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A bem da Nação

NOSSA!

 

La Fontaine, ao que parece,

Leio na Internet,

Colheu no italiano Astémius,

Fabulista quatrocentista,

O tema da sua fábula

A Aranha e a Andorinha”,

Segundo a qual,

A Aranha pretendia,

Sem qualquer ironia,

Caçar também a Andorinha

Na sua teia infernal.

Mas como se saiu mal,

Logo se impôs a lição

Sobre o excesso de ambição

Que destrói incautos pedantes,

Que as forças não meçam antes.

 

«A Aranha e a Andorinha»

 

”Ó Júpiter, que do teu cérebro soubeste

Por um inédito parto secreto,

De discutível acerto,

Gerar Palas Atena, minha inimiga outrora

Por, de pura inveja,

Eu bordar tão bem como ela,

Escuta o meu pranto, por uma vez que seja.

Progne, a andorinha, irmã de Filomela,

- Esta em rouxinol transformada,

Sem culpa formada -

Vem sempre à minha porta

Roubar-me os meus pedaços de sustento,

Girando em caracol, fendendo o ar e as águas.

Ela tira-me as moscas da minha horta,

Minhas, posso dizê-lo; e a minha teia

Estaria delas cheia, não fora

Esta maldita Ave,

Pois teci-a de matéria resistente.”

Assim, com um discurso insolente,

Se não mesmo imprudente,

Se queixava a Aranha, tapeteira outrora,

E que, agora fiandeira,

Pretendia apanhar com bastante ardor

Qualquer insecto voador

Para comer.

A irmã de Filomela, atenta à sua presa,

Apesar da bestazinha, a Aranha,

- De atalaia, perto da sua teia -

Apanhava, para os seus filhotes,

Alegria impiedosa para ela,

Sempre de vela,

As moscas no ar,

Que, com os bicos sempre abertos, os seus filhos glutões,

Em tom meio formado, ninhada pipilante,

Pediam com os seus gritos, ainda indistintamente.

A pobre Aranha não tendo mais

Que cabeça e pés,

Supérfluos artesãos,

Foi ela própria apanhada na bicada.

A Andorinha ao passar, levou a teia e tudo,

E o animal pendente

Na ponta da sua conta.

Júpiter para cada estado , ou seja,

Condição social,

Pôs duas mesas no mundo,

Mas não foi por mal,

Antes, como distribuição natural:

O hábil, o vigilante e o forte estão sentados

À primeira mesa;

E os pequenos, mal alimentados,

Comem, com presteza,

Mas com agonia funda,

Os restos daqueles, na segunda.

 

La Fontaine, como se vê,

Seguiu outra indicação

Na sua lição,

Mais cá à nossa maneira:

Trata-se da distribuição

Dos bens deste mundo

E do requinte das mesas

Segundo a mesma condição

De usarmos ou não

Bem as cabeças.

Mas também os pés e as mãos

São auxiliares profundos

Nos desvairos deste mundo.

La Fontaine não o disse

Porque apesar de tudo o que disse,

Não era tão bera

O tempo de outrora

Como é o de agora.

Mas é tempo de dizer - fora!

A tanta discrepância,

A tanta violência

A tanta ânsia

De abundância,

Mesmo quando não fosse nossa

A massa.

Poça!

Não há quem o impeça?

 

 Berta Brás

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