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A bem da Nação

FR. JERÓNIMO DE AZAMBUJA

 

 

Disputam-lhe os natais as vilas de Alenquer e de Azambuja mas teríamos que descrer da tradição monástica de os frades se apelidarem com o nome da terra de sua origem - o que equivaleria a duvidar de tanta outra regra tida por douta – que Alenquer perde apesar do testemunho do Padre Bartolomeu Lobo Moura, sobrinho neto do teólogo tridentino.

 

Façamos, pois, jus à tradição monástica e tomemos como boa a sua origem das terras a que Cristóvão Colombo acorrera para dar novas particulares ao nosso Rei D. João II da descoberta das paragens que ficavam antes das ilhas.

 

Teria cerca de 15 anos quando entrou para o convento da Batalha onde professou em 6 de Outubro de 1520. Passado a Lisboa, foi um dos 15 Dominicanos escolhidos para frequentar o Colégio Universitário de S. Tomás donde saiu em 1534 devidamente cursado. Foi em 1537 que se matriculou em Lovaina para aperfeiçoar o grego e o hebraico. Em 1541 é professor no convento de Santarém. Ensinou também em Lisboa e em Évora mas Coimbra nunca o teve. Em 1545 era seu o Priorado da Batalha.

 

Dos 42 teólogos que participaram desde o início no Concílio de Trento[1], três eram portugueses em representação do Rei D. João III e um deles era Fr. Jerónimo de Azambuja[2].

 

Tendo-lhe sido negado o carácter de orador régio, em lugar de destaque em relação aos demais teólogos, Azambuja tomou parte nas actividades conciliares com assiduidade e aí revelou os seus elevados conhecimentos teológicos, devendo salientar-se a sua doutrina sobre a justificação[3]. Os seus desejos de reforma ganharam-lhe as inimizades dos curialistas[4], fazendo levantar no Concílio uma violenta altercação entre o Cardeal Madruzzo (Bispo de Trento) e o Cardeal dei Monte[5], Presidente do Concílio.

 

Ardendo em desejos de regressar ao remanso da sua cela, assistiu impotente, durante longos meses, à lenta agonia do Concílio, até que em 17 de Julho de 1549, seis meses depois da partida do bispo do Porto, munido de carta de recomendação do Cardeal dei Monti, deixou Bolonha, cidade papal, para onde tinha sido entretanto transferido o Concílio devido a ameaças dos exércitos protestantes acercados dos Alpes e assim perturbando a tranquilidade de Trento.

 

Existem ainda hoje nos arquivos vaticanos registos conciliares que declaram a notável erudição bíblica, argúcia dialética e conhecimentos teológicos de Fr. Jerónimo.

 

Eleito Provincial Dominicano, viu-se destituído do cargo por interesses espanhóis que não queriam abdicar da tutela sobre a Província Portuguesa da Ordem dos Pregadores.

 

Recusada a mitra de S. Tomé (símbolo dominicano para os seus Provinciais), «pequena mitra para tão grande cabeça», Fr. Jerónimo foi chamado a Évora pelo Cardeal D. Henrique onde em 2 de Setembro de 1552 lhe foi confiado o tribunal do Santo Ofício.

 

Palácio da Inquisição em Évora

 

Malogradas as negociações com os jesuítas - a quem D. João III queria entregar a Inquisição de Lisboa que, com o passar do tempo, se tinha tornado mais importante que a de Évora - Fr. Jerónimo regressou à capital em Outubro de 1555 e aí continuou a exercer a actividade inquisitorial até 1560, quando, de novo, no capítulo dominicano de 14 de Maio o elegeram prior provincial. Sem contestação espanhola. Foi nessa qualidade que lhe cumpriu a missão de amortalhar D. João III.

 

A tranquilidade dos ânimos é indispensável para garantir o bom andamento da vida conventual e o aproveitamento individual dos que nela tomam parte. Foi isto que Fr. Jerónimo se propôs: fazer reinar a paz na província e a harmonia nos conventos. E visto que a raiz das desavenças, às vezes, era a presença dos frades castelhanos habituados, durante muitos anos, a impor o seu modo de ver, não hesitou em chamá-los à ordem. Estes, vendo-se por assim desfavorecidos, quiseram regressar aos seus conventos de origem, mas uma intervenção da rainha junto do mestre geral obrigou-os a ficar.

 

Mas foi mesmo um desses frades, Fr. João da Cruz, que o definiu como «varon de grande prudência y modéstia, y muy exemplar religioso».

 

Não admira, pois, que a província chorasse a sua morte que veio interromper o seu mandato nos primeiros dias do ano de 1563.

 

E quando se lembrará de personalidade tão interessante o Serviço de Toponímia da Câmara Municipal de Azambuja?

 

Julho de 2013

 

 Henrique Salles da Fonseca

 

BIBLIOGRAFIA:

  • FREI JERÓNIMO DE AZAMBUJA E A SUA ACTIVIDADE INQUISITORIAL - A. A. Martins Marques, in LUSITÂNIA SACRA, pág.193 e seg.
  •  O CONCÍLIO DE TRENTO – José Vaz de Carvalho SJ, in BROTÉRIA, ed. Maio/Junho de 2013, pág. 498 e seg.

[1] Inaugurado em 13 de Dezembro de 1545

[2] Os outros eram Fr. Jorge de Santiago e Fr. Gaspar dos Reis

[3] A "Justificação pela fé", também conhecida como sola fide, é um dos conceitos basilares do luteranismo e de todas as denominações cristãs que advém da Reforma Protestante. Pode-se dizer que esse conceito religioso foi um dos catalisadores da Reforma. Lutero inspirou-se na afirmação do Apóstolo São Paulo de que "o justo viverá pela fé" (Romanos 1:17), contrariando assim a afirmação da Igreja Católica, que defendia que à fé se deviam acrescentar as boas obras a fim de se poder alcançar a salvação.

[4] Os curialistas consideravam que o Papa teria a faculdade de abolir ou modificar qualquer lei canónica ou civil

[5] Futuro Papa Júlio III

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