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A bem da Nação

«UNIDADE» ISLÂMICA

 

 

O Islão sunita procura seguir os costumes praticados pelo Profeta, designados pelo termo sunnah, que se encontram compilados e preservados nos hadiths (a tradição), que consistem nas narrativas daquilo que o Profeta disse e fez.

 

Embora a diversidade entre sunitas seja considerável, de facto partilham pontos em comum que os diferenciam de outros muçulmanos, como os xiitas.

 

(...) Os ismaelitas pertencem à corrente xiita do Islão embora se distingam da sua versão maioritária, o xiismo dos doze imãs.

 

In “«Bangla masdjid»: Islão e bengalidade entre os bangladeshianos em Lisboa”, José Mapril, ANÁLISE SOCIAL, vol. XXXIX, Inverno de 2005, pág. 851 e seg.

 

 

Esta citação constava de uma nota de pé de página no texto principal relativo à Mesquita bangladeshiana do Martim Moniz, em Lisboa.

 

Por esse artigo se fica a saber que a universalidade sunita tem muitas particularidades de índole regional e até nacional. Por exemplo, os bangladeshianos residentes em Lisboa fizeram a sua «Masdjid» (Mesquita) onde as orações são feitas em árabe mas em que os sermões são em língua bengali o que leva os crentes de outras línguas a abandonar o templo quando cessa a língua comum. Mais: há ritos típicos do Bangladesh que não são aceites por crentes sunitas de outras naturalidades.

 

Já na Mesquita Central de Lisboa parece que se usa a língua árabe tanto nas orações como nos sermões (a confirmar pois não fiquei com a certeza da qualidade da informação que obtive) pelo que quem não domine essa língua se sente perdido quando as orações cessam e se entra em matérias mais profanas tais como todas as relativas à moral, à ética, etc.

 

 

SUNISMO

 

Depois da morte de Maomé em 632, os ansar (cidadãos de Medina que ajudaram Maomé) debateram qual deles deveria suceder ao Profeta na gestão dos assuntos dos muçulmanos e decidiram apoiar Abu Bakr que se tornaria assim o primeiro califa Rasul Allah (sucessor do mensageiro de Alá).

 

A este Califado chama-se Rashidun, também conhecido como Califado bem guiado ou Califado Ortodoxo e formou um império árabe islâmico que durou até 661.

 

Foi governado pelos primeiros quatro califas conhecidos por "califas bem guiados". O califado foi fundado pelo sogro de Maomé, Abu Bakr, quando Maomé morreu. No seu auge, os territórios do califado incluíam a península Arábica, Norte de África, Levante, Pérsia, parte da Ásia Central, do Cáucaso e da Anatólia, além de diversas ilhas mediterrânicas, como Chipre, Rodes, Creta e parte da Sicília, o que fez dele um dos maiores impérios da História.

 

Teologicamente, os sunitas baseiam-se no Corão e na Suna (as Tradições do Profeta) em conformidade com os livros de hadith. As colecções hadith de Sahih Bukhari e Sahih Muslim são consideradas pelos sunitas como as mais importantes. Para além destes dois livros, os sunitas reconhecem outros quatro que consideram de autenticidade credível (apesar de não tão alta como os dois primeiros). Todos juntos, constituem os chamados "Seis Livros" ou também referenciados como Kutubi-Sittah.

 

 

XIISMO

 

Os xiitas consideram Ali, o genro e primo do Profeta Maomé, como o seu sucessor legítimo e consideram ilegítimos os califas sunitas que assumiram a liderança da comunidade muçulmana após a morte de Maomé.

 

E porquê?

 

Porque depois da morte do Profeta, em 632, muitos acreditavam que Maomé escolhera o seu genro e primo Ali ibn Abu Talib como herdeiro e sucessor. Logo após o falecimento, a escolha do novo califa fora organizada pelos cidadãos de Medina mas, enquanto Ali e demais família aprontavam o enterro de Maomé, alguns sahaba, companheiros do Profeta, elegeram Abu Bakr.

 

Antes de morrer, Abu Bakr designou Umar como sucessor, que foi assassinado em 644. Seguiu-se-lhe Uthman, da dinastia omíada, que ocupou o califado até 656, ano em que foi assassinado. Finalmente, Ali assumiu o poder.

 

Com a morte de Ali, este foi sucedido por seu filho Hassan que foi obrigado a renunciar em prol de Muáwiya que subornara os seus apoiantes e corrompera o seu governo.

 

A divisão entre sunitas e xiitas nasce, pois, da questão sucessória.

