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A bem da Nação

O SILÊNCIO NO ALTO DE ANGOLA

 

 

Quatro horas da madrugada, noite ainda escura, aqueles dois amigos que estavam a dormir numa modestíssima pensão de Artur de Paiva(1) acordam para cedo saírem para caçar. Na pequena povoação os justos dormem. Os escassos guardas da noite, embrulhados nos seus cambriquites, continuam encolhidos nas soleiras das portas que lhes foram entregues à guarda, e dormem também.

Noites frias naquela região com mais de 1.000 metros de altitude!

 

Quem se levantara primeiro foram os donos da pensão para preparar o matabicho(2) para os hóspedes: um belo bacalhau cozido com batatas, um bife de golungo(3) – morto pelo hospedeiro havia dois dias – com batatas fritas, tudo isto, alta madrugada, acompanhado de alguns copos do tinto de capacete(4), e um bom e forte café para terminar. Era preciso “abastecer-se em terra quem ia para o mar”, ali, o mato, onde nunca se sabe o que pode acontecer.

 

Saem os caçadores, agasalhados com lãs, blusões espessos, cachecoles, barretes, as óbvias armas, e ainda um suculento farnel para o almoço e até jantar.

 

Jeep aberto, um frio que penetra toda aquela vestimenta, correndo para chegar ao despontar do dia aos locais onde se imagina estar a caça.

 

Uma ténue luz azulada indica que não tarda o sol vai aparecer, e como nos trópicos os dias num instante se enchem de luz, lá desponta o astro num horizonte longínquo ainda de cores frias. Pouco ainda se enxerga; umas árvores aqui e além.

 

O jeep agora anda devagar, e os caçadores vão-se livrando dos agasalhos com a chegada dos raios do sol mais quente que já se apareceu inteiro e esplêndido!

 

Respira-se ainda o ar frio da manhã, os olhos dos caçadores vasculham lentamente a entrada das matas ou dos muxitos(5) onde é suposto encontrar alguma peça de caça.

 

Em pouco tempo já os agasalhos vão todos no banco do carro, os caçadores só de camisa, e por vezes até sem elas, silêncio, mas os animais nesse dia teimam em não aparecer.

 

Dez horas da manhã, sol alto, bem quente, os animais vão esconder-se. A caça e os caçadores param.

 

Escolhem todos a melhor sombra, animais e seus perseguidores, estes desembrulham o farnel, bebem algumas cervejas que permaneçaram geladas, dorme-se, mesmo no chão, algo muito ao longe parecido com uma sesta, e a meio da tarde, volta ao jeep e continua a procura da caça. Por fim um outro pequeno antílope é apanhado.

 

Aos saltos dentro do jeep ninguém sente cansaço, mas quando o sol vai também descansar volta a faina de começar a vestir os agasalhos.

 

O dia esta a chegar ao fim, depressa vai escurecendo, os céus dançam numa panóplia de cores que só o Criador sabe compor e são os mimos que nos dá ao entardecer. Não há como não se extasiar!

 

Por toda a África, como pelos planaltos de Angola, as fogueiras começam a queimar!

 

A lenha a crepitar, elevam-se fagulhas ao alto, cada vez se sobressaindo mais no escuro, erguendo-se a perder de vista, e quando pensamos que já não se vêm, é porque se transformam em estrelas! É o agradecimento daquelas gentes ao espétaculo que, todos os dias, lhes é oferecido.

 

Senta-se o povo à volta da fogueira, a conversa segue devagar para não perturbar aquela quietude, como uma oração, e logo se escutam histórias que vêm também de tão longe, como aqueles pôr-do-sol, transmitindo a velha sabedoria, os contos e lendas ouvidos desde sempre e que se confirmam verdades milenares.

 

Devagar o chefe da senzala, ordena “cuatiça o ngoma”(6) e os tocadores enchem os ares de ritmo e alegria, mas só em plena escuridão porque antes disso o ambiente não está formado, e aproveitam o silêncio para louvarem o Criador pela beleza com que foram acariciados.

 

O ritmo e animação vão aumentando, e todos dançam. É um louvor à vida, simples mas de trabalho, um agradecimento ao Alto por não consentir que a sua alegria de viver seja perturbada.

 

E os caçadores, que ao anoitecer se juntam a este povo, compartilham extasiados tamanha vida, tamanha simplicidade e tamanha pureza na forma com são recebidos.

 

Num instante a caça foi esfolada, limpa e recebe como homenagem as quentes fagulhas que a vão transformar em deliciosa comida.

 

Para todos. As cervejas, ainda geladas também correm soltas.

 

Todos meditam e pedem a Deus que aqueles momentos se eternizem, porque, no dia seguinte, o regresso “à civilização” é uma tristeza.

 

Aqui reina o chefe, o poder, a falta de verdade.

 

Sair duma noite assim é como ser rebaixado do céu a um purgatório.

 

Quem viveu momentos destes não esquece nunca. De vez em quando se o silêncio volta a “falar” e estas memórias afloram, teima também em aflorar um lágrima de saudade.

 

Gostaria que pudessemos todos viver a noite de Natal naquele ambiente, ouvindo o silêncio entrecortado pelo som dos ngomas, mas onde se pode louvar a Deus.

 

1. Hoje a vila de Cuvango, a cerca de 280 km a sul do Huambo.

2. A primeira refeição da manhã, que “virou” verbo: eu matabicho, nós matabichamos, etc.

3. Pequeno antílope – Tragelaphus scriptus – que pesa cerca de 35 a 40 kg.

4. Os melhores vinhos de garrafão eram envados para Angola bem fechados com um “capacete” de gesso. Bom!

5. Bosque. Pequena mata.

6. Toquem os tambores.

 

17-Dez-2011

 

 Francisco Gomes de Amorim

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