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A bem da Nação

DEVANEIOS

 

 

CAMPOAMOR EM VERSÃO PORTUGUESA

 

  

Indubitavelmente fez-se sempre sentir através dos tempos a interpenetração cultural dos povos que habitam a península ibérica da orla atlântica à costa mediterrânica. É um fluxo espontâneo e natural que nunca se limitou à mera divulgação do genial épicoLuís Vaz de Camões entre os espanhóis e à divulgação pura e simples do fulgurante Miguel de Cervantes Saavedra na língua portuguesa, mas foi periódica e ardentemente prosseguido pelos homens de letras dos dois países irmãos. Do lado espanhol, editores e críticos literários têm-se empenhado na divulgação de alguns dos eméritos escritores lusos como Miguel Torga, Fernando Namora, Fernando Pessoa e ultimamente o novelista José Saramago. Do lado português, infelizmente, não correspondeu um bem definido movimento literário empenhado na divulgação dos literatos espanhóis.

  

Seria portanto pretensioso da minha parte, num modesto apontamento, esboçar a influência sobre os escritores lusos de uma notável figura literária da Espanha - Ramón María de las Mercedes de Campoamor y Campoosório (1817/1901), discutida com certa mestria pelo Professor John Hubert Cornyn na sua multifacetada personalidade de contista, dramaturgo, filósofo, jornalista, pensador, poeta e político. Não vou proceder a uma análise aturada da problemática, tarefa essa que se impõe aos estudiosos da literatura contemporânea dos dois países ibéricos, todavia pretendo contribuir com uma pequena achega para o eventual estudo do grande fascínio de Campoamor exercido em vida e na morte sobre dois poetas portugueses: Fernandes Costa, consagrado editor do “Almanaque Bertrand”, e Soares Rebelo (1873/1922), advogado, jornalista, poeta e escritor, que muito prestigiou as Letras e o Direito portugueses no antigo Estado da Índia. 

  

Campoamor viera ao mundo nas Astúrias e finara-se em Madrid, deixando seu nome bem vincado nas Letras, na História, na Filosofia e na política do seu País, como uma autêntica celebridade, perdendo depois, com o tempo, muito do seu fúlgido brilho. Por direito próprio, alcançara entre seus contemporâneos um honroso lugar de poeta popular abençoado por um fácil e empolgante estro. Cultivou um género poético com muito acerto e apurado primor, atingindo as raias de culminância nunca dantes verificada na língua espanhola.

  

Foi com “Doloras” e “Humoradas” que captou a atenção pública e grande celebridade, através dos seus inimitáveis dísticos, quadras, quintilhas e sonetos. A ternura, o sentimento e a ironia permeando seus versos, cedo transpuseram as fronteiras do País, surgindo com novas roupagens noutras línguas europeias.

  

No primeiro quartel do séc. XX encontramos no nosso país Fernandes Costa apaixonadamente debruçado sobre as “Doloras”, as “Humoradas” e outras composições afins de Campoamor, vertidas em português e arquivadas em edições anuais do “Almanaque Bertrand”. No último quartel do séc. XIX e nos primórdios do séc. XX notabilizara-se, em Goa, Soares Rebelo com a versão em português dos epigramas, das “Humoradas”, das quadras, das quintilhas e dos sonetos do vate espanhol. Como moço de 16 anos, Soares Rebelo editara em 1889, a versão portuguesa da quadra de Campoamor evocando a famosa Rainha Mercêdes. Assim, de 1889 a 1914, assinala-se um quarto de século a distanciar entre si os dois poetas portugueses, Fernandes Costa e Soares Rebelo, cujas sensibilidades artísticas encontraram um ponto de convergência no vate espanhol Ramón de Campoamor y Campoosorio.

  

Verificado um manifesto pendor dos dois portugueses pela poesia de Campoamor, nasceu em mim a curiosidade de comparar e contrastar as versões legadas por eles às letras pátrias. Soares Rebelo experimentou grande fascínio pelo epitáfio de Campoamor à Rainha Mercêdes, vertido em português nos anos de 1889, 1895, 1901, 1904 e 1906. Fernandes Costa arquivou sua versão do epitáfio apenas em 1914.

  

Em seguida vão reproduzidas a primeira e a última das versões de Soares Rebelo e a única versão de Fernandes Costa:                      

 

SOARES REBELO – 1889 – Goa

         É um sonho de amor sua triste história:

         Nasceu, foi amável, cândida e bela.

         Amou, reinou, morreu e abriu a glória.

         Entrou e no olimpo cerrou-se ela.

SOARES REBELO – 1906 – Bombaim

         Sonho de amor a sua triste história!

         Nasceu, amável foi, cândida e bela.

         Amou, reinou, morreu e abriu-se à glória.

         Entrou e o céu fechou-se após ela.

FERNANDES COSTA – 1914 – Lisboa

         Foi um sonho de amor a sua história.

         Nasceu, foi boa, foi amável, bela.

         Amou, reinou, morreu: abriu-se à glória.

         Entrou e o céu fechou-se entrando ela.

 

Uma outra quadra de Ramón de Campoamor intitulada “FASTIO”, atraíu a atenção dos dois poetas portugueses, que nos deram sua própria versão na língua pátria, dessa citada quadra.

 

SOARES REBELO – 1901 – Nova Goa

         Sem o amor que encanta,

         A solidão de um eremita espanta.

         Mais e mais espantosa é todavia

         A solidão de dois em companhia!

FERNANDES COSTA – 1915 – Lisboa

         Sem ter o amor que encanta,

         Dum monge ermita a solidão espanta.

         Mas é mais espantosa todavia,

         A solidão de dois em companhia!

 

E, verdade verdade, devo confessar que a chocante solidão de duas pessoas em companhia, tão maravilhosamente focada por Ramón de Campoamor na sua quadra “FASTIO”, por assim dizer é sublimada pelos dois poetas portugueses nas suas versões na língua pátria.

  

Inegavelmente, Fernandes Costa fez uma extensa divulgação do estro poético de Campoamor, como se poderá verificar nas edições anuais do seu muito apreciado “Almanaque Bertrand”. Por sua vez, Soares Rebelo de Junho a Dezembro de 1901 fez versões em português de cinco sonetos, duas quintilhas, seis quadras e oito dísticos de Campoamor (vide “Obras Completas de Soares Rebelo”, Vol. IV, Alcobaça, 2010). Enquanto, de Agosto de 1900 a Dezembro de 1901, verteu do espanhol (sem autor indicado) um soneto, duas quintilhas e três quadras, poemas que terão sido ou não da lavra do consagrado poeta espanhol.

  

Segundo a Wikipédia, Ramón de Campoamor fora autor de várias obras, entre as quais se destacam “Fábulas morales y politicas” (1842), “La Filosofia de las leyes” (1846), “Lo Absoluto” (1865) e “El Ideísmo” (1883), além de “Colón” (1853), um poema épico em 16 cantos. Além de poeta e filósofo, Ramón de Campoamor y Campoosorio fora ainda uma figura marcante da época, chamado a excercer os cargos de governador de Castellón de la Plana, de Alicante e de Valência, e a quem os seus compatriotas homenagearam com uma estátua em Navia em Astúrias. Em 2017 passará o 2º centenário de seu nascimento, data a ser evocada por seus admiradores!

 

 

 Domingos José Soares Rebelo

 

Alcobaça, 24.08.1987 (inédito)

Revisto em 20.05.2013 

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