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A bem da Nação

O FOTÓGRAFO...

 

... E O CREME DE BARBEAR

 

Há muitos anos que deixei de fazer a barba. A causa próxima foi um ligeiro acidente de carro. Já noite, seguia por estrada asfaltada, piso escuro, faróis iluminando bem o caminho. De repente ao sair duma curva, um imenso pneu, daqueles dos moto-scrapers com mais de dois metros de diâmetro, deitado no chão, fechando a estrada que estava em reparação!

 

À noite, estrada preta e pneu preto, mesmo em África, nem preto vê. Quando me apercebi que tinha um desvio, noventa graus entrando pelo mato, era tarde. Travão a fundo, ainda fui chocar com o pneu. O carro nada sofreu, mas eu, que levava um passageiro no banco traseiro que com a batida se apoiou nas minhas costas, bati com a cara no espelho retrovisor interno que se quebrou e cortou-me a beiça superior. Sangue a escorrer para a camisa, parecia até um grave acidente! De qualquer modo tive que levar alguns pontos na dita beiçola. Durante os primeiros dias foi difícil falar, rir só segurando a beiça inchada para não abrir os pontos, então fazer a barba ficou fora de cogitação.

 

Como fazer a barba todos os dias é uma monotonia, uma chatice, resolvi aproveitar aquela deixa e nunca mais a fazer. Já lá vão quase três dezenas de anos!

 

Ainda guardo, para variar, alguns apetrechos cortadores, um deles bem velhinho que foi do meu pai, mas ao pensar em barba, e nos antigamentes, o que mais me lembro é da visita do senhor Williams, o dono do creme de barbear com o seu nome, muito publicitado e vendido mundo afora. Milionário, americano, foi no governo Kennedy talvez secretário de estado para assuntos africanos. Não sei bem se era este o cargo, mas foi o senhor Williams que o senhor J. F. Kennedy mandou a Angola para que ele visse com os seus próprios olhos como, pelos colonos, eram tratados, sobretudo certificar-se como eram destratados, os pretos! O Kennedy tinha autorizado a guerra da independência de Angola. Não esqueçamos que foi ele que mandou dinheiro para o Holden Roberto, o que fez deflagrar a matança de 15 de Março de 1961, que foi tão violentamente vergonhosa que ainda hoje, um quarto de século passado sobre a independência de Angola, não há um único membro de qualquer dos partidos políticos que queira assumir a sua responsabilidade. Talvez por isso mesmo o senhor JFK necessitava que um membro do seu governo fosse, in loco, ver as injustiças praticadas pelos portugueses, para se ajudar a justificar-se pela sua quota parte naquela tristíssima matança.

 

Como se pode imaginar, porque logo se soube da vinda deste emissário e suas intenções, a animosidade para com os americães aumentou, e a recepção ao senhor Williams limitou-se ao estritamente oficial. Sabendo-se a finalidade da visita, e a sua ligação à política americana anti-portuguesa (é bom ler Kennedy e Salazar - O leão e a raposa de José Freire Antunes) muita gente deixou de usar o seu creme de barbear, representado em Angola pelo Quintas & Irmão!

 

O Governo de Angola, recebeu ordens de Lisboa para deixar o inspetor à vontade. Ele que metesse o nariz onde bem quisesse, que ninguém o impediria.

 

Da parte do cônsul americano em Luanda foi enviado à Cuca um pedido para receber o sobredito em visita à fábrica. Era uma unidade industrial com razoável importância no contexto económico de Angola.

 

- Pode avançar.

 

Como não convinha alardear a visita deste sujeito, o diretor geral, o simpático engenheiro geógrafo Albano Martins da Costa, chamou-me e, meio em segredo, pediu-me que o acompanhasse durante a visita e aproveitasse para, discretamente, tirar duas ou três fotografias, mas que não desse o filme a revelar a ninguém, o que não teria qualquer problema porque desde há vários anos eu mesmo revelava e ampliava fotografias em casa, para o que estava convenientemente apetrechado, técnica e materialmente.

 

A Cuca era uma companhia com duas fábricas de cervejas e uma de rações para gado, bem estruturada industrial, comercial e socialmente, que o digam alguns dos seus colaboradores que a seguir à independência ocuparam imediatamente elevados cargos no governo.

 

Dia e hora previstos chega um carro com dois gringos, um que seria talvez o vice cônsul e o, já de antemão antipático, barbeador.

 

Na porta da fábrica, para os receber, o DG e eu.

 

O barbeador era um homem alto, forte, louro, que de tanto creme passar nas bochechas havia esquecido que um sorriso, mesmo quando se está em campos opostos, não faz mal a ninguém.

 

A conversa, como se pode imaginar era... muda!

 

O homem não queria nada conosco, e quando viu os primeiros operários africanos, que depois constatou serem a maioria, perguntou de imediato qual o horário de trabalho, salário, etc.

 

Como eu falava um pouco mais de inglês do que o DG, era a mim que o sujeito dirigia as perguntas. A resposta era simples: chamava-se o funcionário e ele que lhe perguntasse tudo quanto quisesse que o homem do consulado traduzia, para não ficar qualquer dúvida quanto à isenção da nossa atitude.

 

Perguntou o que quis e ouviu o que não quis, porque nenhum se queixou, nem disse mal dos portugueses, nem sabia de algum caso de canibalismo branco-negro!

 

No final da visita, como era tradicional lá na Cuca, um copo de cerveja no bar onde recebíamos visitas, e assinatura no Livro de Honra. Para que ninguém visse que tínhamos recebido um inimigo mandou-se comprar um livro novo, que se ainda existe só deve ter a assinatura dele!

 

Permanecendo na mesma amável atitude, quando lhe pedimos para deixar escritas as suas impressões, o que o colocava numa posição difícil perante a finalidade condenatória que tinha sido o objetivo pré determinado da sua viagem a Angola, limitou-se a assinar nome e data!

 

Foi embora com o mesmo sorriso de alarve novo rico americano com que chegara.

 

Logo de seguida fui eu correndo para casa para, super cuidadosamente, revelar as fotografias, fazer algumas ampliações e mandar para a Administração em Lisboa. A responsabilidade era muita!... Tanta que, apesar de ter já alguns anos de prática, troquei os produtos químicos na hora da revelação, começando pelo fixador que literalmente lavou o negativo inteiro! O negativo fixou-se transparente como vidro!

 

Quando abri a luz para ver o trabalho e constato que tinha feito uma grande burrice, e que da visita do barbeiro só ficara mesmo a solitária assinatura, num livro de honra exclusivo, deu-me para rir! Naquela altura, fazer o quê? Nada.

Voltei para a fábrica e fui mostrar as fotos ao DG.

 

O homem, habitualmente calmo e simpático, ficou danado. Eu, ria!

 

- A visita não era semi confidencial? Agora é que ninguém pode provar que ele esteve aqui!

- Você é maluco.

- Não fique preocupado com isso, porque há muito que isso eu também sei!

 

Acabámos rindo os dois, e nunca mais usámos o creme de barbear do senhor Williams!

 

Isto deve ter-se passado em 1962/3.

 

Escrito em Fev/2000

 

 Francisco Gomes de Amorim

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