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A bem da Nação

DIÁLOGOS PLATÓNICOS - 1

Discípulo: - O Senhor perfilha a teoria clássica, é keynesiano, neoclássico, monetarista, institucionalista, convencional ou quê?

Mestre: - A resposta corresponde à sua alternativa do “ou quê”. Sou tudo isso e também outras coisas tais como um pouco das teorias que ainda não foram inventadas...

Discípulo: - Pode explicar?

Mestre: - Sim, claro. A Economia é uma ciência do comportamento social e, portanto move-se no âmbito da moral. Não se pode meter o raciocínio das pessoas num canudo e dizer-lhes que a partir daquele momento só podem pensar daquela maneira e de mais nenhuma. Todos os teóricos foram tendo razão e, com o passar dos tempos, nem todos a perderam por completo. Portanto, eu tenho um pouco de todos eles.

Discípulo: - Consegue conciliá-los a todos?

Mestre: - Não garanto uma conciliação completa. Acho que os teóricos analisaram a sociedade em que viviam numa perspectiva simplificadora muito particular de modo a que pudessem estabelecer princípios. Esses princípios eram ou são verdadeiros mas não excluem outras perspectivas que entretanto foram surgindo e constituindo novos princípios até então desconhecidos.

Discípulo: - Isso significa que para si a Economia é cumulativa?

Mestre: - Isso significa que para mim não faz sentido espartilhar o comportamento humano.

Discípulo: - Mas então, isso pode significar que tanto os puritanos como os bandidos têm cabimento na Economia...

Mestre: - Sim, isso dá razão de ser aos esforços que se desenvolvem de medição da economia paralela. Não é por rejeitarmos os comportamentos informais, ilegais e mesmo criminosos que os vamos ignorar no âmbito da realidade; se os ignorássemos, então podíamos chegar ao extremo de fundamentarmos a extinção das Polícias.

Discípulo: - Mas valerá a pena medir a economia paralela?

Mestre: - Valer a pena, vale com certeza. Não quer dizer é que se consiga chegar a uma medição correcta. Admitamos que se obtém uma estimativa e, a partir daí, então poderemos começar a ter ideias menos erráticas sobre a realidade que oficialmente nos dão.

Discípulo: - E qual é essa falsa realidade?

Mestre: - O Banco de Portugal calculou há tempos cerca de 20%.

Discípulo: - Então o PIB português é 20% superior ao que se anuncia?

Mestre: - A ser aceite a estimativa, então isso significa que a riqueza produzida em Portugal está subestimada nessa percentagem. Se os números oficiais apontam para qualquer coisa como um PIB em 2003 de cerca de 131 mil milhões de Euros, então a realidade terá sido de cerca de 157,2 mil milhões.

Discípulo: - E que diferença faz isso na nossa vida?

Mestre: - Pode fazer a diferença que existe em sermos ou não a lanterna vermelha da UE. E pode levar Bruxelas a dar-nos menos subsídios, desviando-os para outros Estados-membro que continuem a ignorar a economia paralela.

Discípulo: - Admitindo que a Economia é uma ciência da moral, como classifica então as várias correntes de pensamento? Serão umas morais e as outras imorais?

Mestre: - Não, essa dicotomia não é válida! Os teóricos analisaram a sociedade em perspectivas particulares e estabeleceram regras que só podemos considerar parciais; não imorais! Outra coisa é a transposição dessas parcialidades para a prática política e, então aí, sim, é possível detectar práticas imorais.

Discípulo: - Há exemplos com que possa ilustrar essas práticas imorais?

Mestre: - A Jugoslávia de Tito teve um problema de inflação. O Marechal não hesitou em reduzir os vencimentos dos funcionários públicos. Creio que só a polícia política terá impedido uma revolta popular e o drama está em que a inflação não abrandou. É que as tensões inflacionistas jugoslavas não tinham então sobretudo a ver com essa variável mas sim com outras, tais como a subsidiação sistemática das improdutivas empresas estatais que não estavam ideologicamente confrontadas com problemas de sobrevivência e se penduravam por sistema no Orçamento do Estado. A criação de moeda ultrapassava os limites da sanidade e os preços correspondiam em conformidade. Um erro de diagnóstico e uma prática não democrática de tomada de decisões gera uma situação imoral. Um erro de diagnóstico resultante de um debate público e de uma decisão democrática traduz-se num erro histórico mas não numa imoralidade. A moral é ortodoxa; a heterodoxia corre sempre o risco da imoralidade. E, contudo, a solução de Tito correspondia a um raciocínio económico totalmente ortodoxo. A génese da imoralidade está na prática.

