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A bem da Nação

DOSEAR OU NÃO, EIS A QUESTÃO

 

 

É sobre uma questão de inundação

A fábula seguinte de Florian

Com pessoas que até eram das boas

A trabalhar,

E a procriar,

E por isso viviam felizes

Sem muitas chatices

A propiciar cicatrizes,

Amigas dos seus amigos,

Perdoando aos seus inimigos

Como manda a lei cristã.

Mas o sol criador,

Deixou a certa altura de o ser,

Secando os campos sem permitir

Que a chuva viesse acudir,

O que, naturalmente,

Criou a fome e gerou disputas aceradas

Sobre os problemas das desigualdades disparatadas

E outras reivindicações parecidas,

Sempre apetecidas

Pelas populações obstinadas.

Esses cidadãos formaram sindicato,

Ou antes, parlamento,

Para chegar a qualquer decisão de tento.

Como isso não fosse possível,

Uns velhotes meteram o bedelho

E ensinaram a forma de tornar viável

A solução da crise lastimável.

Mas é preferível conhecer o seu conselho

Traduzindo primeiro

A fábula por inteiro,

Pondo ponto final neste adiantamento

Da acção de uma fábula que nada tem de inédita,

E retirando-lhe todo o suspense que nada tem de idílico:

 

«A inundação»

 

Uns lavradores viviam pacíficos e contentes

Numa rica e numerosa aldeia:

Desde o alvorecer partiam para os campos a trabalhar

À noite regressavam a cantar

Ao seio dos seus tranquilos lares;

E a natureza boa e sábia,

Como prémio dos seus trabalhos

Dava-lhes todos os anos

Belos trigos e belos filhos.

Mas todos temos que sofrer, é nosso destino.

Ora aconteceu que num ano,

Num mês em que o louro Febo

Foi a escaldante Sírio visitar,

A Terra, de suco esgotada,

Abrindo por todo o lado o seu seio,

Sob um céu de bronze arquejava sem parar.

Nada de chuva nem de orvalho.

Sobre um solo rachado o grão escurece,

As espigas estão queimadas, as cabeças penduradas

Caem sobre os seus caules, secas.

Tremeu-se com medo à fome

Que nunca apetece;

A comuna reúne-se. À pressa delibera-se;

E cada um, como de ordinário,

Fala muito e não diz nada.

Enfim, alguns velhos, gente de senso e de espírito,

Meteram o bedelho

Propondo sábio conselho:

“Meus amigos, disseram, daqui podereis avistar

Aquele monte pouco distante da aldeia;

Ali se encontra um grande lago, imenso reservatório

Das águas subterrâneas que para ali fazem passagem.

Vão sangrar esse lago; mas saibam dosear

As sangrias em pequena quantidade,

A fim de que, à vossa vontade,

Possais dirigir as águas benfazejas

Às terras assim banhadas

Para serem com proveito trabalhadas.

E quando for preciso, as deteremos,

Tomai bem atenção, ao menos…” “Sim, sim, corramos,

Exclama logo a assembleia

Da aldeia.

E eis mil jovens carregados

De enxadas, picaretas, e outros instrumentos

Que voam para o lago: À volta das margens

A terra é trabalhada.

Ao mesmo tempo são cavados

Cem fundos buracos

Cada operário se encarrega duma porção do terreno:

Coragem! Vamos! Nada de descanso!

A abertura nunca pode ser bastante larga.

Depressa foi feito. Antes da noite as águas,

Caindo com todo o seu peso sobre o dique enfraquecido,

De todo o lado rolam em alterosas ondas.

Êxtases e manifestações da turba pasmada,

Que se admira nos seus trabalhos.

No dia seguinte de manhã não foi a mesma coisa:

Vêem-se flutuar os trigos num oceano de água;

Para sair da aldeia foi preciso um barco;

Tudo está perdido, afogado. A dor é extrema.

Atiram-se contra os velhos: “foram vocês, assim disseram,

Que a nossa seara destruíram;

O vosso maldito conselho…” “era salutar,

Respondeu um deles, mas o que acabam de fazer

Está muito longe do conselho e da razão.

Nós queríamos um pouco de água, vocês abrem as comportas;

O excesso de um grande bem torna-se num mal maior;

O sensato rega docemente,

O insensato inunda imediatamente”.

 

 

 

 

Desde o 25 de Abril também nós

Andamos de comportas soltas a alagar

Que não há quem as venha segurar

Para deter

Tanta inundação de abismar.

E toda a gente a opinar, a opinar,

Sem a nenhum resultado chegar

E pelo contrário a contribuir

Para mais inundar,

Mas com todos a querer

Tomar nas mãos o leme da barcaça

Que mesmo desconjuntada não há quem a não apeteça

E logo substituir

Os que se esforçam por a bom porto a conduzir…

Razão tinha o António Nobre

Para aconselhar

O seu João a dormir:

“Não acordes para o mundo

Pode afogar-te a maré:

Tu mal sabes o que isto é…

 

Na Vida que a Dor povoa

Há só uma coisa boa,

Que é dormir, dormir, dormir…

Tudo vai sem se sentir…”

 

Muita é a nossa aflição todavia:

Com a saída do ministro Gaspar

Que tem razão em não querer aturar

Tanta provocação,

Veremos se a rebentação vai aumentar

Com tanta cainçada a ladrar, a ganir, a estoirar

De alegria…

 

 

 Berta Brás

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