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A bem da Nação

DOIS EM UM

 

De Fernando Pessoa, in “Mensagem”, (III Parte- “O Encoberto”)

 

«NEVOEIRO»

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer.

Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo fátuo encerra.
Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,

Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.

Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
É a Hora!

 

 

Não, não é a hora de nenhum auspicioso “Quinto Império”, que Vieira definiu, apoiado em profecias ambiciosas, em tempo de miséria e dependência, e em cujo rasto Pessoa seguiu, no mesmo orgulho patriótico que inspirou o primeiro, e no prosseguimento de tempos nublados num país de atraso, mas com algumas mentes de génio, entre as quais a do próprio Pessoa, crente num novo “Sebastião” e num “Quinto Império” espiritual protagonizado pelo seu país, num amanhã começado nessa Hora.

 

Parece absurdo, ontem como hoje, em que os meios mediáticos nos permitem conhecer melhor a matéria de que é feita a natureza lusa que possibilitou o “nevoeiro” cerrado adensando mais as trevas da nossa actual condição de dependência, um tão insensato orgulho de valorização deste país, ainda que sob uma forma poética de extraordinária feitura. Absurdo que pretendêssemos tal projecção, se fôssemos trabalhadores e aptos como outros povos de superior modéstia intelectual, os quais respeitam outros valores menos exibicionistas e mais dignos da condição humana, como o descreverá Vasco Pulido Valente na excelente análise do seu artigo “Um economista com dúvidas” de Domingo, 21/4, sobre um livro de Vítor Bento«Euro Forte, Euro Fraco, Duas Culturas, Uma Moeda: Um Convívio (Im)possível?» :

 

 

… As duas culturas de que fala o título são, como era fatal, a cultura dos países do Norte (a Alemanha, a Áustria, a Holanda, a Bélgica) e a cultura dos países do Sul (a Irlanda, a Itália, a Espanha, Portugal e a Grécia). As duas culturas têm uma “moral social” diferente, e, como é lógico, diferentes “preferências sociais”. A cultura do Norte tende a valorizar a lei, sobretudo a lei fiscal, promove a fiança colectiva e a confiança de cada cidadão no Estado. A cultura do Sul favorece a infracção, sobretudo a infracção fiscal, enfraquece a confiança colectiva e genericamente não permite uma sólida confiança no Estado.

 

Mas as razões invocadas por Pulido Valente são bem diferentes das que enfatiza Vítor Bento, centradas em diferentes valores socioculturais .

 

Esta divisão, à superfície perspicaz, não parece realista e bem fundamentada. O facto principal é que os países do Sul não se industrializaram, não por sua culpa, mas, primeiro, porque lhes faltavam matérias primas fundamentais: o carvão e o ferro. E, segundo, porque estavam longe do centro da Europa e das grandes vias comerciais. Se pensarmos nas regiões que se desenvolveram dentro dos países do Sul: o Norte e o Nordeste de França, o Milanado e a Venécia (como dantes se dizia), a província basca, veremos que o seu “atraso” e sua “cultura” se devem essencialmente à sua pobreza e que essa pobreza deriva da pobreza do solo e de um irremediável isolamento.

 

Segue-se que «A mistura no euro de países que eram historicamente miseráveis com os ricos a quem sempre haviam obedecido e de que sempre haviam dependido é que em pouco tempo provocou a ideia, de resto utópica, da “Europa”.

 

E Pulido Valente continua comentando as teses de Vítor Bento:

 

Mas Vítor Bento, depois de contar com a sua competência de economista e a sua vasta ignorância do passado, a fabricação do euro sob o alto patrocínio da Alemanha e a cumplicidade pateta dos franceses (que não tardarão a pagar por isso), não consegue ainda decidir entre o possível e o impossível. E com uma habilidade que se recomenda, depois de rejeitar o federalismo político e o federalismo fiscal, o que é de uma sensatez mais do que primária, persiste na fantasia da “federalização dos sistemas bancários”, claro, e também das “prestações sociais, como o “subsídio de desemprego”.

 

E conclui:

 

Além de a sugestão ser politicamente absurda, Vítor Bento, para mal dos seus pecados, não percebe que com isso iria aumentar o poder, já excessivo, da Alemanha sobre os países do Sul, cujo único destino seria o das colónias balneares para o Império central. Mas não nasceu por enquanto o economista capaz de se entender com o mundo como ele é.

 

Vasco Pulido Valente é historiador, deve saber bem o que diz a respeito dos países ricos e pobres da Europa, motivo da maior ou menor amplitude económica com reflexos sobre o desenvolvimento cultural.

