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A bem da Nação

Conversa fiada – 1ª parte

Jornalista – Obrigado por ter aceite o convite para esta conversa que é a continuação dos ”Diálogos Platónicos” que tivemos enquanto eu estava na Universidade. Economista – Mas é com muito gosto que continuo a conversar consigo, sobretudo agora que Você já está a trabalhar. Parabéns, felicito-o pela oportunidade que conseguiu. O jornalismo exercido por um economista tem todo o cabimento. É, à partida, uma garantia de nível técnico nos temas económicos, o que pode não ser alcançado por generalistas. E quando falo dos temas económicos, refiro-me tanto à macro como à micro. Jornalista – Mas eu ainda não estou a escrever artigos de opinião . . . Economista – Mas vai com certeza fazer perguntas pertinentes e isso já é muito importante. Lá chegará o tempo em que dará a sua opinião em directo. Se agora, com as perguntas que formula, orientar as conversas, então é Você que define os temas. É Você que indirectamente forma a opinião. Jornalista – Mas isso não significa que eu concorde com as opiniões que os entrevistados tenham e lá se vai uma parte importante da capacidade de intervenção que eu possa ter. Economista – Tudo tem o seu tempo. Lá chegará e, nunca se sabe, talvez mais rapidamente do que supõe. A carreira do especialista é estruturalmente diferente da do generalista. Dê tempo ao tempo . . . Jornalista – Muito bem: eu imaginei que – antes de irmos para os tais temas de doutrina e de relações internacionais – pudéssemos dar uma volta pelos temas correntes da vida portuguesa e, se concordar, lhe chamássemos “Conversa fiada” precisamente porque havemos de ir um pouco ao sabor dos ventos e que a dividíssemos em partes de modo a facilitar a participação de quem nos vier a ler. Economista – Perfeito. Concordo plenamente. Os temas importantes não são apenas os de estrutura, os tais de que tanto falámos nos “Diálogos platónicos”. E nem só as evoluções de médio e longo prazos são importantes; as variações sazonais podem ser muito importantes para uma sociedade. Jornalista – A propósito, como divide os prazos? Economista – Bem, essa já é uma pergunta de doutrina e combinámos que isso é para mais tarde. Mas, no entanto, avanço com a minha divisão do tempo; é muito discutível mas é a minha divisão. Para mim, o prazo imediato é o do mês, o curto é o do ano, o médio situa-se entre 1 e 5 anos, o longo entre 5 e 10 anos e para além de 10 anos é o muito longo prazo. Mas há quem siga definições diferentes e eu não posso discordar delas. Este é o meu critério e como foi a mim que Você perguntou, pois aí tem. Jornalista – Portanto, concorda com uma conversa que gire em torno de temas correntes, ou seja, no curto prazo? Economista – Sim, concordo mas os assuntos correntes podem referir-se a temas estruturais. Se num dado momento a discussão corrente for sobre a Constituição Europeia, nós não vamos passar ao lado só porque se trata de um tema estrutural. Jornalista – Claro, claro. Então ainda bem que lhe chamamos “Conversa fiada”. Vem com o fio dos acontecimentos e das notícias. Economista – Olhe: a propósito da Constituição Europeia, não tardará muito que a rainha de Inglaterra fique equiparada a Chefe da Repartição Britânica dos assuntos europeus e se até agora tinha um papel apenas simbólico, a partir de então até o simbolismo se há-de esvair. Os Estados europeus vão-se dissolver na letra da Lei enquanto que até aqui isso sucedia escamoteadamente, pela calada dos corredores de Bruxelas. Convenhamos que tudo passa a ser mais verdadeiro. Só que num sentido que eu considero altamente pernicioso. E quantos europeus pensarão como eu? Quem vai referendar o processo da dissolução política dos Estados? Jornalista – E acha que cada país deve fazer o seu referendo? Economista – Não, acho que deve ser feito um referendo único à escala europeia com os cidadãos de todos os países a votarem universalmente para um único resultado global. Jornalista – Acha que isso é mais correcto? Economista – Eu acho horrível mas os europeístas é que devem obrigar-se a um mínimo de congruência. Não querem a Europa unida? Então unam-na até às últimas consequências e façam as votações europeias à escala respectiva com sufrágios universais e directos sem qualquer tipo de ponderação país a país. Ou será que o voto de um alemão vale mais que o homólogo de um luxemburguês ou de um checo? Não somos todos iguais perante a Lei? Então se temos obrigações iguais, também temos que ter direitos iguais. Jornalista – E o que é que