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A bem da Nação

Conversa fiada – 3ª parte


Resumo da 2ª parte: Kant e al-Wahhab foram contemporâneos e apontaram caminhos totalmente opostos para as respectivas civilizações com os europeus a seguirem o iluminismo e os islâmicos a praticarem o obscurantismo; os fundamentos do radicalismo islâmico são historicamente anteriores à problemática do petróleo; a guerra no Iraque é uma consequência da filosofia islâmica e um erro da pontaria americana; os actuais preços inflacionados do petróleo são especulativos, destinam-se a pagar as despesas da guerra no Iraque e nada têm a ver com aumentos da procura.



Jornalista: - Acho que desta vez vamos falar menos dos árabes . . .
Economista: - Muito bem, falaremos doutras coisas mas chamo a atenção para o facto de haver inúmeras questões da maior relevância que estão dependentes da política energética e, essa, está quase monopolizada pelo petróleo. Apesar de tudo, os árabes continuam a ter uma importância de primeira grandeza no mundo energético. Mas, está bem, deixemos os árabes em paz; assim eles o façam também connosco . . .
Jornalista: - Acredita na possibilidade de Portugal vir a produzir energia nuclear?
Economista: - Acredito e desejo!
Jornalista: - Não teme as consequências ambientais?
Economista: - O que tinha a temer já temi.
Jornalista: - Pode explicar?
Economista: - A poluição espanhola da central atómica de Sayago vem direitinha ao Douro e nós andamos à procura de pretextos para não construir barragens hidroeléctricas por causa duns bonecos quaisquer que já deviam ter sido trasladados para outro lugar à moda de Abu Simbel. Temos o pior dos dois mundos: poluição atómica causada pelo nosso incómodo vizinho estrangeiro e ecologistas militantes nacionais disfarçados de historiadores que nos têm impedido de recorrer a um dos raros recursos energéticos de que dispomos. E como ser ecologista está na moda, nada do que esses cavalheiros digam pode ser contrariado sem que corra grande alarido a favor dos passarinhos que tanto nidificam ali como noutro lado qualquer.
Jornalista: - Mas acha que a barragem de Foz Côa deve ser construída?
Economista: - Sim, acho que a barragem de Foz Côa deve ser construída imediatamente mas também aceito que os bonecos trogloditas sejam trasladados para um museu a criar na região, uns metros mais alto.
Jornalista: - E a albufeira não vai provocar estragos significativos na fauna e na flora?
Economista: - A capacidade regenerativa da Natureza é muito maior do que a apregoada e se houver preparação e ajuda para uma aceleração dessa recuperação, então tanto melhor. Eu sou dos que pensam que essas obras – as pontes, as barragens, etc. – têm um impacto ambiental ultrapassável e a missão inultrapassável de servir o homem.
Jornalista: - Mas há danos irremediáveis.
Economista: - Como por exemplo?
Jornalista: - A extinção de espécies.
Economista: - Para além das figuras trogloditas, haverá no vale do Côa alguma espécie única?
Jornalista: - Não sou especialista na matéria para poder informar . . .
Economista: - Eu também não sou especialista nesse género de assuntos mas nunca ouvi falar que houvesse por ali algum gafanhoto especial.
Jornalista: - Está claramente a desprezar a ecologia . . .
Economista: - A ecologia não é desprezável; os exageros dos ecologistas é que o são quando põem em pé de igualdade o interesse do homem e o das espécies animais, muitas delas migrantes.
Jornalista: - Mas se não fossem esses ecologistas, também nunca se teria combatido o buraco do ozono . . .
Economista: - Ah! sim, o tal que aumenta e diminui a toda a hora sem que alguém explique as reduções. Já reparou que só encontraram explicação para o aumento do buraco? E as reduções? O que é que se passava há 300 ou 400 anos? E há 50? Eu acredito que não há antiguidade de registos das dimensões do buraco suficientes para se poder fazer história e começar a relacionar factos. Temo que tudo não passe de meros palpites com força de lei mas sem quaisquer argumentos probatórios a favor ou contra as práticas humanas, nomeadamente as de índole industrial. Nunca me esqueço de Haroun Tazieff – que foi Ministro do Ambiente em França e se notabilizou na vulcanologia – que sobre esse buraco dizia “on trompe le public”.
Jornalista: - Em que sentido?
Economista: - No sentido de que o hemisfério Norte esteve até há pouco tempo num processo de arrefecimento global.
Jornalista: - O contrário do que se diz?
Economista: - Exacto, o contrário do que se diz. Nada melhor do que ler um livrinho muito fácil de consultar que se chama “A verdade sobre o efeito estufa” que foi escrito por um ecologista francês de nomeada chamado Yves Lenoir que nos primeiros Governos de François Miterrand foi Adjunto do então Ministro do Ambiente Brice Lalonde.
