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A bem da Nação

D. SEBASTIÃO – O REI E O HOMEM

 

 

Poucas épocas têm merecido tanto interesse histórico e, apesar da vasta documentação, continua o debate em torno da figura régia que ficou a simbolizar a perda da independência. O exame tem forçosamente de centrar-se no monarca que foi o motor dos acontecimentos, embora para esse estudo não se disponha ainda da indispensável ferramenta mental, que deve incidir na captação dos impulsos e motivações da personagem. Donde resulta a natural tendência para explicar D. Sebastião à luz do seu governo, por ser tarefa difícil ajuizar do homem que ele foi como produto de uma educação e como espelho de um ambiente político e religioso. Cremos que a história sebástica, a erguer um dia, terá de ser mais psicológica que documental.

 

As cartas do monarca fornecem bons elementos para o traçado da sua caracterologia, revelando um texto confuso, com repetição da matéria narrativa e quase nunca respondendo às questões postas. Dir-se-ia que essas cartas buscam encobrir o pensamento velado que as ditou. Veja-se, por exemplo, o epistolário dirigido a Filipe II pelos anos de 1573 a 1575 e que permite desfibrar o carácter régio: um pensamento nebuloso, um sentido de cautela para não desvendar as suas intenções e uma tendência para protelar a resolução dos assuntos. No campo das relações pessoais revelou D. Sebastião uma frieza afectiva que explica a relutância pelo casamento, se para tal não contribuíram a sua estranha doença e a actuação do rei espanhol que procurou impedir a união do sobrinho fora do quadro ibérico.

 

Não surtiu o projecto com Margarida de Valois, pela condição que impôs a Carlos IX, rei de França, de entrar na liga contra o Turco; mas quando as circunstâncias evoluíram em sentido favorável, a diplomacia filipina incumbiu-se de anular o enlace. Não resultou, por desinteresse do noivo, em 1563 [D. Sebastião, rei, tinha então 9 anos, JR] o plano do consórcio com a arquiduquesa Isabel de Áustria, o mesmo sucedendo, dez anos mais tarde, com Maximiliana, filha do duque da Baviera, que o monarca não aceitou com o pretexto de escolher D. Isabel Clara Eugénia, filha de Filipe II. Nos fins de 1576, quando do encontro de Guadalupe, voltou a sugerir o consórcio com a prima, mas o rei de Espanha pôs a condição de o projecto apenas ter andamento depois da expedição a Marrocos. Atendendo a que carecia de auxílio militar para a jornada, aceita-se quem o pensamento de D. Sebastião visava mais o êxito da sua política do que a escolha da noiva.

 

Não é preciso justificar a sua repulsa pelo casamento no ideal da Pátria ou na educação religiosa, como a historiografia por vezes defende. Quando muito, as razões seriam válidas a partir de 1573, desde que o, plano da "jornada de África" começou a fervilhar no seu espírito. Mas para os projectos anteriores, como manter que foi o sonho da cruzada que o impediu de aceitar um consórcio? Os motivos determinantes, como bem viu Queirós Veloso, foram a saúde precária, perturbações de ordem fisiológica e a falta de vocação para o matrimónio. Pelo ano de 1569 era voz corrente que "elRey de nenhuma pode ver molher"; e alguns anos depois, um testemunho insuspeito confirmava: "elrey muestra tanto odio a las mujeres, que aparta ojos dellas, y se una dama le sierve la copa, busca como tomarla sin tocarle la mano; e jugando un dia intero en las cañas no levanta la cabeza a las ventanas".

 

Embora tivesse um porte escorreito, D. Sebastião caía muitas vezes enfermo. Dizia-se na corte, segundo a mesma fonte, "que tenia en las piernas una frialdad muy grande, y assi las abrigaba mucho" Em Maio de 1576, o embaixador de Espanha insistia que o rei sofria de uma antiga enfermidade e que os médicos o tratavam de noite, porque sangrava constantemente:"no hace exercicios a caballo, que es indicio manifiesto de la calidad e gravedad del mal". O gosto dos exercícios físicos fora agravando o mal, ao ponto de em 1576 lhe ser penoso andar a cavalo. Nestas condições, como poderia um jovem, constantemente achacado, desempenhar o papel guerreiro de arauto de uma nova cruzada? Onde residia a sua preparação física para comandar exércitos e dirigir um reino?

 

A doença deve ter contribuído para uma personalidade não equilibrada - falta de bom senso, tendência impulsiva, fraco poder de reflexão, capricho em se ver obedecido -, marcas próprias da educação que recebeu e do ambiente em que centrou a vida. Houve nele um conceito de auto-suficiência que acabou em o conduzir ao desastre. Elevado à realeza desde os verdes anos, cresceu D. Sebastião num meio adulatório, convencido talvez de que o seu nascimento, tão desejado, recebera a graça divina para garantir a independência ao Reino. Amado e obedecido como derradeira vergôntea da realeza, com as ilusões próprias da idade juvenil, identificando a sua pessoa com o próprio trono, deve ter julgado que a sua missão terrena podia contar com a aliança da Providência e que esta somente lhe reservaria triunfos como "bem nascida segurança" da coroa nacional. O embaixador castelhano D. Juan da Silva definiu-o de "mancebo y orgulloso en la propria fama", atribuindo à sua "educação barbara" o desastre de que o monarca foi vítima. Pergunta-se: como se insere neste quadro histórico a batalha de Alcácer Quibir?

 

 

Eu não faço qualquer comentário a este trecho de Veríssimo Serrão, por desnecessário e portanto inútil. Que cada leitor interessado tire as suas ilações.

 

E não se esqueça: D. Sebastião nasceu em 1554, com o pai já morto. A mãe deixou-o de muito tenra idade aos cuidados da avó; em 1557, com 3 anos de idade, foi rei; em1568, com 14 anos de idade, sendo muito relutante em ouvir conselhos, tomou nas suas mãos as rédeas do governo; teve um aio, antigo Português das Índias, que lhe insuflou os antigos ideais de guerreiro vencedor de mouros; teve um preceptor, padre jesuíta que fez dele um místico (mas não um cristão); em 1576 vai pela primeira vez a Marrocos para combater os mouros, mas a campanha foi fruste; em 1578, com 24 anos organiza de qualquer maneira um exército, impondo a sua autoridade arbitrária sobre súbditos servilmente obedientes, e passa de novo a Marrocos, onde é derrotado em Alcácer Quibir e perde a vida. A nação portuguesa, encontrando-se numa profundo decadência material, caiu numa profunda prostração moral. E perdemos a Independência em 1580.

 

 

Joaquim Reis

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