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A bem da Nação

UM AMERICANO EM LISBOA

 

 

Talvez uma Europa da variedade faça mais sentido do que a Europa sempre mais integrada.

 

Marc F. Plattner

Marc F. Plattner, vice-presidente do norte-americano National Endowment for Democracy e co-director, com Larry Diamond, do Journal of Democracy, esteve em Lisboa (...) leccionando um seminário no novo programa de mestrado em Governance, Leadership and Democracy Studies. Foi uma experiência muito estimulante, a mais do que um título.

 

A primeira parte do seminário foi dedicada à Teoria Política da democracia. Marc passou em revista vários autores, com particular incidência em Hobbes, Locke, os Federalist Papers americanos e Tocqueville. Discutiu as diferenças entre liberalismo e democracia e enfatizou a gradual evolução dos regimes liberais para regimes liberais-democráticos. Acrescentou um alerta actual contra os sonhos utópicos de regimes liberais sem democracia. Isso simplesmente não existe, explicou Marc.

 

Os liberais, que querem um Governo mais pequeno, simplesmente têm de convencer os eleitores de que essa é a melhor opção, como fizeram Ronald Reagan e Margaret Thatcher. Umas vezes ganharão, como foi o caso de Reagan e Thatcher, outras vezes perderão, como será hoje o caso dos seus seguidores. Mas ganhar e depois perder é simplesmente a regra da vida política livre desde a Revolução Inglesa de 1688 e da Revolução Americana de 1776.

 

Este tema da alternância entre propostas políticas rivais levou Plattner à presente situação na União Europeia. Sublinhando que não conhece a situação europeia em profundidade, não deixou de exprimir a crescente preocupação sentida na América relativamente à Europa e, em especial, à zona euro.

 

Essa preocupação pode ser expressa da seguinte maneira: em vez da rivalidade normal entre propostas políticas dentro de cada país europeu, assiste-se hoje a uma rivalidade agressiva crescente entre países do Sul e do Norte da zona euro. A linguagem da luta de classes está a reaparecer na zona euro. Mas o mais preocupante é que ela reaparece associada à luta entre nações, estando a Alemanha a tornar-se o foco de acusações alarmantes.

 

Marc Plattner interrogou-se sobre a origem desta situação. Observou que o euro tinha sido criado com a nobre intenção de reforçar a convergência entre os países-membros e de fortalecer a União Europeia. Mas os resultados até agora alcançados parecem em tudo contrários àquelas intenções. As clivagens económicas na zona euro acentuaram-se. A animosidade entre o Sul e o Norte atingiu níveis sem precedentes. Partidos extremistas crescem em vários países, tanto do Sul como do Norte, enquanto os partidos democráticos, do centro-esquerda ou do centro-direita, sofrem erosão preocupante.

 

Para um americano, esta situação é surpreendente e dificilmente explicável. A América resultou da federação de 13 colónias separadas.

 

A pergunta natural, para um americano, é por que não podem os europeus fazer algo semelhante, ou seja, uma federação europeia.

 

Mas, ao observar o acréscimo das tensões na zona euro, os americanos tendem a pensar duas vezes.

 

Talvez a excessiva integração dos países europeus possa acabar por produzir efeitos contrários aos desejados. É nesse ponto que os americanos voltam a olhar com mais atenção para a posição inglesa – que inicialmente lhes parecia simplesmente excêntrica, como é, aliás, costume nas atitudes dos ingleses.

 

Talvez, afinal de contas, a relutância britânica em adoptar medidas mais integradoras acabe por fazer algum sentido.

 

Talvez as diferentes nações europeias tenham identidades históricas mais arreigadas do que as 13 colónias americanas originais. Talvez os seus eleitorados não estejam dispostos a aceitar soluções uniformes para situações e tradições variadas. Talvez seja preferível deixar grupos de países adoptar umas soluções, ao mesmo tempo que outros grupos adoptam soluções diferentes, que agradem mais aos seus eleitorados. Talvez, por outras palavras, uma Europa da variedade faça mais sentido do que a Europa sempre mais integrada (ever closer Union).

 

As interrogações deste americano em Lisboa podem constituir um estimulante ponto de partida para a reflexão entre os europeus. Gradualmente, essa reflexão está a chegar até nós. Talvez ela seja preferível à guerra de acusações mútuas que vimos penosamente a observar no nosso país.

 

 João Carlos Espada

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