Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A bem da Nação

E se nós fizéssemos um clube?

 

 

        Intima-me o engenheiro António Félix da Cruz a enviar-lhe um artigo sobre o mesmo assunto de um que publiquei num dos últimos números da Gazeta das Aldeias: “Os clubes agrícolas para a juventude”.

 

Resolvi, então, dirigir estas palavras não a ele, nem aos agricultores, mas sim a todos os rapazes e raparigas que vivem no campo, principalmente aos que têm contacto com a lavoura e seja qual for a sua categoria social.

 

Vim aqui exactamente para lhes dizer:

 

E se nos fizéssemos um clube?. . .

 

Mas não se trata dum clube de futebol ou de outro género semelhante. Trata-se, muito simplesmente, disto: um clube agrícola.

 

Estou mesmo a ver que vocês já estão a pensar:

- Mas que diabo quer ele que a gente faça num clube desses? Que andemos a brincar aos lavradores?

Pois é exactamente isso, ou, pelo meno s, uma coisa semelhante.

 

Desde que haja uma dúzia de rapazes e raparigas que queiram fazer alguma coisa, o clube já tem possibilidades de vida. Imaginemos, pois, que estão ao pé de mim esses dez ou doze jovens e que lhes tenho que explicar o que é e como vai ser o nosso clube.

 

Como regra, é conveniente que não pertençam ao clube os homens já feitos, assim como não parece lógico que façam parte dele crianças de mama. Parece-me que dos 10 aos 20 anos é uma idade boa.

 

Vocês, no vosso clube, vão fazer coisas tal e qual como se fossem pequenos lavradores mas, lembrem-se! os trabalhos são para ser feitos pelas vossas próprias mãos.

 

Claro que têm que aprender, mas já tratamos disso.

 

A primeira coisa é arranjar onde exercer a “actividade”. De quase todos vocês o pai é lavrador. Não será fácil conseguir que ele lhes empreste um talhão para cultivarem? Pensará, naturalmente, que são uns metros quadrados de terreno deitados fora mas... talvez não. E os produtos que conseguirem colher nessa horta podem vendê-los... à própria família. O que pode suceder é o pai depois exigir o "aluguer” do terreno, mas uma “lavoura” tecnicamente bem montada deve dar para isso...

 

Para os outros, os que não têm à mão um terreno, é preciso arranjar qualquer coisa... Espera! Estou-me a lembrar agora daquele bocado de chão mesmo junto a escola, que pertence ao Joaquim da Silva. Ele nem cultiva aquilo, não lhe faz falta nenhuma, de forma que talvez não se importe de o emprestar dizendo-se para o que é. E até os miúdos da escola, nos intervalos, são capazes de dar uma ajuda.

 

As raparigas ? Pois claro que também! Um sacho e um ancinho não fazem mal a ninguém. Estragam o verniz das unhas ? Deixem lá isso! Lavrem-nas bem, depois do trabalho e digam-me se até não ficam mais bonitas. E que diriam a fazer também umas compotazinhas saborosas no tempo em que a fruta é barata? Hein? Já havia sobremesa para o jantar de confraternização dos sócios do clube...

 

Tu, que tens aquele quintalório junto à casa podes construir ali um cortelho higiénico (não és agora capaz de fazer de pedreiro!...) e criar um porquito.

 

Se o teu tio fosse capaz de nos emprestar aquele barracão onde não costuma ter nada, a gente fazia ali uma sede toda catita. Podíamos pôr lá um armário que seria o início da nossa biblioteca. Faziam-se ali as reuniões, discutiam-se os problemas, aprendiam-se as coisas necessárias para os trabalhos, guardavam-se os relatórios, etc. Vê lá se consegues isso... com um bocado de diplomacia...

 

Vocês já calcularam o que podem aperfeiçoar-se com uma coisa deste género? Pensem que uma geração tem o dever de ser sempre melhor que aquela que passou; só assim podemos, de facto, provar que somos diferentes dos outros animais.

 

Preparem-se para que, quando tomarem o vosso lugar ao leme deste grande barco que é a Agricultura, no render da guarda duma geração a outra, possam caminhar mais velozes e com maior segurança por terem mais conhecimentos que aqueles que vos precederam e que tão galharda e honradamente souberam cumprir o seu dever e que, se mais não conseguiram foi porque não lhes deram melhores oportunidades.

 

É verdade! E o ensino, a orientação para todos esses trabalhos? Já me ia esquecendo…

 

Olhem, como vocês são todos aí do concelho de Óbidos, vão ter com o engenheiro agrónomo António Félix da Cruz. Tenho a certeza de que ele lhes dará todas as indicações e terá muito orgulho em apresentar, dentro em pouco, o primeiro clube agrícola de Portugal.

 

 Miguel Mota

 

Nota do autor

– Este artigo foi publicado há 64 anos (“Óbidos Agrícola” nº 28, de 15 de Junho de 1948) mas, infelizmente, continua actual.

 

1 comentário

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D