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A bem da Nação

“Haverá mulher mais bela do que eu?”

 

 

A madrasta da Branca de Neve

Foi uma das que diariamente se revia

No espelho da sua fantasia

Para que este lhe dissesse se havia

Outra mulher mais bela que ela.

E o espelho sempre respondia

Que ela era a mais bela.

Mas a Branca de Neve crescia e um dia

O espelho respondeu que outra havia

Mais bela do que ela.

Furiosamente

A madrasta da Branca de Neve

Agarrou numa maçã envenenada

E deu-lha a comer, inclemente,

Vestida de velhinha doente.

Ela não lera a fábula de Florian

E por isso lhe deu a maçã

Que ficou logo entalada

Na pobre da enteada

Que após adormecer engasgada

Com a maçã envenenada

Foi acordada pelo seu príncipe valente

Felizmente,

O qual nem precisou de lhe bater nas costas

Para a maçã saltar

Pois lhe bastaram as mãos postas

E o seu beijo ardente

Com os sete anõezinhos por perto

A aplaudir.

Mas leiamos a fábula de Florian primeiro,

Que trata de cacos de espelho

E não de espelho inteiro

Como aquele

Em que a madrasta se revia

Sem agonia:

 

«O espelho da verdade»

 

Num belo século de ouro, quando os primeiros humanos

Em meio de uma paz profunda

Viviam dias puros e serenos

A verdade percorria o mundo

Com o seu espelho nas mãos.

Cada um nele se olhava, e o espelho sincero

Traçava a cada um o seu mais secreto anseio

Sem nunca o fazer corar de pejo.

Tempo feliz que pouco durou.

O homem em breve se tornou

Mau e criminoso.

A verdade fugiu para o céu,

Atirando despeitada o seu espelho ao chão.

Partiu-se o pobre espelho. Os seus cacos que ao acaso a queda dispersou

Foram para o vulgo perdidos.

Vários séculos após

Conheceu-se o preço disso: E foi desde então que mais dum sábio se viu

A recolher com cuidado esses cacos,

Por vezes encontrá-los

Mas tão pequeninos

Que ninguém os utiliza.

Ai de nós! O sábio primeiro

Nunca nele se vê inteiro.

 

Custa-me a crer que a gente se reveja

Em espelhos partidos.

Cada um se revê por inteiro

No seu próprio espelho intacto

E se acha contente

Com o que vê e sente.

Quando Portas bateu o pé e decidiu

Que era a altura de se impor,

Fê-lo convencido de que a razão lhe assistia

E por isso ele se ria.

Entretanto os que esperavam

Que o governo caísse,

As mãos esfregavam e gritavam

O que os seus espelhos lhes aconselhavam

Que nem vale a pena repetir

Para não me afligir

Até porque sei

Que eles falam falam falam

Para destruir

Mas calam

Os seus receios do porvir,

Dando, todavia, o seu contributo de pesadelo

Para tudo fazer ruir

E atropelar

Em falsidade.

Felizmente Passos Coelho

Mostra um verdadeiro amor

Pelo seu país, quero bem crer.

É inteiro o seu espelho

Séria a sua verdade.

 

 

 Berta Brás

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