 

Na parte que nos diz respeito, mesmo sem o poderio mineiro dos povos europeus nortenhos, tivemos colónias que a Metrópole explorou a seu tempo, podendo ter alargado mais visivelmente as estruturas económicas, sociais e culturais do povo português. Paradoxalmente, ao longo dos séculos esse povo foi sendo continuamente marginalizado em termos socioculturais relativamente aos mais povos europeus e não só. E esse facto não se deveu à falta de riqueza, porque a tivemos bastante, mas aproveitada em termos glorificadores dos reis, no passado monárquico, ou de exaltação católica, não em termos de desenvolvimento social, o povo sempre joguete da avidez ou dos egoísmos dos mandantes, como bastamente o denuncia, por exemplo, Saramago em “Memorial do Convento”.

 

Também essa falta de respeito humano ou de pequenez mental o vemos nos programas da nossa estridência verbal televisiva hodierna, e muito especialmente nos do excesso dos nossos debates que todos giram em torno da nossa crise, com muitos sabedores cheios de certezas a respeito da nenhuma expectativa de melhoria económica, os que apoiam o governo traduzindo cada vez mais debilmente a confiança no êxito daquele, mas nenhum se dispondo a assumir responsabilidades ou uma orientação de interapoio que pudesse revelar, não a máxima camoniana “também dos portugueses alguns traidores houve algumas vezes”, mas uma máxima oposta, lembrando os actos de coragem e de dedicação pátria que o mesmo Camões exaltaria entre os “barões assinalados” que tão magistralmente cantou.Mas parece absurdo que tantos sejam os atacantes em torno do osso pátrio em frangalhos, aparentemente para o protegerem, na realidade para mais o abocanharem.

 

E é mais um texto de Vasco Pulido Valente, publicado no “Público” de sábado, 20/4/13, que transcrevo, sobre essa questão da monocórdica temática televisiva que ele intitula “Os dois “debates” de televisão”:

 

As televisões (sete ou oito canais) têm agora dezenas de programas de debate, com centenas de salvadores, incluindo – não se percebe porquê – o Herman José, sob o pseudónimo de Ana Gomes, a mulher que mais grita em Portugal. Isto seria normal, se os debates não fossem sempre só dois da RTP à CMTV, apesar da profusão de sábios que nos tentam ilustrar e esclarecer. Ao fim de algumas semanas já se repetem todos, sem que se perceba esta estranha multiplicação de falatório em pessoas, com livre arbítrio e alguns neurónios no cérebro. Com tantas faculdades de “comunicação social” devia haver um grupo de investigação para descobrir a origem deste fenómeno, manifestamente típico do génio do indígena e – suspeito – com grandes possibilidades de exportação , pelo menos para a Venezuela.

«O primeiro debate versa sobre a “austeridade”. Os mandatários de Pedro Passos Coelho e de Vítor Gaspar insistem que a “austeridade é necessária” e o único caminho para tirar Portugal de sarilhos e a condição básica para começar uma política de crescimento económico e um “combater o desemprego” (um eufemismo incompreensível). A oposição, pelo contrário, acha que a “austeridade” está a criar desemprego e a “desfazer o tecido económico” do país, propondo uma “renegociação” com a troika (sem explicar precisamente sobre o quê e sem a menor ideia se a troika aceitaria esse plano salvífico e perspicaz. Nesta altura o debate costuma degenerar num arraial de feira, em que o moderador se desespera e ninguém ouve o que o próximo está a dizer, de resto com imensa razão, porque o próximo é um agente do mal e do estrangeiro. Para se distrair, o cidadão comum pode passar para o canal ao lado e tornar a ver o espectáculo com outras caras.

 

O segundo debate versa sobre o “consenso”, que ninguém se deu à excessiva franqueza de explicar exactamente em que consiste. A troika quer o consenso, por motivos que não se compreendem e que, de qualquer maneira, não convém que a ralé conheça. Como a troika quer, de quando em quando o governo conversa com o PS ou manda uma cartinha ao dr. Seguro com o propósito de exibir a sua obediência e magnanimidade; e o PS, que se acha “humilhado” e “enxovalhado” responde com duas pedras na mão. Aqui, chega a altura do PSD também se sentir “humilhado” e “enxovalhado” e de se cobrir dignamente com a gravidade do Estado. Sucede, ainda por cima, que o PS nunca aceitará a política do PSD, nem o PSD a do PS (ver primeiro debate). E é assim que, com meia dúzia de horas de “debate” por noite, a nata do nosso querido país pratica a democracia e, com dificuldade, vai educando a ralé.

 

Ecce homo.

 

Ecce homines.

 

 Berta Brás

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