Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A bem da Nação

ATENAS E ESPARTA

Em Lisboa, a honra toponímica é póstuma. A antiga “Casa dos 24” é capaz de ter homenageado em vida algum ilustre cidadão que antes do passamento tenha assumido atitudes menos dignas da atribuição do seu nome a rua ou praça da cidade deixando a edilidade sem palavras para explicar uma distinção que assim se tenha revelado prematura.

 

A atribuição do Prémio Nobel em matérias não muito exactas também devia ser só a título póstumo.

 

O que dizer daquele laureado com o Nobel da Paz que regressa ao terrorismo? O que dizer daquele escritor que após uma obra notável, passa a escrever senilidades? O que dizer daquele economista que depois de laureado se assume como bandeira política, cegando no dogmatismo programático partidário e abandonando a racionalidade científica?

 

Seria prudente que a Academia sueca seguisse o exemplo da antiga “Casa dos 24” de Lisboa.

 

A reforma fiscal do Presidente Bush II tem levantado celeumas muito grandes dentro e fora dos EUA e o realce dos órgãos de comunicação vai sobretudo para os críticos dando até a impressão de que tudo o que a actual Administração americana faz é errado. Será?

 

Recordemos que o grande inspirador do actual Presidente americano tem sido Ronald Reagan cuja Guerra das Estrelas levou a União Soviética à exaustão, cujas intervenções militares mais ou menos directas ou mais ou menos disfarçadas nas Caraíbas e na América Central impediram a constituição de novos regimes políticos hostis à América bem junto do seu flanco sul, que não hesitou em criar um défice orçamental se esse fosse o preço a pagar pela passagem dos EUA à posição de potência hegemónica planetária.

 

Serão esses motivos suficientes para um americano dizer mal do ex-actor?

 

Sim, são, se essas políticas não foram desenvolvidas pelo partido político dos críticos. E como esses factos históricos estão a inspirar as políticas do actual Presidente, tudo serve para o denegrir.

 

E serão esses motivos suficientes para um não americano dizer mal de Bush II?

 

Sim, são, sobretudo se o crítico for simpatizante da ex-União Soviética ou se estiver do lado perdedor na guerra euro-americana travada em 2003 no solo iraquiano a pretexto das maiores jazidas de petróleo que actualmente se conhecem. Os árabes têm o azar de viver sobre riquezas muito disputadas e de se verem embrulhados num torvelinho que impede a manutenção do medievalismo em que tantos emires e “mulahs” os querem manter.

 

Eis os ingredientes para que haja um ambiente tão negativo à volta de Bush II mas que isso não nos desvie da reforma tributária americana, tema que aqui mais nos interessa.

 

Num artigo há pouco tempo publicado em Portugal e fazendo-se eco de uma corrente muito divulgada por um e outro laureado Nobel, Paul Krugman resume aquela reforma “em cortes de impostos para os ricos”. Ora, a crítica resulta da ideia de que os impostos sobre o rendimento devem ser progressivos. Mas devem, efectivamente?

 

Não é por ser costume dizer-se isso que vamos simplesmente aceitar o princípio como “un fait accompli” e deixar de raciocinar por nós próprios.

 

Por que é que os ricos hão-de pagar muito mais do que os remediados em vez de pagarem apenas mais se a taxa for igual para todos? Porque os remediados têm inveja dos ricos e sendo numericamente superiores assim decidem na democracia? Porque os Estados se tornaram sorvedouros de dinheiro pelo desenvolvimento daquilo a que os teóricos chamam políticas redistributivas e muitos práticos chamam esbanjamento?

 

Qual a fundamentação lógica dos impostos directos?

 

Por que não apenas taxas por serviços efectivamente prestados pelo Estado e impostos indirectos sobre o consumo? Eis questões que se devem colocar eternamente enquanto os Estados não mostrarem que são capazes de se gerir a si próprios e que o sorvedouro em que se transformaram não cresce até ao limite dos céus.

 

Referimo-nos a um axioma quando dizemos que o grau de satisfação das classes mais endinheiradas é superior ao das menos abonadas e, em contrapartida, a propensão ao consumo é maior nas famílias menos endinheiradas do que nas mais abastadas. Ou seja, se as famílias com menores rendimentos tiverem alguma hipótese de poupança, essa folga aplica-se muito provavelmente em bens de consumo; se as famílias de elevados rendimentos perspectivarem alguma poupança – por exemplo, pela redução da carga fiscal, – essa margem poderá transformar-se em investimento pois a sua propensão ao consumo é menor.

 

Se a economia americana necessita de relançar o investimento e de se recapitalizar depois do estoiro da bolha no final da era Clinton, que erro há na política fiscal de Bush II?

 

Aportuguesemos a questão.

 

Quando por cá alargamos o cinto, logo nos endividamos até aos limites do razoável ou para além dele; a balança comercial degrada-se imediatamente; a banca endivida-se sobre o exterior; os centros nacionais de decisão correm riscos de sobrevivência; em época de pagamento das dívidas o consumo serena, reza-se muito para que as taxas de juro baixem e os mercados de exportação animem, discute-se muito sobre se o nosso modelo de desenvolvimento baseado no consumo interno é sustentável e se os incentivos ao investimento são eficazes.

 

Então, por cá também parece ser saudável dar incentivos às famílias para susterem o endividamento e propiciar o investimento de modo a que a produção possa satisfazer melhor o consumo sem termos que recorrer tanto às importações.

 

Ora se a poupança popular corresponde a consumo e a poupança das elites endinheiradas corresponde a investimentos, optemos nós também por fazer como Bush II relançando a economia com base “em cortes de impostos para os ricos”.

 

É claro que devemos dar ao “non sense” o lugar que lhe compete mas convenhamos que é sempre útil haver alguma descodificação de silogismos gastos sem medo de defender ideias menos canónicas ou apenas fora de moda.

 

Os Estados providência tutelam tudo e todos de um modo tão exaustivo que já não há dinheiro que os vede com os seus cidadãos a serem extorquidos até ao limite ou mesmo para além dele mas tolerando essa tortura por lhes restar ainda a esperança de que, no limite, esse Estado super-protector e super-exigente os sustentará; os regimes menos protectores são acusados de egoísmo, não solidários e até de associais.

 

Na Antiguidade, Atenas era a cidade liberal e concebeu a democracia, Esparta era tutelar sobre todos os seus cidadãos. Esparta afundou-se na rigidez dos seus princípios e desapareceu da vida real; Atenas não.

 

Sim, talvez fosse boa ideia conceder certos prémios Nobel apenas a título póstumo.

 

Lisboa, Abril de 2004

 

 Henrique Salles da Fonseca

 

Publicado em 14 de Maio de 2004 no Suplemento de Economia de "O Independente"

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D