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A bem da Nação

A ODYSSEIA DOS TYSICOS

 

 

 

O título desperta o interesse de qualquer cidadão saudável. Foi o meu caso. Desconheço a reacção dos tísicos mas não vi ninguém com aspecto disso. Mais: caso raro, ninguém tossiu. E a sala estava cheia e havia gente que ficou de pé.

 

E onde foi esse «lá»? No espaço, na sala dos espelhos (salão doirado?) do Palácio Foz, aos Restauradores, em Lisboa; no tempo, foi pelas 6 da tarde de 18 de Março de 2013.

 

O custo que suportei foi o do estacionamento do carro no Parque dos Restauradores, € 5,90; o acesso à Odysseia foi gratuito. Para quem foi a pé, o custo terá sido apenas o do desgaste das solas dos sapatos.

 

E do que se tratou? De uma soirée literária e musical da primeira década do século XX apenas com música e poesia portuguesas.

 

Para mim, os compositores em cartaz dividiam-se em duas categorias: os conhecidos e os desconhecidos. Também para mim, os intérpretes pertenciam todos à mesma categoria: jovens e desconhecidos.

 

Compositores: Freitas Gazul, João Arroyo, Alfredo Keil (sim, o do Hino Nacional), David de Souza, Raul Pereira, Augusto Machado, Ruy Coelho, Francisco Bahia e Júlio Neuparth.

 

Poetas: Guilherme d’Azevedo e Cesário Verde

 

Intérpretes: Anna Thomaz, soprano; Carlos Monteiro, tenor; Nuno Manoel Cardozo, violoncelo e declamação; Raphael d’Azevedo, piano; Edward Luiz Ayres d’Abreu, piano.

 

Foram 21 pequenas peças que tive pena de ver chegar ao fim. Por mim, podia ter continuado outras tantas mas desde que me garantissem que seria com os mesmos intérpretes.

 

No início do concerto imaginei o que seria o ambiente no início do século XX, sem rádio e muito menos televisão ou Internet, em que, aos serões, os salões eram enchidos pela música feita no próprio local em vez daquela de que hoje somos servidos. Por exemplo, neste momento em que escrevo, estou com os auriculares a ouvir árias de Wagner interpretadas pela Kirsten Flagstaad mas antes deste CD estive a ouvir a Diana Damrau a cantar as Brentano Lieder de Richard Strauss. Modernices...

 

E que tenho a dizer na generalidade?

 

Para os intérpretes, um BRAVO!!!

 

Dos compositores, fiquei com uma sensação de poucochinho, mansinho, cor-de-rosinha. E então lembrei-me de que nessa primeira década do século XX o estilo de vida lisboeta não poderia ter serões com música muito diferente desde que Senhoras e meninas estivessem presentes. O decoro não permitiria brejeirices e nas ruas havia já a violência suficiente para que em casa se preferisse a serenidade.

 

Mas na especialidade posso dizer mais umas «coisinhas»...

 

Começo por confessar uma injustiça que cometi nas duas primeiras peças de Raul Pereira, interpretadas pelo tenor Carlos Monteiro acompanhado ao piano por Ayres d’Abreu, que me privei de aplaudir. Foi então que comecei a perceber que aquele compositor devia, por qualquer razão obscura, ter como objectivo tramar a vida dos cantores escrevendo «coisas» de grande dificuldade. E reparei que o cantor merecia muito mais aplausos do que os que eu não lhe dispensara até então. Compensei-o nas outras que interpretou aplaudindo-o pelo mérito intrínseco a cada peça que concluía e mais um pouco para distribuir pelas duas em que fui injusto.

 

Tive a sorte de ouvir duas peças de David de Souza já minhas conhecidas com o violoncelo de Nuno Cardozo a evidenciar que é de veludo não deixando os créditos dos ataques certeiros por arcos alheios. E o instrumentista tem uma pose de Senhor que enche o cenário. O piano de Ayres d’Abreu ao nível que todos certamente queríamos.

 

E assim como gostei do que ouvi do violoncelo, fiquei com pena de NADA ter ouvido da declamação que Nuno Cardozo fez noutras peças em que teoricamente teria sido acompanhado ao piano por Ayres d’Abreu. O resultado foi o inverso: belas peças de piano com alguém a dizer algo que se enquadrava nos tempos musicais mas escapando por completo a qualquer entendimento. Bem sei que no início do século XX um microfone seria futurismo puro mas hoje a sua ausência significa uma falta enorme que nos impede de usufruir de algo que adivinhamos bom mas que se queda pelo hipotético. As orelhas actuais estão mais fracas que as daquela época.

 

Raphael d’Azevedo a mostrar que sabe o que está a fazer e Anna Thomaz a agradar. Dois intérpretes que pretendo continuar a ouvir.

 

Conclusão: disto, quero mais.

 

«E desculpem qualquer coisinha...»

 

Lisboa, 19 de Março de 2013,

 

 Henrique Salles da Fonseca

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