 

O Xiismo contemporâneo subdivide-se em três ramos principais: os xiitas dos Doze Imãs, os ismaelitas e os zaiditas. Todos estes grupos estão de acordo em relação à legitimidade dos quatro primeiros imãs. Porém, discordam em relação ao quinto: a maioria dos xiitas acredita que o neto de Hussein, Muhammad al-Baquir era o legítimo, enquanto que outros seguem o irmão de al-Baquir, Zayd, sendo por isso conhecidos como zaiditas. O xiismo zaidita (ou dos partidários do quinto imã) foi sempre minoritário e encontra-se hoje praticamente limitado ao Iémen.

 

De acordo com os xiitas dos Doze Imãs, os doze descendentes de Ali, detêm um estatuto especial: inferiores ao Profeta mas superiores ao comum dos mortais, são vistos como sucessores directos corporais e espirituais do Profeta, são infalíveis, inspirados divinamente e escolhidos por Deus.

 

Os xiitas dos Doze Imãs acreditam que Muhammad al-Mahdi se encontra escondido e que regressará no fim do mundo. Este Imã oculto é capaz de enviar mensagens aos fiéis. Alguns xiitas iranianos acreditavam que o falecido Aiatolá Khomeini teria recebido inspiração do 12º e último Imã.

 

Os crentes divergem quanto ao que irá acontecer ao último Imã quando regressar. Acredita-se normalmente que o último Imã será acompanhado pelo profeta Jesus e que irá revelar a mensagem do Islão à humanidade. No Islão xiita é obrigação de cada muçulmano seguir um Marja vivo (alta autoridade, grande aiatolá, com a competência de emitir decisões legais no contexto da Sharia para fiéis e clérigos menores). Actualmente, há vários Marjas xiitas vivos como por exemplo o Aiatolá Khamenei, o Aiatolá Ali al-Sistani, o Aiatolá Fazil Linkarani, o Aiatolá Sadiq Sherazi, o Aiatolá Fadlullah, etc.

 

 

ISMAELISMO

 

O Ismaelismo é um ramo do Xiismo. Os adeptos do ismaelismo (ismaelitas) são também denominados como septimânicos por só reconhecerem os sete primeiros imãs do Islão xiita.

 

Os ismaelitas acreditam num único Deus e no Profeta Maomé como mensageiro divino. Partilham com os outros xiitas a crença que Ali foi nomeado por Maomé para liderar a comunidade muçulmana devido à sua capacidade para interpretar a mensagem de Deus, dom que foi transmitido aos seus descendentes. Contudo, ao contrário dos outros xiitas, os ismaelitas seguem um imã vivo, o qual é denominado como Hazir Iman. Os nizaritas têm como seu imã o Aga Khan.

 

Os Nizaris são os fiéis do ismaelismo nizari, um caminho do islamismo xiita que enfatiza a justiça social, o pluralismo e a razão humana dentro de uma tradição mística do Islão. Os nizaris são o segundo maior grupo de xiitas e são a maioria dos ismaelitas. Há um número estimado de 15 milhões de ismaelitas vivendo em mais de 25 países e territórios.

 

Os ensinamentos dos nizaris afirmam o testemunho islâmico da chahada (profissão de Fé dos muçulmanos) de que "não existe nenhum outro Deus senão Alá e Maomé é o Seu Profeta". Como todos os xiitas, os nizaris acreditam que o sobrinho de Maomé, Ali, foi seleccionado por um decreto divino para suceder ao Profeta como imã (líder espiritual) da comunidade muçulmana. A instituição do "imanato" prossegue numa linha contínua hereditária através de Ali e de Fátima, a filha de Maomé, até à actualidade. O imã actual, o príncipe Xá Karim al-Husayni, dito Aga Khan IV, é o 49º imã nizari.

 

O pensamento ismaelita apresenta uma visão cíclica, desenrolando-se a história ao longo de sete eras. Cada uma destas eras é iniciada por um Profeta que traz consigo uma escritura sagrada; cada Profeta é acompanhado por um companheiro silencioso que revela os aspectos esotéricos da escritura. Os seis primeiros ciclos estiveram associados aos profetas Adão, Noé, Abraão, Moisés, Jesus e Maomé.

 

O companheiro silencioso de Maomé foi Ismael, que regressará no futuro para ser o Profeta do sétimo ciclo. Este sétimo ciclo implicará o fim do mundo. Até esse momento o conhecimento oculto deve ser preservado em segredo e revelado apenas a iniciados.

 

 

WAHHABISMO

 

O Wahhabismo é um movimento religioso ultra-conservador sunita que teve a sua origem na Arábia em meados do século XVIII e foi instituído por Muhammad bin Abd al Wahhab.

 

O ambiente político e cultural da Arábia Saudita contemporânea é influenciado por este movimento e tem também forte influência no Kuwait e no Qatar.

 

De acordo com os resgates religiosos feitos por al Wahhab, um muçulmano deve fazer bayah (juramento de fidelidade) ao governante muçulmano durante toda a vida para assegurar a redenção depois da morte. O governante deve jurar fidelidade ao seu povo durante toda a sua governação a qual deve cumprir a Sharia (jurisprudência) islâmica. Sendo assim, o objectivo deste movimento é o de que o povo e o governante exerçam a Sharia assegurando que o povo conheça as leis divinas.

