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A bem da Nação

OS CLUBES AGRÍCOLAS PARA A JUVENTUDE

 

 

Em todos os trabalhos e projectos de assistência técnica à Lavoura tem-se pensado, até aqui, duma maneira geral, apenas no aperfeiçoamento dos adultos.

 

Os actuais organismos só visam - e mesmo assim muito pouco para o que seria necessário - o agricultor já feito, em muitos casos um homem idoso a quem a inércia natural dos anos não predispõe para as inovações.

 

No capítulo do aproveitamento e aperfeiçoamento das massas de jovens, praticamente não se fez nada. Todavia, serão eles os agricultores de amanhã, dentro de alguns anos estarão à frente das explorações agrícolas e, provavelmente, mostrarão a mesma ignorância e o mesmo espírito que seus pais.

 

Acusa-se - nem sempre com justiça, diga-se de verdade - o nosso agricultor de rotineiro, pouco progressivo, conservador em extremo. Abstraindo os muitos casos em que o é porque ainda não lhe mostraram convenientemente as vantagens dos novos processos, se não prepararmos os jovens dentro dum espírito diferente, se não começarmos a trabalhar com eles quando as energias da juventude são capazes de operar milagres, fatalmente, com o correr dos anos, eles virão fornecendo sempre o mesmo contingente de rotineiros, tal como os seus antecessores.

 

E, creio que é sabido, é dos novos que mais facilmente se conseguem as energias necessárias a qualquer iniciativa. O espírito jovem, sempre aberto às novidades, não tem ainda as ideias depositadas por umas dezenas de anos, como no caso dos agricultores mais idosos.

 

Mas acredita-se tão pouco, em Portugal, nos novos, há a ideia feita de que só dos quarenta anos para cima um homem está apto a qualquer coisa, que não admira que, no caso da agricultura, isso tenha sido tomado em absoluto.

 

E, no entanto - assim o julgamos - é um erro e erro muito grave.

 

Os países que acreditam na juventude - certamente não são os latinos... - há muito puseram em prática o desenvolvimento da juventude agrária. Mais ainda: têm-na aproveitado como alavanca para actuar na família e obtêm resultados surpreendentes. Os Estados Unidos iniciaram há mais de trinta anos os clubes dos 4 H; em Inglaterra há os Young Farmers Clubs; o Brasil tem os seus Clubes Agrícolas; e a pequena República Dominicana, em 1945, tinha 159 Clubes Agrícolas com 9.287 sócios.

 

Em Portugal, isso é praticamente desconhecido. Que ideia tão absurda pretender qualquer coisa do trabalho de crianças!.. .

 

E, contudo, o povo diz: “o trabalho do menino é pouco, mas quem não o aproveita é louco”.

 

Porque temos sido até agora verdadeiramente loucos sob esse ponto de vista, sem sequer verificar o quanto isso nos prejudica para o futuro, urge arrepiar caminho, olhar de frente o problema e atacá-lo a fundo.

 

Porque o modelo americano é, talvez, o que, por ter mais experiência e ser mais bem conhecido, pode fornecer mais úteis indicações, vale a pena dizer alguma coisa a seu respeito.

 

Os Clubes 4-H, organizados pelo Ministério da Agricultura dos Estados Unidos, têm esse nome das iniciais das quatro palavras “head”, “heart”, “hands” e “health” (cabeça, coração, mãos e saúde) que são o lema do tais colectividades.

 

Fazem parte dos Clubes 4-H jovens rurais de ambos os sexos, de 10 a 20 anos de idade. São dirigidos e orientados pelo agrónomo do concelho (“county agent”) ou os seus assistentes, e o seu trabalho abrange um plano vasto e variado.

 

A actividade principal destes jovens exerce-se nas suas próprias casas, onde elaboram projectos para a exploração das quintas, cuidam da criação, aprendendo as noções fundamentais para isso, tratam dum jardim ou duma horta, etc. As raparigas aprendem e executam trabalhos de fiação ou tecelagem, a confecção de conservas, a preparação perfeita de refeições, etc., nos quais são dirigidas pelas “home demonstration workers” (demonstradoras).

