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A bem da Nação

MAS NEM SEMPRE LHE VESTE A PELE

 

 

Mais um excelente trabalho de uma professora colega da minha filha Paula – Maria Rosa Sousa – que, tendo frequentado o mesmo curso de “Literatura Mundo”, como “Oficina de Formação” em “Fundamentos e Práticas de Leitura” – em Lisboa, escreve, no seu Relatório final, os diferentes passos com que aplicou as noções apreendidas, os quais só poderiam trazer consequências muito positivas de abertura e alargamento cultural e modernizador para os seus alunos.

 

“O Homem Lobo do Homem?” – eis o seu título, como noção que vai contextualizando, com textos antigos e modernos, em vários anexos, a que, suponho, a Internet facilitará o acesso, para maior deslumbramento dos possíveis leitores deste blog.

 

Um prazer grande, este de sentir que existem muitos professores – a minha filha gostou de muitos dos trabalhos apresentados – com a consciência, entusiasmo e profissionalismo que também este trabalho revelou, e que nos transmitem a esperança de que um dia terão continuadores nos seus alunos. Uma pátria com homens, não lobos mas bons mentores, não poderá morrer. Assim os governantes o queiram reconhecer.

 

No “Sermão de Santo António aos Peixes” era fácil colher – e escolher – fartos exemplos das figuras daquele mar em que os peixes maiores comem os mais pequenos e que por isso absorvem em maior quantidade, e em que o cefalópode é o mais traiçoeiro de todos, pior que o próprio Judas.

 

Eis um estudo orientado segundo uma visão bastante crítica do mundo, com textos escolhidos criteriosamente, para desenvolvimento da capacidade crítica – e cívica – dos educandos, além de, certamente, as inerentes à disciplina literária.

 

 Berta Brás

 

 

O HOMEM LOBO DO HOMEM?

 

1 INTRODUÇÃO

 

Tendo sido solicitada nesta Oficina de Formação uma constelação de textos para trabalhar com os alunos sobre um dos conteúdos do programa de Língua Portuguesa, optei pelo Sermão de Santo António aos peixes, de Padre António Vieira. Esta escolha foi imediata, visto que estava, na altura, a começar o estudo desta obra com os alunos do décimo primeiro ano, e a mentalidade do século dezassete sempre me fascinou, porque encontro nessa época grande parte da justificação do atraso do nosso país.

Assim, os primeiros textos que me surgiam eram relativos à contextualização da obra, textos que, de resto, costumo abordar com os alunos aquando do estudo do Sermão e outros sobre os valores defendidos nela, também, parte deles, dados. Mas uma dúvida (quantas?) se ia levantando: Qual o tema nuclear ‘programático’ de todos estes textos?

Decidi, então, disciplinar-me e concentrar-me apenas, para este trabalho, em textos que tivessem a ver com os valores defendidos pelo autor da referida obra. O momento exige-o. A literatura deve servi-los. Os jovens devem reflectir sobre eles. Se o homem é lobo do homem, proteste-se.

 

2 DESENVOLVIMENTO

 

Quando iniciei esta oficina, já tinha começado o módulo referente ao Texto Argumentativo, onde está incluído o Sermão de Santo António aos Peixes, com a respectiva contextualização do século XVII, anteriormente pedida aos alunos como trabalho de pesquisa. Com a intenção de demonstrar o peso da Igreja Católica na época e, portanto, do papel do Sermão para os crentes (e não crentes: recordei-lhes o papel social deste texto na altura, como o comentário crítico à situação política), aqui falámos, entre outras coisas, dos excessos do barroco: viram fotos várias de igrejas com a sua arquitectura barroca, bem como de alguns púlpitos; uma ilustração de penteado da época; leram, a este propósito, O colchão dentro do toucado, de Nicolau Tolentino; observaram o Êxtase de Santa Teresa de Ávila, de Bernini, onde foram levados a perceber o século de contrastes que foi este – por um lado, o fervor religioso, por outro, a sensualidade (que envolve a figura de Santa teresa); ouviram música de Bach e Haendel, para além da sacra.

