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A bem da Nação

CHÉCIA – 3

 

 

O LOBO E A SUA PELE

 

 

“Se não queres ser lobo, não lhe vistas a pele”. Foi deste nosso ditado que me lembrei ao longo do cruzeiro fluvial que fizemos no Moldava com um jantar em buffet relativamente bem servido mas com bebidas pagas à parte.

 

Desconheço totalmente o regime aplicado aos guias turísticos no que respeita ao jantar e às bebidas mas o nosso – velhote simpático que afinal era 5 anos mais novo que eu – contou-me coisas que de certeza não estão incluídas nos manuais que lhes compete seguir. Sim, não o vi comer mas vi-o beber e isso transformou-se num rol de informações de que só a minha mesa usufruiu pois estava sentado ao meu lado e confessou que acabara de perder a paciência para contar histórias aos clientes das mesas mais afastadas. E como a minha mulher estava a «fazer sala» às duas americanas, nossas companheiras de mesa, que não deixavam de olhar para a cidade passante nas janelas do barco, as informações «ex-vino» ficaram só para mim. Conto-as agora...

 

Nascido na terra de Kafka, a «old town» de Praga, frequentou todos os graus de ensino até se licenciar em engenharia electrotécnica mas pouco depois de começar a trabalhar, concluiu que a sua especialidade de som era, afinal, de barulho; mostrou insatisfação e, amigo de gente muito metida no Partido, foi-lhe sugerido que saísse do país para não ir preso. Foi para França onde acabou por trabalhar como engenheiro de som só regressando à Checoslováquia em 1990, caído o comunismo. Resumindo, tem que deitar mão a este tipo de serviços para poder viver dado o negócio do som não estar florescente numa cidade com relativamente poucas novas construções e em que as emissoras de rádio e TV e as editoras discográficas têm (diz ele) os seus próprios quadros técnicos.

 

E o que me contou ele? Disse-me que durante toda a instrução primária e secundária teve que cantar diariamente um hino marcial contra os imperialistas e contra a Igreja, contra a burguesia ociosa e em louvor da classe operária. Mais me disse que no comunismo (ele nasceu em 1949, já em plena era soviética) tanto fazia trabalhar muito como trabalhar pouco ou nada que o ordenado era o mesmo e que só a militância política contava para efeitos remuneratórios. Quem não pertencesse ao Partido «estava à pega». Curiosamente, citou uma frase que lhe repetiam amiúde e que uma outra guia turística proferiu três ou quatro vezes no city tour que fizemos daí a dois dias: “Agora não temos reis, rainhas nem nobreza; temos apenas o povo que é quem governa”. Só que o velhote do barco citava a frase como um slogan comunista que ele considerava nivelamento social por baixo enquanto a outra guia (claramente comunista de que falarei noutra crónica) proclamava o ditto como um triunfo revolucionário.

 

E esta é uma fractura muito significativa na actual sociedade checa: os saudosos do regime que lhes permitia sobreviver sem esforço e os retornados do exílio que, conjuntamente com a juventude nascida já depois da queda do comunismo, optam pela democracia do tipo ocidental; os saudosos da ordem imposta pelo Partido único que se queixam do excesso de liberdades e os que consideram a liberdade um conceito unicitário, não fragmentável; os que tout court se queixam de pagar impostos e os que tentam moldar as políticas para que se possa ter alguma redução da carga fiscal; os que se queixam de «ter que dar o litro» num emprego que os alimente e os que sabem que o trabalho é um bem a estimar. Pena tive eu de esquecer a frase em inglês que ele usou cuja tradução retive como «de um lado os madraços, do outro os verdadeiros trabalhadores».

 

A certa altura do cruzeiro passámos por um edifício branco mesmo à beira rio, na margem direita, oposta à do palácio que alberga o gabinete do primeiro-ministro e, sem esperar que eu lhe perguntasse do que se tratava, logo afirmou que era uma mini hidrica construída pelos comunistas para fornecimento de electricidade à sede do Comité Central (onde actualmente funciona o primeiro-ministro) em caso de ataque militar imperialista às outras centrais eléctricas. Essa mini hídrica forneceria também energia aos bunkers situados por baixo dessa mesma margem do Moldava onde se deveriam refugiar os militantes do topo da hierarquia do Partido. Seria assim mesmo?

 

Contudo, foi o bloco soviético que encheu as bocas do mundo com parangonas a favor da paz. Não há dúvida, quem não quiser ser lobo que não lhe vista a pele e todas estas precauções só podiam indiciar uma mentalidade beligerante que nada tinha a ver com a propalada paz mundial.

 

E sendo tudo verdade – mesmo com algum desconto de um copito a mais bebido pelo simpático velhote cinco anos mais novo que eu – será que tudo isto ruiu porque lá foi o Dr. Mário Soares participar na revolução de veludo?

 

Lisboa, Janeiro de 2013

 

 Henrique Salles da Fonseca

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