Discípulo: - Keynes foi imoral?

Mestre: - Não, Keynes foi um teórico e não incorreu em qualquer prática imoral. Ele introduziu um elemento dinâmico num modelo estático herdado de Adam Smith, de Ricardo, de Arthur Pigou e a transposição das suas ideias para a prática seguiram um processo constitucional de índole democrática. A revolução keynesiana traduziu-se numa prática de desenvolvimento de um sistema económico naturalmente estabelecido pelo normal correr da História. Já a mesma fortuna não teve Marx cujas ideias foram transpostas à bruta e sem qualquer base democrática em completa ruptura com a tradição. Os teóricos com reconhecimento científico não têm sido imorais; os seus seguidores é que têm que escolher entre práticas morais ou outras.

Discípulo: - Portanto, a teoria não é imoral; a prática é que o pode ser...

Mestre: - A ciência económica não assume dimensões de imoralidade. Se o fizer, não será ciência; será distúrbio intelectual. Já bastam as más práticas resultantes de boa ciência.

Discípulo: - Em Economia, a matemática é um elemento moral ou imoral?

Mestre: - A matemática é uma linguagem isenta de conceitos morais; é mesmo um instrumento verdadeiramente amoral. A introdução da matemática na ciência económica teve precisamente como objectivo evitar os confrontos entre moralidades diversas. A matemática não adjectiva os conceitos. Os modelos econométricos são construídos numa tentativa prospectiva, abstraindo por completo da moralidade da realidade que tentam representar.

Discípulo: - Acha então útil a econometria?

Mestre: - A econometria é um exercício mais académico que pragmático. Não sei se a decisão de Tito se baseou ou não nalgum modelo econométrico mas na positiva, não tenho dúvidas de que o modelo que tenha servido de base à decisão política estava na mais tenra infância da arte...

Discípulo: - E na actualidade? O que se passa?

Mestre: - Actualmente, temos uma grande profusão de informação prospectiva que resulta de modelos econométricos algo variados. A começar pelo Governo, passando pelo Banco de Portugal, pela Comissão Europeia, o FMI, a OCDE. Todos eles dizem o que se vai passar no futuro e é com base em modelos mais ou menos sofisticados que fazem essas previsões. E depois... depois cá estamos nós para ver qual a relação existente entre as previsões e a realidade medida no final do período considerado. Entre finais de 2000 e o final de 2001 tivemos diferenças de mais de 400% em algumas variáveis. E até houve casos em que um resultado prognosticado como positivo acabou por ser negativo.

Discípulo: - Então, para que serve todo esse trabalho?

Mestre: - Boa pergunta: então, para que serve todo esse trabalho?

Discípulo: - Mas serve mesmo para alguma coisa?

Mestre: - Quanto mais não seja, serve para mostrar que os modelos que estão na base das prospectivas não representam a realidade. Mas, em princípio, deviam servir para dar um sinal aos Governos sobre as consequências no futuro das políticas em curso e para indicar aos agentes económicos um cenário que lhes permita actuar no presente de modo a que o futuro lhes sorria.

Discípulo: - Pelos vistos, os objectivos não são alcançados.

Mestre: - No período que estudei, os resultados foram risíveis.

Discípulo: - Então o que acha que deve ser feito?

Mestre: - Acho que se deve ser mais humilde nos prognósticos e não afirmar que uma qualquer rubrica vai variar dentro de um intervalo muito apertado. Mas também, chegar à praça pública e afirmar com grandes parangonas que o Emprego vai crescer ou diminuir é o mesmo que dizer que as coisas vão suceder assim ou exactamente ao contrário. É frustrante o exercício de se ir medindo as previsões até se chegar à realidade final. Prospectivas assim, são inúteis.

 

Lisboa, Junho de 2004

Henrique Salles da Fonseca

Henrique Salles da Fonseca

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