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A bem da Nação

O RESTO É SILÊNCIO

Não foram os 800 mil que a organização se apressou em garantir. Nem sequer 500 mil. Os números ficaram obviamente muito abaixo disso. Mas essa contabilidade de cabeças, de fotografias, de imagens adulteradas, do índice de ocupantes por metro quadrado no Terreiro do Paço, a que alguns esforçadamente se dedicaram [...], não chega para anular o que aconteceu. As manifestações existiram. Muita gente foi para a rua. Muita gente em protesto contra o Governo, a Europa e os tempos. E se a ninguém espanta que por lá tivessem passado os clubes do costume, também estiveram muitas pessoas que não respondem aos minaretes ideológicos. Dito isto, encaremos outros factos desagradáveis.

 

Do 12 de Março de 2011 ao 15 de Setembro de 2012 e agora a este 2 de Março, o ciclo das manifestações tende a repetir-se sem acalmia à vista. Mas não é necessariamente verdade que o peso da "rua" se esteja a intensificar. Ao contrário do 12 de Março e do 15 de Setembro, em que os protestos surgiram no espaço de dias, numa reacção instantânea, as manifestações de 2 de Março foram meticulosamente preparadas, anunciadas, promovidas. Tinham um hino, acções por todo o lado, uma organização militante. Contaram com o apoio frenético de quase toda a comunicação social. Ambiciosos, os organizadores viram nisso a oportunidade de subir a fasquia. Tinham o propósito de superar a adesão do 15 de Setembro. Não conseguiram. Este aspecto, não sendo decisivo, também não é irrelevante sobre o que podemos esperar da "rua" e de alguns dos seus movimentos.

 

As manifestações não têm, como bem se diz, de "servir para alguma coisa". Parece-me óbvio que a mera erupção de raiva e incomodidade é suficiente. Mas se não têm de servir para articular alguma coisa, também não têm de servir para tirar ilações claras. As manifestações são um sinal, exibem um descontentamento difuso, mas não permitem teleguiar um Governo com acções concretas. Pensar que uma presumível inteligência das multidões pode ser representada é não ver que a representação política apenas surge quando algo se organiza para representar. O que é precisamente o contrário da raiva vezeira e respeitável das manifestações.

 

Terceiro, impressiona o número de velhos que circulou nas ruas. [...] ficou a saber-se que o Estado tem mais reformados do que trabalhadores no activo. Eis um problema. Esta austeridade não é apenas financeira. Antes disso, há uma austeridade demográfica que, a prazo, nos coloca perante um conflito corrosivo. Como é que uma minoria crescente pode sustentar uma maioria sem acabar por se virar contra ela? E podemos nós fingir que nada se passa?

 

 

A indústria que mais floresce num tempo de crise é a indústria do medo. Também vimos isso [...]. Gente com medo de tudo, da impotência do Governo ao desnorte dos partidos, age para as assustar ainda mais. As manifestações revelaram por isso um aspecto importante e contraditório deste medo. Aqueles que hoje mais apelam à mudança são também, por vezes, os que mais temem e lutam contra a mudança. É um paradoxo com que também temos de contar.

 

Resta a incerteza sobre o que podemos fazer. Se não saiu ainda um discurso plausível e realista destas manifestações, não é só porque ninguém explicou o que quer quando manda a "troika lixar-se" – e nenhuma das opções existentes é indolor. É também porque, como escreveu o economista Ricardo Reis no Dinheiro Vivo, não foi a troika que trouxe a austeridade. Os empréstimos da troika aliviaram-nos da austeridade da falência. Não foram a doença, mas um provisório alívio que implica custos. O resto, custa reconhecer, é ainda silêncio.

 

 Pedro Lomba

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