Deixaria para o fim da análise do texto em causa, o Sermão de Santo António aos Peixes, como, sempre que posso, faço, outros textos que ajudam a entender a mentalidade daquele período: Carta de Guia de Casados, de Francisco Manuel de Melo, (de natureza moralista, em que o homem é aconselhado sobre a forma como deve manter a sua mulher como a Lua do seu lar, visto que ele é o Sol); O Verdadeiro Método de Estudar, carta XVI, de Luís António Verney, (defende o acesso da mulher à educação para poder apoiar e acompanhar os elementos da família, logo, a nação); O reino cadaveroso, de António Sérgio (justifica o atraso de Portugal a partir do século XVII, por não se ter colocado ao lado das novas ideias da Europa, antes pelo contrário, por se ter deixado guiar pelo retrógrado pensamento da Igreja) (Anexo 1.1); (Mensagem do terceiro mundo, do poeta timorense Fernando Sylvan.

A partir do início da oficina obriguei-me (não era, confesso, até então, preocupação minha, sobretudo no que concerne aos bíblicos) a percorrer outros tempos à procura da intertextualidade daquilo que eu, logo à partida, mentalmente, tinha delineado.

E os textos que iam surgindo, pareciam estar, cada um mais do que o outro, ajustados ao Sermão. Mas um primeiro grande constrangimento também chegava: posso fazer uma constelação à volta da obra em si (que era o que me apetecia ), ou tenho de encontrar textos apenas relativos a um dos vários defeitos denunciados por Vieira? Continuava a faltar um tema específico (assim o tinha eu entendido nas exposições das formadoras).

Até que surgiu a luz: a velha máxima latina encaixava aqui perfeitamente: «Homem lobo do homem». Ainda assim, ela parecia remeter apenas para a constatação de que isso acontece – o homem explora, sempre que pode, o que lhe é (ou assim o julga) inferior. E os textos subversivos que fazem parte destes corpus, onde caberiam? Precisamente, no ponto de interrogação.

Decidida pelo caminho a percorrer, compilo os textos (Anexo 1) e parto, agora mais determinada, para o trabalho. Mas um segundo constrangimento se impunha: em que momento do estudo do Sermão poderia pôr a minha constelação de textos à apreciação dos alunos? E como?

Uma vez que dou aulas em duas escolas, numa secundária e numa profissional de teatro, dando naquela, também, aulas a alunos do ensino profissional, e as duas realidades são tão diferentes uma da outra, optei pelas seguintes estratégias:

 Na escola de teatro entreguei à turma do segundo ano, depois da análise em grupo da obra, todos os textos escolhidos (com excepção de Carta de Guia de Casados, a Carta XVI de O Verdadeiro Método de Estudar e O Reino Cadaveroso), sem qualquer preocupação de os ordenar, a não ser a de os distribuir pelas folhas de forma a poupar, o mais possível, papel. Os alunos teriam de, em casa,·

1. relacioná-los com o Sermão de Santo António aos Peixes;

2. identificar um tema comum a todos eles. Em relação a esta alínea, os alunos foram informados de que eu queria ver até que ponto as suas leituras coincidiriam, no todo, em parte, ou de forma alguma, com o tema de que eu partira.

Nas três aulas (de uma hora) seguintes cada grupo expôs oralmente as conclusões a que chegou. Ressalvo que dei oportunidade aos alunos que discordavam do seu grupo, de mostrar e justificar as suas opiniões (Anexo 2).

Dos textos e observações dos alunos, após debate sobre estas, facilmente se concluiu que, na verdade, o tema homem lobo do homem está presente em todos eles, seja registando-o, seja denunciando-o, seja, de forma subreptícia, chamando a atenção dos leitores para ele. A ambição, a soberba, portanto, é o que leva o homem a abusar do seu poder, a ser lobo dos seus irmãos.

Os alunos mais assertivos consideraram o número de textos elevado para o tempo que tinham para fazer o trabalho: três dias.

