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A bem da Nação

MUSTAFÁ

“O Iluminismo é a saída do homem da sua menoridade de que ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir do entendimento sem a orientação de outrem. Tal menoridade é por culpa própria se a sua causa não reside na falta de entendimento mas na falta de decisão e de coragem em se servir de si mesmo sem orientação alheia. Tem a coragem de te servires do teu próprio entendimento! Eis a palavra de ordem do Iluminismo. (...…)

 

Depois de [os tutores], primeiro, terem embrutecido os seus animais domésticos e evitado cuidadosamente que estas criaturas pacíficas ousassem dar um passo em falso para fora da carroça em que as encerraram, mostram-lhes em seguida o perigo que as ameaça se tentarem andar sozinhas.

 

(...…) no seio da liberdade, não há o mínimo a recear pela ordem pública e pela unidade da comunidade. Os homens libertam-se pouco a pouco da brutalidade, quando de nenhum modo se procura intencionalmente nela os conservar.

 

(…...) A natureza quis que o homem tire totalmente de si tudo o que ultrapassa o arranjo mecânico da sua existência animal e que não participe de nenhuma outra felicidade ou perfeição excepto a que ele conseguiu para si mesmo, liberto do instinto, através da própria razão.” –

 

Emmanuel Kant, Setembro de 1784, in “A paz perpétua e outros opúsculos”.

 

Pela mesma época, o teólogo árabe Muhammad Al-Wahhab (1703-1792) definiu a sua como a definitiva interpretação do Corão, condenando à morte os que ousassem novos conceitos, mesmo pela simples tradução e apagando os 14 séculos de história que mediaram entre aquela época e a vida do Profeta.

 

Isto poderia ter sido inconsequente se em 1744 não tivesse convertido à sua doutrina o rei Ibn Saud cuja dinastia ainda hoje governa a Arábia Saudita.

 

Para agravar a situação, o teólogo egípcio Hassan Al-Banna (1906-1949) disse que “«É da natureza do Islão dominar, não ser dominado, impor a sua lei a todas as nações e fazer alastrar o seu poder ao planeta inteiro”». Mantendo o estilo, também disse que “«O punhal, o veneno e o revólver…, estas são as armas do Islão contra os seus inimigos”». Segundo este doutrinador, todos os não muçulmanos são considerados inimigos.

 

Assim se explica parte substancial dos problemas actuais no relacionamento entre as duas Civilizações nesta época de globalização mas a verdade é que nem mesmo com a explicação nos podemos eximir da busca de uma solução para esta tremenda conflituosidade em que estamos metidos. A solução ao estilo de Sharon e de Bush II tem características bem semelhantes às homólogas medievais e isso significa que se puseram a jogar com as mesmas regras do inimigo: olho por olho, dente por dente. Nisso, a Sharia (1) é exímia e não somos nós, os ocidentais, que lhe damos lições. Mas uma política pacifista ao estilo do Mahatma Gandhi ou da Madre Teresa de Calcutá também é capaz de não produzir efeitos pois a outra parte não dá ouvidos aos infiéis e mata-os antes que eles possam dizer que vão às boas e vestidos de branco.

 

No que ficamos, então? Mustafá Kemal Paxá (Ataturk), líder dos Jovens Turcos do princípio do século XX, laicizou a Turquia ao ponto de ter imposto o alfabeto latino, banido as madrassas (2) e proibido os partidos políticos de inspiração religiosa. É da História que não seguiu métodos muito democráticos nem foi perito em cânticos de amor. Mas é também da História que a Turquia é hoje o único país de raiz cultural islâmica com alguma hipótese de ser acolhido no concerto das nações evoluídas.

 

Afez al-Assad, Nasser, Ben Bella e Bourguiba tiveram políticas de fomento das classes médias e Kadhafi ainda hoje parece reservar aos fundamentalistas líbios um tratamento especial, digno do melhor estilo de Saddam Hussein. Ou seja, para tirar aquelas sociedades do medievalismo em que os conservadores as querem preservar, é necessário manter sob ameaça constante esses fanáticos e, para isso, nada melhor do que um conterrâneo que lhes aplique a mesma brutalidade que eles próprios preconizam para com terceiros, os infiéis.

 

À semelhança do inconcebível que seria julgarmos o nosso rei D. João II por ter apunhalado o Duque de Viseu ao abrigo das leis que hoje nos regem, também não me parece que as sociedades islâmicas estejam disponíveis para a democracia. Com a agravante de que as tentativas democráticas nas sociedades islâmicas hão-de provocar enormes convulsões sociais sobre jazidas de petróleo muito valiosas para o mundo ocidental. Essas perturbações vão dificultar a vida aos Governos desses países e as petrolíferas públicas e privadas vão invocar dificuldades de extracção que elevarão o preço do barril nos mercados internacionais. Quanto mais caro for o barril, mais caros serão os combustíveis e maiores serão os resultados tributáveis. Com maiores lucros, mais impostos directos para os Estados em que as petrolíferas são tributadas. Assim se chega a compreender um pouco a razão pela qual os países ocidentais estão a querer instalar Governos democráticos em cima das jazidas de petróleo e nós, os pagadores de combustíveis e impostos indirectos, somos capazes de apontar um ou outro Mustafá autocrata de origem laica e castrense como os nossos preferidos para gerirem esses países.

 

Só que nós, os pagadores, não somos chamados a opinar sobre estas questões.

 

 Henrique Salles da Fonseca

 

(1) - Lei islâmica;

(2) - Escolas corânicas Lisboa, Junho de 2004 Henrique Salles da Fonseca Publicado em 9 de Junho de 2004 no Suplemento de Economia de "O Independente"

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