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A bem da Nação

CRÓNICA DE LISBOA – 3




Existe na língua portuguesa uma regra que anda muito esquecida desde que entraram em funções em Estrasburgo ou Bruxelas os tradutores oficiais do Jornal Oficial das Comunidades Europeias. Trata-se daquela que diz que no plural das palavras compostas só o primeiro termo é colocado no plural e o seguinte se mantém no singular. Por exemplo, em português correcto, o plural de “Estado membro” é “Estados membro”, o de “máquina ferramenta” é “máquinas ferramenta”, um “primeiro ministro” e dois “primeiros ministro” e assim por aí a diante. Claro que há excepções e essas resultam de particularidades do próprio singular da expressão. Quando a um “apara lápis” quero juntar outro, fico com dois “apara lápis”; o mesmo se diga de “saca rolhas” que mantém a forma plural em relação ao singular porque um dos termos da palavra composta na forma singular já se encontra no plural.

A confusão dos tradutores advém do facto de terem inicialmente sido recrutados dentre qualquer profissão de nível universitário mas não especificamente dentre quem pudesse provar que sabia o que ia fazer, ou seja, traduzir para português os textos legais cuja redacção inicial fora em francês. É que se os tradutores soubessem o que andavam a fazer, também saberiam que essa regra não existe em francês em que no plural das palavras compostas todos os membros passam ao plural: “états membres” como plural de “état membre”, “matières premières” para o de “matière première”, etc. Curiosamente, em inglês existe uma regra parecida com a portuguesa: one “raw matherial”, two “raw matherials”; one “member State”, two “member States”, one "prime minister", two "prime ministers"; one “machine tool”, two “machine tools”.

Claro que nós, os portugueses que não somos tradutores oficiais e vivemos num clima relativamente benigno e declaradamente temperado, temos um espírito de humor mais agudo do que quem tenha que ganhar a vida com missão tão enfadonha como essa de traduzir os conceitos que outros inventaram e, ainda para cúmulo, vivendo num Inverno quase permanente. Então, quando um ex-primeiro




ministro português se referiu às “matérias primas”, logo houve quem recordasse a confusão que se estabeleceu enquanto Michelangelo pintava a vaticana Capela
Sistina em que alguém, referindo-se às “obras primas” do Mestre, logo teve que esclarecer se não estava a confundir-se com as primas do mestre de obras. A História registou por omissão que o Papa Júlio II não teve que intervir para esclarecer a confusão e, mais importante ainda, não assinou nenhum Breve que proibisse os portugueses de possuírem as suas próprias regras gramaticais.

Lisboa, Maio de 2004


Henrique Salles da Fonseca

Publicado em Panjim, Goa, no “Lusofonia-Goa” em Junho de 2004

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