 

O rei Mohammed ibn Saud transformou o seu reduto, Ad Diriyah, num centro de estudos religiosos que colocou sob a orientação de al Wahhab, dali enviando milhares de fiéis com conhecimento dos princípios fundamentais da religião para toda a Arábia, Golfo Arábico, Síria e Mesopotâmia a fim de fazerem o proselitismo do wahhabismo.

 

Mesmo após o vice-rei do Egipto Mohammed Ali Pasha ter esmagado a autoridade política wahhabita e em 1818 ter destruído Ad Diriyah, as novas práticas permaneceram firmemente implantadas nos diversos locais onde tinham estado os mensageiros da Doutrina Wahhabita. Em 1902, a família de Al Saud regressou ao poder com a captura de Riade por Abdul Aziz Ibn Saud, tornando-se o Wahhabismo a doutrina religiosa oficial do país.

 

A mensagem básica de al Wahhab consiste na afirmação dos princípios básicos do monoteísmo, baseados na Chahada (testemunho de fé) e na unicidade essencial de Alá (tawhid), ou seja, os princípios fundamentais do monoteísmo contidos no Corão.

 

Al Wahhab centrou-se na tawhid por oposição ao shirk (politeísmo), definido como um acto de associar qualquer pessoa ou objecto a poderes que devem ser atribuídos somente a Alá.

 

Partindo destes princípios, certos festivais religiosos foram proibidos (inclusive a comemoração do aniversário do Profeta Maomé), velórios xiitas e rituais sufis. No início do século XIX, os wahhabitas destruíram túmulos num cemitério em Medina onde se encontravam sepultados homens considerados santos pelos muçulmanos daquela época e que era um local de oferendas e preces para os supostos homens santos (adorados como divindades).

 

Os wahhabitas só aceitam o Corão e a Sunnah do profeta Maomé como princípios e ideologia.

 

Pela sua exclusiva interpretação do Corão e da Sunnah, a doutrina wahhabita anulou todas as interpretações que as escolas de jurisprudência islâmica desenvolveram durante séculos de estudo para modelar a confusa e conflituante série de revelações enviadas no século VII por Deus a Maomé para aqueles tempos difíceis, interpretações estas que modelaram um modo de vida teocrático harmonioso e civilizado. Pela sua leitura selectiva das passagens do Corão que permitem perseguir e matar sem piedade, o wahhabismo deixou efectivamente de lado a mensagem corânica central de caridade, tolerância, perdão e piedade.

 

Al Wahhab dizia que havia três objectivos para o governo islâmico e sua sociedade: "crer em Allah, ordenar o bom comportamento e proibir o ilícito." Com isto, foram criados os "mutaween", os quais são incentivadores morais da sociedade também servindo como missionários e como "ministros da religião" que pregam nas Mesquitas às sextas-feiras.

 

Além de obrigarem os homens à prática da oração pública, os "mutaween" também são responsáveis pelo encerramento das lojas nos horários das orações, pela busca das infracções da moralidade pública como drogas (incluindo o álcool), música, dança, cabelo longo para os homens ou cabeças descobertas para as mulheres e pela forma de vestir.

 

No início do século XX, sob a liderança de Al Saud, o crescimento do movimento wahhabita foi decisivo para se criar uma união entre as tribos e províncias da Arábia resultando na legitimação do Estado da Arábia Saudita. Contudo, em 1990 a liderança saudita cortou a sua tradicional identidade ao legado wahhabita e os descendentes de al Wahhab não continuaram a ocupar os mais elevados postos na hierarquia religiosa do reino. A influência wahhabita na Arábia Saudita, no entanto, permanece materializada nas roupas, no comportamento e na oração pública.

 

O proselitismo (leia-se «financiamento») saudita da causa wahhabita foi o responsável pelo sucesso da "Irmandade Muçulmana".

Noto com alguma relevância que o Wahhabismo foi detectado em Portugal no início da década de 90 do século passado.

 

CONCLUSÕES

 

1. A unidade islâmica é altamente controversa mas as maiores divergências nasceram por razões históricas, mais do que por argumentos teológicos;

 

2. As razões teológicas imperam, sim, no que distingue o Wahhabismo de todas as demais vertentes do Islamismo;

 

3. O Wahhabismo distingue pelo radicalismo (potencialmente violento) a nossa muito erudita herança islâmica da actual Segunda Presença Islâmica em Portugal.

 

 

Lisboa, Junho de 2013

 

 Henrique Salles da Fonseca

 

BIBLIOGRAFIA:

 

  • Wikipédia
  • ANÁLISE SOCIAL, vol. XXXIX, Inverno de 2005

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