Jornalista: - Para concluir que . . .
Economista: - . . . a história está muito mal contada.
Jornalista: - Mas então, o que propõe?
Economista: - Proponho três coisas muito simples: 1ª - Aos ecologistas que estudem, estudem, estudem e criem uma Ciência credível; 2ª - Aos políticos que reconheçam à Indústria o direito de se defender do ambiente que a rodeia; 3ª - A todos, que não sobrevalorizem os gafanhotos em relação aos homens.
Jornalista: - A Indústria defender-se do ambiente que a rodeia?
Economista: - Claro, é um direito básico e que não consta dos manuais em vigor.
Jornalista: - Pode explicar?
Economista: - Sim, posso, apesar de já o ter feito em vários lugares. É mais um.
Jornalista: - Desculpe o pedido de repetição.
Economista: - Nunca é demais repetir que a Indústria é uma actividade humana. Duvida?
Jornalista: - Não, claro que não.
Economista: - Hoje, todos sabemos que a Terra é uma nave espacial a que estamos “agarrados” sem alternativa pragmática e não podemos sujar indiscriminadamente a nave que habitamos sob pena de nos afogarmos no lixo que produzimos. Tudo isto já é axiomático e não vale a pena discutir. Mas a Indústria é constituída por pessoas e tem como objectivo a satisfação de necessidades humanas nas suas legítimas ambições de conforto pelo que é fundamental que trabalhemos da forma mais limpa que for técnica e economicamente possível. Deste género de preocupações resulta directamente o conceito da reciclagem.
Jornalista: - Os 3 R’s: reduzir, reciclar, reutilizar.
Economista: - A reutilização é um erro flagrante mas já lá vamos daqui a bocado. Estava eu a dizer que há uma consciencialização progressiva para a necessidade de preservarmos o Ambiente e é louvável que já tenhamos alcançado esse nível de preocupações. Mas não podemos esquecer o perigo de sacrificarmos tudo e todos à higiene asséptica e de tanto querermos viver num ambiente tão impecavelmente limpo, acabarmos por não poder fazer seja o que for e ficarmos com as necessidades humanas de conforto por satisfazer. Os tais trogloditas do vale do Côa viviam num ambiente muito puro. É isso que desejamos para nós? Eu, não!
Jornalista: - Sim, creio que será unânime a rejeição de um estilo de vida desse primarismo.
Economista: - Então, temos que combater essa militância ecologista contra a Indústria e parar com os exageros que a lei actual consagra.
Jornalista: - Como por exemplo?
Economista: - Sabe que uma empresa industrial pode ser obrigada à deslocalização para não incomodar as pessoas que vivem à sua volta?
Jornalista: - Sim, sei.
Economista: - Mas essas pessoas vivem à volta da fábrica porque eles próprios ou os seus antepassados lá trabalham ou trabalharam e não se queixaram quando construíram as casas bem junto do local de trabalho. Portanto, a iniciativa da implantação foi da fábrica mas agora é ela que tem que zarpar para que quem a seguiu possa ficar longe. E o processo há-de repetir-se indefinidamente nos novos locais para que as fábricas forem e assim sucessivamente. Andam a brincar com a Indústria, não andam? É por isso que eu acho que as fábricas devem poder ter uma palavra a dizer sobre as urbanizações que se planeie para as suas redondezas. Já parece o caso do novo aeroporto de Ota. Mas acho mais coisas . . .
Jornalista: - Como por exemplo?
Economista: - Que as empresas não devem ser obrigadas a comprar o último grito dos equipamentos ditos de combate à poluição se eles tiverem custos excessivos.
Jornalista: - Mas não é assim?
Economista: - Não, a legislação é cega para a questão económica e isso é completamente imperdoável. Assim, quando o último industrial comprar um certo protector ambiental, logo os fabricantes desses equipamentos hão-de dizer que agora já há um mais moderno e o circuito é retomado de modo a todos terem que deitar fora o que haviam comprado e passarem a comprar os novos protectores.
Jornalista: - Mas isso é um sem-fim . . .
Economista: - Eu prefiro chamar-lhe uma vergonha para o legislador.
Jornalista: - Então como é que se devia fazer?
Economista: - Legislar no sentido de que a Indústria é obrigada a equipar-se com protectores ambientais da melhor técnica disponível a custos económicos.
Jornalista: - E quem é que deve definir o que é o melhor a preços razoáveis?
Economista: - Já existe o grupo de especialistas europeus nessa matéria e está sedeado em Sevilha. Não sei se são grandes especialistas pois a ecologia ainda tem muita credibilidade para provar. É o chamado “grupo das sevilhanas”.
Jornalista: - Concorda que façamos agora um pequeno intervalo?
Economista: - Concordo mas em vez do café habitual, aproveito para ouvir um flamenco.

Lisboa, Outubro de 2004.

Henrique Salles da Fonseca

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