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A bem da Nação

NA LUA

 

Nem só como fabulista ou contista

Foi La Fontaine considerado,

Pois que a fábula seguinte,

“Um animal na Lua”

Mostra que a sua sabedoria ia

Muito para além das Letras,

Que às vezes até são de tretas,

E metia uma sabedoria

De moderna filosofia

Ao mostrar que o conceito da relatividade

É uma já antiga teoria,

E que a trigonometria

Lhe serve de apoio com racionalidade:

 

 

Enquanto um filósofo assegura

Que os homens são sempre enganados pelos sentidos

Um outro filósofo jura

Que os sentidos jamais nos enganam.

Ambos têm razão: e a filosofia diz a verdade,

Quando afirma que os sentidos enganarão

Enquanto os homens julgarem a partir da sua revelação;

Mas também,

Se rectificarem a imagem do objecto segundo o seu afastamento,

O meio que o rodeia,

O órgão e o instrumento,

Os sentidos não enganarão ninguém.

A natureza ordenou estas coisas sabiamente:

Direi um destes dias, amplamente,

As razões de tal bem.

Eu avisto o sol: Qual é a sua figura?

Cá de baixo esse grande corpo

Não tem mais que três pés de envergadura

Mas se eu o visse lá em cima frente à sua postura

Que seria aos olhos meus senão o olhar da mãe natura?

A sua distância faz-me julgar sobre a sua grandeza;

Sobre o ângulo e os lados a minha mão a determina,

Sem fantasia,

Em cálculo de trigonometria;

O ignorante julga-o plano, em esfera eu o avolumo;

Torno-o imóvel e a terra a andar;

Em suma, desminto o meu olhar em toda a sua estrutura.

Este sentido da visão não me prejudica contudo pela sua ilusão.

A minha alma em qualquer ocasião

Desenvolve o verdadeiro, oculto sob a aparência.

Eu não sigo sem inteligência,

Com o meu olhar talvez demasiado lesto,

Nem com o meu ouvido a reproduzir-me os sons, bem lento.

Quando a água curva um pau por refracção

A minha razão ergue-o:

A razão decide como mestra.

Os meus olhos, mediante este socorro da razão,

Jamais me enganam, mentindo-me sempre.

Se creio na sua referência, erro bastante vulgar,

Uma cabeça de mulher está no corpo da lua.

Poderá isso ser? Não. Donde vem, pois, este objecto?

Alguns sítios desiguais fazem de longe este efeito.

A lua em parte alguma tem uma superfície una:

A subir em alguns lados, em outros aplanada,

A sombra com a luz pode por vezes lá traçar

Um homem, um boi, um elefante.

Há pouco a Inglaterra, viu lá coisa semelhante,

- “O Elefante na Lua”, poema de Samuel Butler -.

Posicionada a luneta, um novo animal apareceu

Neste astro tão belo; e cada um se maravilhou:

Tinha chegado lá acima uma transformação

Que pressagiava sem dúvida um grande acontecimento.

Não seria que a guerra entre tantas potências

– Holanda, França, o Império Germânico, a Suécia, a Espanha –

Não era o efeito disso? O monarca inglês, Carlos II, acorreu:

Como rei, favorece os altos conhecimentos.

O monstro na lua por sua vez lhe apareceu.

Era um rato escondido entre copos:

Na luneta era a fonte destas guerras.

Riram por isso. Povo feliz, quando poderão os Franceses

Entregar-se como vós a estes prazeres?

Marte faz-nos obter amplas colheitas de glória:

Aos inimigos pertence os combates temerem,

A nós o procurá-los, cientes de que a vitória,

Amante de Luís, de nós será,

Os seus passos por toda a parte seguirá,

Os seus loureiros tornar-nos-ão célebres na história.

Mesmo as filhas da Memória

Não nos abandonaram; nós saboreamos prazeres;

A paz é conforme aos nossos desejos, não nos dá suspiros.

Carlos sabe usufruir disso. Ele saberia na guerra

Assinalar o seu valor e conduzir a Inglaterra

A estes jogos que em paz ela hoje vê.

Todavia, se ele pudesse acalmar a discórdia

Quanto incenso! Há algo mais digno dele?

A carreira de Augusto foi menos bela

Que as famosas proezas do primeiro dos Césares?

Ó povo feliz, quando virá a paz clemente

Tornar-nos, como a vós, às belas-artes

Entregues inteiramente?

 

E a partir, assim, de uma figura

Apercebida na lua,

Que serve de brincadeira

Mas também de reflexão,

Traça La Fontaine o itinerário

Dos reis amantes de guerra

Mas também das belas letras

A dar satisfação

A quem delas beneficiava.

Quem dera

Que entre nós também houvera,

A partir de antigamente,

Quem as belas letras defendesse,

Como condição imprescindível

Para o mundo tornar compreensível

A todo o homem, com mais ou menos filosofia.

Mas os nossos escritores dessa época,

Indispostos com a vida,

Só pediam

O retorno egoísta

A uma mediania letrada

- Dourada, como diziam -

E nem se apercebiam

De que o pobre povo

Ficava sempre para trás,

Povo bobo, sem visão

Nem orientação.

E hoje também se diz

Entre nós,

Que a protecção

Das belas letras e artes

Recebe muitos maus tratos.

Mecenas, só os partidos os têm,

E os clubes de futebóis,

Não tenhamos ilusões.

 

 Berta Brás

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