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A bem da Nação

DE VOLTA A LISBOA ANTIGA

 

Um dos assuntos que, desde sempre, se discutiu, foi a origem do nome Lisboa. A mais romântica explicação atribui a Odisseu, Ulisses em latim, a sua fundação, quando (como os “grandes navegadores do Mussulo”!) cruzou os mares na sua aventurosa Odisseia.

 

É uma hipótese pouco credível. Talvez mais ajustada seja o nome que os fenícios, que se supõe os seus fundadores, lhe terão dado: Allis Ubbo, baía amena. Os romanos chamaram-lhe primeiro Felicitas Julia e pouco depois Olissipo ou Olissipona. Os mouros Aschbona.

 

É tão antiga esta cidade que já Platão se referia a Olisipo ao falar sobre a Atlântida, e quando os fenícios ali chegaram já os primeiros habitantes, hoje desconhecidos, teriam um castrum, lá no alto, onde fica o Castelo da S. Jorge.

 

Conquistada pelos sarracenos, em 714, aos “primeiros” habitantes, cristãos, que tiveram no lugar de Campolide uma igreja dedicada aos santos Verissimo, Máximo e à virgem Julia, e no lugar da atual Sé, também outra igreja que os mouros transformaram em mesquita. A reconquista de Lisboa sempre foi um desejo forte dos cristãos: primeiro, Afonso II das Astúrias, o Casto, a retoma em 798; volta a recuperá-la em 811, e de volta aos “intrusos”, foi saqueada em 851 (por Ordonho I ?). Em 1093 é o rei Afonso VI de Leão que a conquista para voltar mais uma vez às mãos dos mouros. Por fim, em 1147, os sarracenos são definitivamente postos fora!

 

Nesta conquista final, com o auxílio dos cruzados, o ataque deu-se em três frentes: a ocidente, onde hoje fica a Baixa, no sopé do Monte Fragoso (Chiado) e que era inundável pelo rio nas altas marés, os ingleses, bretões e gente da Aquitânia; a ocidente os teutos, flamengos e colonienses, e pelo norte e também ocidente os portugueses.

 

Em todas estas áreas, fora das muralhas, os conquistadores começaram por despejar de suas casas, os antigos ocupantes, para aí se instalarem.

 

Em memória desta ilustre conquista para a cristandade e para a história de Portugal, chama o rei Afonso Henriques o Arcebispo de Braga, Dom João Peculiar, a quem mandou que se erguessem duas igrejas, e a seu lado os respectivos cemitérios para que fossem dignamente sepultados os “mártires-heróis” desta vitória sobre o Islam.

 

Logo todos os bispos se reúnem, aspergem de água benta os locais escolhidos para as edificações e levam ao rei duas pedras abençoadas, que seriam as pedras fundamentais, de acordo com a promessa real.

 

São Vicente, para os teutos, e Santa Maria dos Mártires para os ingleses e bretões, no morro fronteiro ao acampamento destes, e onde tombaram tantos “mártires”. A primeira foi entregue a um presbítero teuto, Rualdo ou Winando, e a um “leigo de vida santa, Henrique, que deveria tocar para as horas canónicas o sino que aí haviam erguido e, vigiando às portas da igreja, guardaria com o devido cuidado o átrio, por dentro e por fora”, a segunda a um bispo inglês, Gilberto, “homem bem instruído nas sagradas letras e merecedor de perpétua e piedosa memória”, que Afonso Henriques tinha feito também Bispo de Lisboa.

 

Lá continuam essas duas igrejas, muito modificadas na sua traça em oito séculos de vida, e ainda hoje se chama à Igreja dos Mártires, a igreja dos ingleses, “ali” na rua Garrett!

 

São Vicente, hoje São Vicente de Fora, porque construída fora das muralhas da antiga cidade, em honra do tão venerado santo, ferozmente martirizado pela perseguição ordenada pelo imperador Dioclesiano, que o tornou conhecido e um dos mais venerados santos dos cristãos peninsulares. O destino do seu corpo tornou-se uma lenda. Terá sido metido num saco, com algumas pedras para que afundasse no mar, uma vez que, após a sua morte, e largado o corpo no campo, nenhuma fera ou ave de rapina dele se aproximou.

Teria vindo, sempre protegido por um corvo, dar à praia, que a areia cobriu. Tempos depois foi encontrado e em sua homenagem construído um mosteiro e uma igreja, onde o sepultaram, e que esteve sempre guardada por alguns corvos, que, dizia o povo, eram descendentes do primeiro que o acompanhou. Segundo Edrisi, o cartógrafo árabe Abu Abd Allah Muhammad al-Idrisi, o santuário era conhecido entre os mouros como a Igreja dos Corvos.

 

Esta igreja ficava onde é hoje, também, o Cabo de São Vicente, no Algarve, em 1173 ainda em poder dos árabes. Para recuperar o corpo do santo, Afonso Henriques mandou fazer uma “entrada” em território almoada, de que era califa Abu Ya'qub Yusuf, para resgatar o corpo do santo, que foi levado para Lisboa numa embarcação, sempre acompanhado de dois corvos! Daí vêm as armas da cidade:

 

 

São Vicente não foi para a “sua” igreja. Primeiro depositado na igreja de Santa Justa, e só em 15 de Novembro de 1173 foi trasladado para a Capela Mor da Sé.

 

Aí ficou até 1755, quando tudo ruiu e desapareceu com o terremoto, a que se seguiu imenso incêndio, acabando assim o cofre com os restos do Santo.

 

Depois disto terão aparecido somente algumas relíquias queimadas, mas, lá do Alto, o bom São Vicente ainda deve olhar com ternura para a terra que o acolheu. E para os corvos.

 

Apesar da carta de “R” para o senhor “Osb de Baldr” indicar a data de 28 de Outubro com o dia final da conquista, a tomada de Lisboa é festejada a 25 do mesmo mês, quando a igreja celebra a festa dos santos Crispino e Crispiniano, dois irmãos, sapateiros, romanos, martirizados e degolados em Soissons, na mesma altura em que mataram São Vicente.

 

À intervenção divina daqueles dois santos atribuiu Afonso Henriques a almejada vitória.

 

“O mosteiro de São Vicente foi construído no ano de 1148 da Encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é bendito pelos séculos. Amen.”

 

Rio de Janeiro, 10-06-2011

 

 Francisco Gomes de Amorim

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