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A bem da Nação

UMA HISTÓRIA POR CONTAR

 

 

A história aparece em parte contada no mais recente livro de João César das Neves As Dez Questões da Recuperação (Dom Quixote). Estou a pensar em dois quadros esclarecedores sobre a evolução do crédito bancário em Portugal a partir de 2008, para os quais oportunamente me chamaram a atenção. Dizem muito sobre o que nos aconteceu.

 

Quando procuramos culpados para a crise, costumamos apontar (depois, é claro, da crise do euro) a cupidez dos bancos que financiaram maus negócios públicos, fintaram os reguladores (como o BPN) e se fizeram pagar de uma forma absurda e improdutiva. A banca está no banco dos réus, aqui e em todo o lado. Salvem as pessoas, não os bancos, é o que se ouve. Não quero passar atestados de inocência a alguns dos bancos portugueses que abusaram do crédito bancário em operações duvidosas e tiveram o risco garantido pelo Estado. Temos tantos exemplos disso. Mas o que aconteceu ao crédito bancário, analisado no livro de César das Neves, não permite apenas atirar responsabilidades para cima dos bancos. Permite-nos perceber que foi o próprio Estado, a partir de certa altura, a levar o pandemónio para a actividade bancária.

César das Neves apresenta-nos dois factos sólidos desta "história impressionante". A primeira é que até 2008-2009 os bancos portugueses actuaram como instituições financeiras normais e prudentes na concessão de crédito. Dirigiram o crédito bancário sobretudo para as empresas e particulares em montantes razoáveis. A partir de 2008 a crise internacional produziu, como seria de esperar, a redução do acesso ao crédito. No entanto, se compararmos o crédito aos particulares com o crédito total que na mesma altura começa a ser concedido pelos bancos descobrimos uma significativa variação. Na segunda metade de 2009 o valor do crédito total dispara. Ficamos portanto com este cenário anormal: o crédito às empresas e pessoas em descida, mas o crédito total bancário a subir furiosamente num contexto económico adverso. Dois anos antes do resgate.

Não é difícil, seguindo César das Neves, imaginar o que se passou. Os nossos bancos transferiram o crédito às empresas para crédito ao Estado. O Estado vira-se em desespero para os bancos. As tendências de crescimento do crédito ao Estado atingem os 60% em 2009 e mais de 100% em Março de 2010. É assim que o Estado se aguenta, à deriva, apenas porque não dispunha de alternativa.

Este ponto é suficientemente importante para percebermos que não foi em 2011 que os mercados internacionais fecharam as torneiras para Portugal. Isso já tinha acontecido, demonstra César das Neves, dois anos antes. Apesar da perpétua negação da realidade. O Estado desestabilizou em absoluto o crédito bancário e afastou-o das empresas e da economia. Só quando os empréstimos da troika nos chegam em meados de 2011, e por pressão dos mesmos bancos, é que a situação é normalizada.

Fica explicado porque é que o poder político entendeu que era vital para os seus interesses dominar a actividade do crédito de instituições privadas. Mas não fica explicado porque é que os bancos aquiesceram. Daí que César das Neves coloque a pergunta do milhão de dólares: que misteriosas razões, e de qualquer maneira irracionais, levaram as instituições financeiras a aceitar tão mansamente este papel, vampirizadas pelos pedidos de crédito do sector público? Chantagem política? Vantagens do negócio? Foram e temos sido nós, contribuintes, a pagar esta aventura. Uma aventura que merecia ser contada por inteiro.

 

14/03/2013

 

  Pedro Lomba

 

  Público

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