 Na escola secundária, onde a grande maioria dos alunos apresentam bastantes dificuldades, quer na entrega à leitura fora da aula, quer à própria interpretação de texto, quer, mesmo, a nível de vivências, seleccionei alguns textos, como a Carta do Achamento do Brasil a el-rei D. Manuel, a carta do Índio Seattle ao presidente dos Estados Unidos, o poema Mensagem ao terceiro mundo, o excerto de Viagens, Garrett, o excerto do evangelho segundo S. Mateus, o discurso proferido por Luther King na marcha sobre Washingtom e as frases de Dalai Lama. Durante duas aulas de noventa minutos, depois de lhes dizer o tema que os unia, segundo o meu ponto de vista, li eu, a maioria das vezes, partes dos textos, já que, sabemo-lo, a leitura dos alunos pode não permitir ao grupo turma a verdadeira apreensão do sentido textual. A tarefa dos alunos era mostrarem-me até que ponto os textos se relacionavam, quer com o tema que eu lhes dei, quer com o ponto de partida para o trabalho, o Sermão de Santo António aos Peixes. Oralmente, os alunos iam respondendo a questões levantadas por mim, (centradas, grande parte das vezes, na questão dos índios, tão presente nos nossos dias), como também fazendo observações espontâneas. É de realçar que o interesse na actividade e as melhores associações dos textos aos valores que lhes subjazem vieram, sem dúvida, de alunos de etnia negra.·

No final de todas as leituras e acesas conversas sobre todos estes temas, ouvimos, nas duas turmas, o arranjo coral Acordai, de Lopes Graça com a letra projectada no écran. Foi um momento muito bonito para os alunos.

Esta actividade terminou, nas duas turmas referidas, com o visionamento do filme A Missão, dirigido por Roland Joffé e escrito por Robert Bolt, de 1986, baseado em factos reais, que aborda o momento histórico da expulsão dos jesuítas do domínio português no Brasil devido à crise nas relações entre a Coroa portuguesa e a Companhia de Jesus. Um dos pontos do guião para o visionamento do filme incidia, claro está, na atenção redobrada às palavras do representante da corte portuguesa, onde, mais uma vez, fica claro que o índio não foi feliz no convívio com o homem branco. Com facilidade os alunos foram chegando a estas conclusões.

O tempo despendido nestas leituras não deixou espaço, desta vez, para a abordagem da Carta de Guia de Casados, de Carta XVI, de O Verdadeiro Método de Estudar, e de O Reino Cadaveroso. Ficarão para uma outra constelação próxima. Os alunos não ficaram a perder com esta opção.

Uma vez que esta construção de constelações tanto me e lhes suscitou o gosto pela leitura de textos relativos a um tema, proporei que sejam eles, aquando do estudo de Os Maias, a procurar aqueles que lhes ressoem sobre a temática do incesto.

 

3 CONCLUSÃO

 

Quando me propus frequentar esta acção de formação, cheia de curiosidade, estava longe de imaginar que ela me agradasse tanto.

O professor do ensino secundário foi-se habituando a incidir a sua acção num campo mais orientado para um desempenho de sucesso dos seus alunos em situação de avaliação sumativa, como a de exame, o que, por vezes, lhe retira a possibilidade de se entregar a um voo mais ousado. Foi esta a possibilidade que aqui, nesta oficina, tomou lugar.

Com ela, tive a oportunidade de levar os alunos a reflectir sobre a intertextualidade, a perceber que nós somos um animal carregado de heranças. E são as artísticas aquelas que agora importam e fazem todo o sentido, algumas muito longínquas, que, a qualquer momento, se a isso estivermos dispostos, fazem um eco que nos faz sentir mais cheios, mais inteiros, porque mais próximos daqueles com quem, percebemos cada vez mais, nos identificamos. Sem qualquer tipo de fronteiras.

E que, quanto mais elas forem e as soubermos sentir, mais nos completamos como seres pertencentes a um determinado espaço.

Tive também a oportunidade de os levar a concluir, através das suas interpretações, que a literatura é vida. E que nela encontramos reflectida a batalha entre o homem [que é] lobo do homem e aquele que o quer emendar. Façam, também eles, a partir do seu espírito crítico e dos seus gostos e interesses pessoais, a sua Literatura Mundo. É o que vou tentar que aconteça.

 

Maria Rosa de Sousa

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