Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A bem da Nação

A FORTUNA DE GASPAR

 

É a propósito de um artigo

De um professor de Economia

Da Universidade de Colúmbia,

- Ricardo Reis de sua bizarria –

Saído no “A Bem da Nação”

Com muita precisão,

Sobre Victor Gaspar e a sua acção governativa

Como ministro das Finanças sem alternativa,

Na nação portuguesa endividada,

Que procurei em La Fontaine uma fábula

Justificadora do ponto de vista

Que o transforma de besta em bestial

Na opinião geral,

De gente muito assustada

Não fosse o FMI fazer-nos mal

E retirar-nos o capital,

Que uma política económica de dureza comprovada

Mas, ao que parece, única possível,

Tornou imprescindível.

Nós somos as moscas vaidosas e alardeantes,

Gaspar é a formiga trabalhadora e previdente

Que foi em frente

Abrindo os caminhos do bem-estar futuro

Mais modesto e seguro.

 

A Mosca e a Formiga”,

Fábula de La Fontaine colhida em Fedro

E outros seguidores:

 

A Mosca e a Formiga contestavam sobre o seu valor:

 “Ó Júpiter, disse a primeira,

Admite-se que o amor próprio cegue de tal maneira as cabeças,

Que um vil e rastejante animal

À deusa do ar ouse chamar-se igual?

Eu frequento palácios, sento-me às suas mesas:

Se te imolarem um boi

Antes de ti o saborearei,

Enquanto que esta enfezada e miserável

Três dias se alimenta

De um qualquer grãozito imprestável

Que arrastou para o seu buraquito.”

“Mas, minha doçura, diz-me:

Tu instalas-te sobre a cabeça dum Rei,

Dum Imperador ou duma Bela?”

“Com certeza, e beijo um belo seio sempre que quero:

Brinco no seu cabelo,

Realço a brancura natural de uma tez

Com uma “mosca” que reforça a palidez

De uma dama partindo à conquista,

Que não há quem lhe resista.

Depois venha romper-me a cabeça falando em celeiro!”

“Já disse tudo? Replicou-lhe a previdente.

Você frequenta os palácios; mas é aí muito mal vista,

E quanto a saborear primeiro

O que servem perante os Deuses,

Julga que isso valha mais por isso?

Se você entra em toda a parte, o mesmo fazem os profanos.

Sobre a cabeça dos Reis como sobre a dos Asnos

Você vai-se plantar; não vou discordar;

E também sei que duma pronta morte

Esse atrevimento é muitas vezes punido

Sem arrependimento.

Certo sinal, diz você, dá mais beleza.

Não discordo: ele é negro

Como você ou eu.

Admito que se chame Mosca

É razão para que você se ponha

A alardear o seu mérito sem vergonha?

Não se chamam também Moscas aos parasitas?

Tretas!

Deixe pois de manter tão vã linguagem:

Não tenha mais tão altos pensamentos.

As Moscas da corte, vulgo espiões,

São expulsas sem constrangimentos;

Os Moscardos, ou seja “bufos” – da guerra ou da polícia –

São enforcados com perícia,

E você de fome morrerá,

De frio, de inércia, de miséria,

Quando Febo reinar sobre o outro hemisfério.

Então, eu, do fruto do meu trabalho viverei,

Por montes e vales não irei

Expor-me ao vento, à chuva;

Sem melancolia viverei.

Os cuidados que antes tomei

De cuidados me libertarão.

A si lhe ensinarão

O que é uma falsa e uma verdadeira glória.

Adeus, perco o meu tempo: deixe-me trabalhar.

Nem o meu celeiro, nem o meu armário,

Se enchem a palrar. 

 

Também “A Cigarra e a Formiga”

Desenvolve este tema de gente inimiga.

A própria Condessa de Ségur criou uma história

À volta dum Gaspar estudioso

Duro e trabalhador

Que, por ter casado com Mina,

- Rapariguinha com muitos predicados,

Que só se apreciam na infância,

 E mesmo só na de antigamente,

Que agora já ninguém de igual modo a lê ou sente –

Se tornou mais esmoler,

Por amor,

Ele que era tão inteligente

Mas pouco generoso.

O nosso Gaspar também foi isso

- Trabalhador e inteligente

Mas a necessidade tornou-o duro a valer,

Sendo por isso odiado,

Sempre troçado,

Osso duro de roer

Besta na opinião geral.

Mas a Fortuna tornou-o bestial

Espécie de herói,

Assim que se despediu e que se viu

Quanto seria bem pior

Para a nação,

Se ele fosse diferente do que foi

No capítulo da sua acção.

 

 Berta Brás

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2015
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2014
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2013
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2012
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2011
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2010
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2009
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2008
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2007
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2006
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2005
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2004
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D