daí pode resultar no que se refere ao referendo da Constituição Europeia? Economista – Ah! Isso eu não sei mas é tudo uma questão de congruência. Então querem a união para umas coisas e a desunião para outras? Jornalista – Mas o projecto de Constituição não tem nada que lhe agrade? Economista – Ah! Tem, sim. Gosto muito do artigo 59º. Jornalista – Que trata de quê? Economista – Da “Saída voluntária da União”. Jornalista – E não concorda com a recente ideia francesa de referendar a adesão da Turquia? Economista – Mas é claro que concordo. Jornalista – Então são os franceses que vão decidir o futuro dos turcos? Economista – Sim, os franceses têm toda a legitimidade para se pronunciarem sobre a adesão turca. A questão é a de que não deviam ser só os franceses a referendar a entrada da Turquia mas sim todos os cidadãos europeus. A pergunta deve ser colocada como nos Clubes: cada candidato a sócio tem que ser aceite pelos membros do Clube; se tiver uma bola preta, não entra; só entra se tiver apenas bolas brancas. Claro que não íamos exigir que todos os europeus aceitassem a adesão turca; bastava que a maioria o fizesse. Mas todos se deveriam pronunciar no mesmo dia sobre a mesma pergunta e em votação directa, universal e não ponderada à semelhança do que deveria passar a ser o Referendo Europeu. Jornalista – Mas isso não é equiparar a Europa a um Clube? Economista – E não é? Mas se isso lhe faz confusão, então equiparemo-la a uma Sociedade. Será que eu tenho que admitir qualquer sócio na minha sociedade ou tenho o direito de convidar quem eu muito bem entendo? Jornalista – Se a sua sociedade estiver cotada em bolsa, vai ter que admitir todas as pessoas que comprem títulos. Economista – E é por isso que tantos se dedicam à blindagem estatutária. Jornalista – Mas, afinal, o que pensa da adesão turca? Economista – Se o objectivo é conduzir a UE à implosão ou ao desmembramento, então acho muito bem que a Turquia adira e que o faça já e sem condições especiais; se o objectivo é preservar a UE, então acho que a Turquia ainda tem que esperar muito para reunir as condições necessárias à adesão. Jornalista – Que condições? Economista – Culturais. Jornalista – Mas não acha que o adiamento da adesão pode provocar problemas graves na Turquia? Economista – Admito que isso possa suceder mas também não posso esquecer que a génese cultural turca é o islamismo, ou seja, inimiga tradicional do cristianismo europeu. São civilizações diferentes que se têm antagonizado numa muito difícil vizinhança na bacia mediterrânica, conflito que agora extravasou para outras regiões do planeta. Jornalista – Então isso significa para si que a Turquia nunca entrará na UE? Economista – Admito que assim possa suceder. A menos que . . . Jornalista – . . . a menos que . . .? Economista – . . . ressuscitem Mustafá Quemal, Atatürk. Jornalista – E isso o que é que significa? Economista – Uma segunda volta de laicização. Jornalista – Mas a Constituição turca proíbe os Partidos de inspiração religiosa . . . Economista – . . . de um modo tão eficaz que o actual Primeiro Ministro lidera um Partido de expressa inspiração islâmica, a mulher dele usa véu e o Parlamento acaba de votar uma Lei que radicaliza as disposições sobre a infidelidade matrimonial, feminina, claro. Jornalista – E com o adiamento não se corre o risco de uma ainda maior radicalização? Economista – Talvez. Mas isso vem confirmar que o problema é civilizacional. E digo-lhe mesmo mais: não acredito que as sociedades islâmicas estejam em condições de poderem ter uma democracia à nossa imagem e semelhança. Jornalista – O quê? Não acha essa uma ideia escandalosa? Economista – O escândalo está na permanente insistência do clero islâmico no sentido de dominar a população à semelhança do que sucedia na Europa durante a Idade Média. E para isso conta com o apoio dos feudalistas que pululam por todas aquelas paragens. Jornalista – Mas então como se resolve isso? Economista – Com um regime autocrata, laico de inspiração castrense. Jornalista – Uma ditadura? Economista – Um regime que inspire temor ao clero tanto sunita como xiita e que promova a constituição duma grande e preponderante classe média culturalmente capaz de se integrar no mundo moderno. Jornalista – Parece que vou ter que respirar fundo durante uns momentos para digerir essa sua opinião. Economista – Então, enquanto Você respira fundo, eu vou tomar um café. Uma italiana, de preferência. Lisboa, Outubro de 2004 Henrique Salles da Fonseca

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