça Triste, também considerada corajosa e tida a aventuras.

 

Um ramo partido, num lado e um barulho de susto feminino, no outro, despertaram os sentidos a ambos e logo levantaram as cabeças para ver o que os provocara. Deram os dois a olhar um para o outro.

 

Não sabiam bem o que dizer um para o outro, sobretudo, quando viram serem um e outro, de lados inimigos. Apanhados pela surpresa, a princípio mantiveram o silêncio e um certo ar de espanto.

 

Olharam ambos em redor, para ver se havia mais alguém, mas nada viram para além deles e das árvores que os rodeavam e dos picos das montanhas lá mais para cima, para os lados do horizonte celeste.

 

Talvez porque se desse conta de já estar meia perdida e de talvez até, de já estar por distração, no território dos Palhaços Alegres, lá encheu os pulmões de ar e com um ar triste, disse, - Ó Palhaço Alegre, quem és tu e o que fazes no meu lado da fronteira?

 

Em resposta e ainda meio surpreendido, o Palhaço Alegre respondeu, - Quem está no território alheio és tu!

 

Ficaram nesta teimosia um bom par de horas e chegaram até a jogar um ao outro, os cogumelos que haviam apanhado para os cestos que ambos traziam a tiracolo.

 

Já sem nada nos respectivos cestos e com cogumelos espalhados por todo o lado em redor, lá tiveram o consenso de parar o ato agressivo e de voltar a dialogar.

 

A Palhaça foi a primeira a tomar a iniciativa, dizendo, - Ouve bem! Quem és e o que fazes aqui tão longe da tua Aldeia?

 

Ele respondeu, - Sou o Príncipe Supremo da Côrte dos Palhaços Alegres e vim aqui para apanhar os meus cogumelos favoritos e tu, quem és afinal?

 

Ela retorquiu, - Eu sou a Princesa Herdeira da Côrte dos Palhaços Tristes e um dia serei a Rainha de todo o Reino dos Palhaços Tristes e também vim aqui apanhar os cogumelos mais raros e gostosos do Planeta, mas contudo, ainda não respondeste o que te fez passar para o meu lado da fronteira?

 

Não querendo continuar a teimar de que lado da fronteira estava, ele prosseguiu dizendo, - Minha linda Palhaça Triste, se achas que estou no teu lado da fronteira, pois e apesar de não ver marca nenhuma em lado nenhum que o diga, vou já embora, para não termos que continuar esta teimosia sem graça alguma.

 

Ele interferiu de imediato, - Palhaço Alegre, o melhor será apanhares os meus e os teus cogumelos, ao invés de perderes tempo com palavras, devolvendo após isso os meus, para que eu também vá embora, pois, já me estou a sentir meio perdida e tão logo será noite para voltar para casa. Se não volto antes do anoitecer, decerto que meu Pai, o Rei dos Palhaços Tristes vai mandar os seus principais exércitos à minha procura e se te apanharem perto de mim, não sei o que te poderão fazer!

 

De forma estranha, ele viu-se a apanhar os cogumelos de ambos e a colocá-los em primeiro lugar no cesto dela, para depois apanhar os que restavam para o seu cesto. Findo isso, viu que ela havia se sentado num tronco seco ali perto, observando e esperando até ele apanhar o último.

 

Findo isso, ele dirigiu-se a ela.

 

- Então, Cara Princesa, ainda aqui estás? Pensei que mal te devolvesse o cesto, que te punhas a caminho dos teus, para evitar que eles venham à tua procura e acabem nos achando aos dois.

 

Ela olhou para os olhos dele e disse:

 

- Estava somente a brincar contigo, pois, já passei outras noites nas florestas e em outros lugares recônditos, completamente sozinha e já todos estão habituados que eu regresse sempre sã e salva a casa, pelo que não te deves preocupar com isso. Além disso, já nem eu nem tu teremos tempo para sair daqui antes do anoitecer e tão pouco para chegar a casa a horas, pelo que, o melhor será procurares um abrigo para ambos, onde possamos estar protegidos contra os animais selvagens e as intempéries.

 

Ele ficou calado por uns momentos, em tom de quem buscava resposta, para dizer:

 

- Mas isso não me parece sensato de forma alguma. E se vêem em nossa busca de parte a parte e nos apanham juntos, o que irão fazer connosco?

 

- Para já, não sabem bem onde procurar na floresta e ainda mais à noite. O mais óbvio, será que nos procurem só a partir do amanhecer. Enquanto isso, podemos muito bem passar a noite protegidos e juntos, numa das muitas grutas que por aqui existem, sem termos que nos expor cada um à sua sorte e aos inúmeros perigos que por aqui há à noite -, disse ela.

 

Assim, ele procurou um abrigo e quase de imediato encontrou uma gruta, que parecia ser cômoda para os dois passarem a noite em paz. Buscou alguns gravetos e folhas secas e fez duas fogueiras, uma perto da entrada, onde já tinha colocado algumas espinheiras, para evitar os animais selvagens, e uma outra fogueira, junto ao local onde iriam repousar.

 

Pousaram os respectivos cestos num dos cantos e o melhor que puderam, deitaram-se um junto do outro, e sem saberem bem porquê, talvez pelo frio que fazia na gruta, acabaram por se agarrar um ao outro. Os narizes desproporcionados de um e do outro, não tornava o repouso lá muito confortavel e acabaram por passar a noite meio acordados, quase até ao amanhecer.

 

Mal acabaram de colocar os cestos a tiracolo e de se lavarem ali perto num pequeno regato, começaram a ouvir sons de cães e de gente vinda de ambos os lados da floresta.

 

Ele foi dizendo:

 

- Parece que está vindo gente à minha procura do lado de lá da minha fronteira, pelo que o melhor é nós nos separarmos aqui e irmos cada um na sua direção, pois, também há gente vindo do teu lado e que muito naturalmente, vêm à tua procura.

 

Ela respondeu de forma surpreendente, - Nunca te esquecerei. E só vou fazer o que me pedes, para que tu não sejas feito prisioneiro, se apanhado junto a mim. Hei-de fazer tudo para te ver novamente, mesmo estando os nossos lados em guerra.

 

Ele olhou para ela, mais estupefacto que nunca e quase a gaguejar, mas com semelhante coragem, disse:

 

- Não sei bem o que aconteceu entre nós, mas algo de muito mágico e forte, talvez vindo da floresta, nos modificou durante a noite, e, agora só te tenho a ti na cabeça, pelo que, também farei tudo para te voltar a ver.

 

Ainda antes de partir na direção oposta, ela virou a cabeça para trás e disse:

 

- Daqui a um mês, regressarei aqui para te encontrar, pelo que espero que cá estejas então!

 

Ele concordou:

 

- Assim será da minha parte!

 

Cada um correu o mais que pode, de encontro às vozes que vinham de ambas as partes da fronteira, para evitar que um ou o outro pudessem ser vistos de parte a parte.

 

A guerra continuou e os planos de invasão e de novas batalhas iam-se revezando e renovando. Muitos continuaram a serem feitos prisioneiros, pelo que nada previa que haveria um fim para tal conflito entre Palhaços Tristes e Alegres.

 

(continua)

 

 

Manuel de Sousa

 Luanda - Angola

 

 

 

 

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