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A bem da Nação

REPÚBLICAS – 1885

 

DIRECTOR POLÍTICO DIRECTOR LITERARIO

TOMÁS RIBEIRO Lisboa, 24 de Outubro V. DE CORREIA BOTELHO

EDITORES - ADOLPHO, MODESTO & C.a

1.° ANNO -1885 2a SERIE—N.0 45

 

Uma carta, do Sr. Bocage

 

Um jornal hespanhol que se imprime em Lisboa e que advo­ga o republicanismo ibérico, publicou uma carta particular do sr. Bocage ao sr. Barjona, segundo affirma o mesmo jor­nal, e sobre o contheudo d'essa carta se desencadeiam as iras dos republicanos ibéricos de cá e de lá. Iras d'imprensa, declamação de jornalismo, indignação gratuita e graciosa.

A carta que se attribue ao sr. ministro dos negócios estran­geiros é a seguinte:

 

«Ministério dos Negócios Estrangeiros.—Gabinete do Ministro.—Par­ticular.

 

«III.mo e Ex.mo Sr.

«Meu presado collega e amigo;

 

«Ha razões muito fortes para suppôr que se está tramando activa­mente em Lisboa e Elvas contra a ordem publica de Hespanha.

«Presume-se que é principal agente das combinações revoluciona­rias um Salvochea, antigo deputado republicano, segundo se crê actual­mente em Lisboa. Urge apanhal-o e expulsal-o d'aqui.

 

«São-me apontados com insistência um tal La Rosa, director do jor­nal El Gallego, que se publica em Lisboa, e França Netto como agen­tes e propagandistas aqui. Parece que o tal La Rosa é o encarregado da distribuição do manifesto de Zorrilla. Convêm fazer vigiar estes dois senhores afim de se descobrir quaes são os individuos com quem es­tão em combinação, etc.

 

«É preciso fazer também vigiar o commandante Castilio, foragido hespanhol, o qual está com outros dois dirigindo aqui o movimento revo­lucionário. Supponho que a Legação de Hespanha pedirá a expulsão d'este senhor.

 

«A actual situação de Hespanha está animando os fautores de cons­pirações, é por isso preciso augmentar a nossa vigilância.

 

«Bem sei que temos mal organisada a nossa policia; porém ainda assim, creio que alguma coisa se poderá fazer se o Governador Civil e Commissario Geral quizerem occupar-se d'este assumpto.

 

«Desculpe V. Ex.a a importunação e creia-me seu collega amigo venerador»

J. V. barboza du bogage.»

 

Não traz data mas deve ser antiga se existir.

 

Leram? Que lhes parece? Já viram abuso de poder mais desbragado? Tyrannia mais intolerável? Intenções mais per­versas? Vergonha maior para este paiz que assim manda vi­giar os estrangeiros que hospeda, quando suspeita que elles conspiram ?

 

Têem razão de sobra, os nossos hospedes e a sua platea clamorosa! porventura a policia inventou-se para vigiar? os ministros têem alguma coisa com o que fazem os estrangeiros a quem recebemos? Para que serve Portugal se não é para valhacouto de conspiradores contra as instituições, a paz e a administração do paiz d'onde saíram, e do paíz que os aco­lhe? Já Prim foi expulso d'estes reinos por fazer d'elles banco de ferrador. É demais!

 

Mas não pára aqui a nossa indignação. E preciso que o povo saiba tudo e pondere no seu juízo são e desapaixonado até onde chega a felonia do nosso ministro dos negócios es­trangeiros.

 

Aquella carta foi escripta de propósito para servir de thema ás objurgatorias dos republicanos ibéricos e de propósito a elles entregue para os avizar do que se passava é para que, publicando-a, se desse rebate aos desacautelados? Por estranha que pareça esta enormidade, é forçoso acredital-a. D'isto accusamos pois o sr. Bocage por honra dos nossos hospedes cuja urbanidade e perspicácia temos em subida conta. Se o cobrem de insultos é jogo que se comprehende;

— são valores entendidos. E se não foi o sr. Bocage que lh'a forneceu foi o senhor ministro do reino. E a mesma cousa.

Pois como está em poder d'elles uma carta particular e como se publica um tal documento, sem licença do signatá­rio ou do destinatário ? Não o faziam de certo sem auctorisação previa, apezar de quantas sophismações estudassem com relação ao art. 463 do código penal portuguez, com pe­nas aggravadas no § 3.°,

— «se as cartas ou papeis abertos forem pertencentes ao «serviço publico, e emanados d'alguma aucthoridade publi­ca, ou a ella dirigidos.»

 

Vejam se já foi autoada esta publicação, ou se a imprensa-ministerial, defende o ministro! Singular silencio !

É cazo para pedir contra o governo, incurso nas penas estabelecidas no titulo II capitulo II do código, uma condemnação sem attenuantes.

 

Com que, a isto chegámos?

 

Não sabemos o nome do jornal hespanhol onde primeiro foi publicada a carta do sr. Bocage, pois que a transcreve­mos d'um jornal portuguez, mas deve chamar-se El Bosforo-lusitano. E pois que este paíz é uma nação de bárbaros, illustres estrangeiros,— o Egypto europeu, se assim quereis, dar-vos-hemos o seguinte conselho, com a mesma urbanidade com que sempre vos tratou a nossa, aliás justa, cortezia:— voltae as costas a este povo intolerável, minado de traições e semeado de tyranias: Ide-vos, que nós merecemos esta saudade: volved la espalda e ao entrar na Hespanha, que vos espera cheia de gratidão, fazei-nos uma longa figa e deixae que este reino ingrato se quede sin gente e sem o inapreciável jornal que (por fé o juramos) digníssimamente redigis.

 

Nós diremos como Jeremias, ante a enorme solidão que vae fazer-se:

—«Quomodo sedet sola civitas plena popolo!»

 

Sim, mas o vosso pundonor acima de tudo.— Adeus!

 

Rio de Janeiro, 13 de Julho de 2011

 

 Francisco Gomes de Amorim

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