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A bem da Nação

INDIGNADO!

 Indignados: Organização diz que 100 mil participaram no protesto

Estou indignado!

 

Por isso me manifesto. Estou indignado porque o sistema devia funcionar bem e não funciona; porque os políticos deviam dizer a verdade e não dizem; porque estou a sofrer e não quero. Por isso estou aqui.

 

São quase seis da manhã e toda a gente dorme no acampamento da manifestação. Mas eu não consigo dormir. Por isso me vim sentar no passeio, meio tapado pelo meu cartaz. Não consigo dormir porque estou indignado. Indignado porque a crise cai sempre sobre os mesmos, porque as promessas são sempre falsas, porque os ricos, bancários, políticos conseguem sempre escapar e é o povo que sofre pelos erros deles. O pior de tudo é a falta de esperança. Este sistema não dá esperança aos jovens.

 

A noite está fria e o cartaz não foi feito para aconchegar. Este já não é aquele que trouxe de casa. Quando cá cheguei tinha uma folha de cartolina que dizia "Nós somos os 99%", mas a rapariga da tenda ao lado perguntou a rir: "99%? Então porque somos tão poucos?". Eu disse-lhe que havia manifestações destas por todo o mundo. No protesto mundial de 15 de Outubro foram quase 1000 cidades em mais de 80 países, e está outra marcada para 24 de Novembro. Ela só sorriu mas eu fiquei a pensar. Afinal os manifestantes não chegaram a 1% da população do país. Por isso mudei o cartaz, que agora diz: "Este é o princípio do fim do capitalismo".

 

O problema afinal é mudar o sistema. Aquilo que as manifestações nos países árabes conseguiram, derrubando opressão e ditadores, temos de fazer aqui. A nossa opressão é o dinheiro e oportunismo, os ditadores são banqueiros e empresários. Quando viu o novo cartaz a Bárbara (já lhe descobri o nome) abanou a cabeça e perguntou: "E depois do fim, começa o quê?" Não respondi, e mais uma vez pensei. Afinal qual é a solução para a situação? Os jovens não têm esperança, mas os outros também não. Os ricos têm medo, os políticos andam à nora e nós protestamos, mas ninguém tem solução. Dizemos que a manifestação só acaba quando vencermos. Mas que é vencer?

 

Puxei o saco-cama para a cabeça e repeti que esta era uma tradição de família. Na véspera contara à Bárbara que há gerações de indignados na minha casa. O meu avô era comunista e acreditava no Estaline e no sistema soviético. Ficou indignado com o que disseram dele no XX congresso, e ainda mais com a invasão de Praga. Acabou por perder a esperança e sair do partido, desiludido das falsas promessas e enganos repetidos. O meu outro avô era católico. Andou deslumbrado com o Concílio Vaticano II e as reformas da Igreja. Mas depois também ele se indignou com a falta de progresso em aspectos que considerava essenciais. Acabou por perder a esperança e abandonar a fé, como um "vencido do catolicismo". Os meus pais, jovens idealistas no 25 de Abril, viveram a revolução a sério, mas também eles acabaram indignados, desenganados e sem esperança com o que aconteceu depois. Esta manifestação contra a crise mundial é a minha participação nessa longa contestação.

 

De repente senti um calafrio pelas costas. E se o problema não é o mundo ou o sistema, mas nós? E se a razão da nossa insatisfação não vem da realidade, que é o que sempre foi, sempre difícil e exigente? E se o mal é que somos uma família de insatisfeitos, que nunca soube dar o valor ao que têm, exigindo sempre mais? É verdade que estamos em crise, mas afinal quando é que não as houve? Porque, tudo considerado, temos muito a agradecer. Estamos muito melhor do que no tempo dos meus avós. Lembro-me como ri ao receber há dias uma mensagem electrónica demonstrando como o país está pior que no tempo do Salazar, sem que o autor notasse que o simples uso da Internet refutava a tese.

 

O Sol começa a nascer por entre as árvores e prédios. Está uma manhã linda. É bom sorver o ar fresco. No meio dos protestos é difícil dar valor a estas coisas. Quem quer mais do que tem nunca aproveita o que há. E a vida tem tantas coisas excelentes. Como a Bárbara, que ressona serenamente na tenda do lado. Nela, ao menos, tenho alguma esperança.

 

14 de Novembro de 2011

 

  João César das Neves

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