 

Enfim, rapazes e raparigas aprendem, na idade em que essa aprendizagem é mais fácil e em que o entusiasmo abunda, a serem mais tarde homens e mulheres capazes de aproveitar os recursos postos à sua disposição e, assim, contribuírem para a melhoria do nível de vida do país.

 

Como deverá realizar-se o movimento agrícola da juventude em Portugal?

 

Em primeiro lugar faltam-nos os agrónomos concelhios, que consideramos a mola real do progresso da agricultura. Com esses elementos, a tarefa simplificava-se. Podemos, contudo, principiar pelos concelhos onde eles existam, embora sejam bem poucos.

 

Sempre que num pequeno núcleo rural haja a possibilidade de fundar e dirigir um clube agrícola, procurar fazê-lo.

 

Que se necessita para isso?

 

O técnico deverá, primeiro que tudo, procurar interessar no assunto os lavradores e os rapazes e raparigas da região. Uma palestra, uma reunião, qualquer coisa, enfim, pode servir de ponto de partida.

 

Para sede inicial do clube - que convém que exista - serve qualquer pequena dependência que um lavrador ou organismo possa emprestar. Caso não seja possível obtê-la dessa forma, não custará caro o aluguer.

 

Todos os filiados deverão pagar uma quota, excepto os reconhecidos como pobres, que poderão ficar isentos. Para a execução dos trabalhos administrativos, de organização, etc., deverá ser escolhida, entre os filiados, uma direcção que se encarregara de os efectuar.

 

Sendo possível obter, por cedência ou empréstimo, alguma ou algumas parcelas de terreno, será esse terreno trabalhado pelos sócios, revertendo a receita para os cofres do clube. Quando haja grandes agricultores, não é, em geral, difícil obter campos para treino e ensaio, assim como máquinas agrícolas.

 

O agrónomo efectuará no clube uma reunião semanal, por exemplo, com todos os sócios, discutirá os casos apresentados, sugestionará outros, apreciará os trabalhos já efectuados, fiscalizará os actos da direcção, etc.

 

Será do máximo interesse que cada clube possua uma biblioteca e, quando possível, pequenos campos e salas de jogos. A realização de excursões a centros de estudo e investigação ou simples digressões a regiões diferentes são muito úteis e podem constituir motivo para relatórios onde se fixará melhor o que se viu e aprendeu.

 

A pouco e pouco, os membros mais velhos do clube podem ir servindo de instrutores para os mais novos e até para óptimos auxiliares do agrónomo regional quando haja que fazer demonstrações aos lavradores.

 

Numa fase mais progressiva, um clube agrícola ideal será constituído por uma quinta modelo, terá sede própria, onde, a par dos conhecimentos que é necessário ministrar, se atenderá à parte recreativa, orientando esta o melhor possível e conseguindo sempre que os filiados aprendam brincando, terá salas de biblioteca, será equipado com máquinas de cinema ou simples lanternas de projecção, poderá, inclusivamente, ter posto médico, etc., etc.

 

O financiamento de tudo isto pode ser o mais variado possível.

 

No início quase não exige nada. As quotas e a boa vontade suprirão tudo. A pouco e pouco podem ir interessando-se no assunto diversas pessoas, os Grémios da Lavoura devem contribuir fortemente, os organismos oficiais e corporativos também pelos meios ao seu alcance, os rendimentos dos terrenos, quando os haja, etc. A Mocidade Portuguesa, como Organização Nacional que é, teria papel importante a desempenhar, especialmente na parte desportiva.

 

Enfim, a fantasia tudo permite supor agora, mas, estamos certos, seria sempre ultrapassada pelos factos desde que a iniciativa e o entusiasmo do técnico e dos rapazes e raparigas o quisessem.

 

Neste, como em muitos outros sectores da assistência técnica à Lavoura, estamos hoje, mais que ontem, capazes de actuar. Mas o passo, por vezes pequeno, que falta, teimamos em não o querer dar.

 

 

 Miguel Mota

 

Nota do autor: Este artigo foi publicado há 64 anos ("Gazeta das Aldeias", 53.º Ano, N.º 2135, 16 de Maio de 1948) mas, infelizmente, continua actual.

 

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