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A bem da Nação

CORRESPONDÊNCIA COM A CASA BRANCA – II

 

 

Poucos dias depois de ter enviado em 30 de Julho de 1963, ao Presidente John F. Kennedy, a carta cuja tradução apresentei em artigo anterior, recebi do Departamento de Estado uma resposta constituída por uma carta mimeografada em que se dizia que a Casa Branca pedira a esse Departamento para responder à minha carta, se apreciavam os meus comentários e sugestões sobre o assunto das relações com o estrangeiro e se enviava material que me podia interessar. O «material» referido constava do texto das declarações do Embaixador Sidney R. Yates, representante dos Estados Unidos na Comissão das Nações Unidas destinada a Promover a Independência dos Países Coloniais, sobre os Territórios sob a Administração Portuguesa, em 12 de Março de 1963.

 

Apenas tinha tido dessas declarações escasso conhecimento, pelas curtas referências nos jornais, pelo que fiquei satisfeito por poder lê-las na íntegra. Elas revelam em toda a sua ingenuidade, a imaturidade dum serviço que devia saber que, se enuncia certos factos ou princípios, a eles ficará amarrado. Não creio que qualquer diplomata russo, em situação equivalente fosse, de seu moto próprio, denunciar tão ingenuamente a inconsciência dessa posição.

 

Assim, citando o «material» que me fora fornecido perlo Departamento de Estado, enviei ao Presidente Kennedy a carta cuja tradução é a seguinte:

 

 

Filadélfia, 14 de Agosto de 1963

A Sua Excelência

O Presidente dos Estados Unidos

Casa Branca

Washington, D. C.

 

Desejo expressar os meus sinceros agradecimentos pela gentileza de o Departamento de Estado responder à minha carta endereçada a V. Ex.ª em 30 de Julho e por me enviar o texto das declarações do Embaixador Sidney R. Yates nas Nações Unidas em 12 de Março de 1963.

 

Verifico, ao ler aquelas declarações, que o Governo possui pelo menos a informação mínima necessária para ver que o que as Nações Unidas estão fazendo contra Portugal é uma conspiração infame que nada tem que ver com «autodeterminação» ou «libertação» de povos oprimidos.

 

Das declarações do Embaixador Yates, eu cito: «… Os E. U. propuseram que representantes das Nações Unidas fossem enviados aos territórios de Angola e Moçambique para relatarem nas Nações Unidas como são as condições nesses territórios. Portugal estava disposto a cooperar com esses representantes.

… … … …

Como os membros desta Comissão sabem, os Estados Unidos, embora lamentando o facto, decidiram finalmente não apresentar essa proposta a votação em consequência dos apelos de delegações que não aceitariam essa resolução sem emendas que impediriam a sua aplicação.

… … … …

Senhor Presidente [da Comissão]: Eu não posso garantir que essa tentativa produzisse os resultados que se desejam aqui à volta da mesa».

 

Estes três parágrafos são tudo quanto um Governo de boa fé necessita para fechar a questão. Aqueles países, obviamente, não querem uma inspecção porque, como o vosso representante, Sr. Yates, muito bem sabe «não era possível garantir que desse os resultados geralmente desejados à volta daquela mesa».

 

O que é o mesmo que dizer que aqueles delegados não se preocupam de forma alguma com a autodeterminação dos povos das Províncias Ultramarinas Portuguesas (que esses povos já têm) mas desejam uma «determinação deles próprios» para ser imposta àqueles povos. Não posso encontrar palavra que melhor defina a situação do que a que foi usada pelo Dr. Franco Nogueira, Ministro Português dos Negócios Estrangeiros: é REVOLTANTE!

 

Eu compreendo a situação daqueles pobres países africanos, cheios de complexos contra o homem branco, provavelmente invejosos da situação dos homens negros que se orgulham de ser cidadãos portugueses. Tenho a certeza de que Portugal está preparado para se defender dos ataques de tais inimigos.

 

Mas é-me impossível compreender a posição dos nossos amigos, muito principalmente dos Estados Unidos. Este país, que diz que um homem do Hawai, Alaska ou Porto Rico, qualquer que seja a usa raça ou credo, se orgulha de ser cidadão dos Estados Unidos, não é capaz de compreender que um Angolano, um Moçambicano, um Goês, possam ser igualmente orgulhosos de serem cidadãos portugueses, uma situação de que aqueles territórios já gozavam muito antes de esta terra ser os Estados Unidos da América. Este país, envolvido actualmente numa longa batalha de discriminação racial de brancos contra pretos, apoia agora em África uma discriminação de pretos contra brancos, tão má como a outra e, pior do que tudo, tenta levá-la aos únicos locais de África onde não existe qualquer forma de discriminação racial.

 

Peço desculpa, Sr. Presidente, por insistir nesses assuntos numa altura em que os seus sentimentos de Pai foram tão rudemente feridos. Desejo apresentar a V. Ex.ª os meus sentimentos pelo falecimento de seu filho.

 

Respeitosamente

 

as) Miguel Mota

 

O último parágrafo desta carta referia-se ao falecimento, poucas horas antes após o nascimento, do último filho do Presidente, tragédia que, além de atingir a família, foi muito sentida nos Estados Unidos.

 

Em resposta a esta minha carta, recebi do Presidente e da Senhora Kennedy um amável cartão de sentimentos. Alguém na casa Branca, lera a minha carta até ao fim.

 

Não teriam qualquer interesse estas cartas entre muitos milhares anualmente recebidas pela Casa Branca, se não contivessem a demonstração – com elementos directamente fornecidos pelos serviços oficiais dos Estados Unidos – de que aquele país tem perfeito conhecimento da situação nas Províncias Ultramarinas Portuguesas e da hipocrisia dos ataques a Portugal das outras nações africanas. As confissões do Embaixador Yates são perfeitamente claras e, todavia, a política americana continua a falar de «autodeterminação», embora sabendo que está a referir-se a algo que é desejado por uns quantos «à volta duma mesa» em Nova York e nada tem com a vontade dos povos a que é aplicada. Julgo serem dispensáveis quaisquer comentários.

 

 MIGUEL MOTA

 

In: «Jornal do Comércio», 18 de Janeiro de 1968.

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