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A bem da Nação

Curtinhas CII

 

O cavalo do inglês - III

 

v      Chegados a este ponto duas questões continuam por responder:

-          Porquê uma estratégia que, se bem vejo, insiste em fazer tudo às avessas?

-          Haverá outro caminho, ou estarei aqui apenas a falar barato?

 

v      Não restam hoje dúvidas de que as nossas elites bem-pensantes, dos políticos, aos comentadores, passando por aqueles que entre nós cultivam com desvelo a dismal science, não foram tidos nem achados para o Programa de Ajustamento. “Tomem lá e cumpram à risca” foi o diktat da troika.

 

v      Aliás, um diktat que sacode a água do capote: (i) se tudo acabar em bem (vá-se lá saber por que bulas), honra e glória a quem nos ofereceu a mão salvífica; (ii) se tudo acabar, tout court, a culpa será, por inteiro, nossa (que, em alegre folia, nos metemos num beco sem saída). Para quem não entenda muito bem o que seja moral hazard, aqui está um bom exemplo (cortesia da troika).

 

v      Quer o destino, porém, que o Programa de Ajustamento vise algo que está muito para além de nós.

 

v      Visa, antes do mais, poupar os contribuintes alemães (e franceses) ao ónus de terem de ir em socorro dos seus próprios Bancos, caso a “trupe do Sul” deixe de pagar de vez. Para tal, os Bancos credores, na Alemanha (e outros espalhados um pouco pela Europa do Sacro Império), necessitam de tempo - pois não é de um dia para o outro que se reunem Capitais Próprios capazes de absorver os prejuízos que tão aziago evento lhes causaria.

 

v      Visa também fazer recair sobre os devedores compulsivos (melhor dizendo, sobre os seus contribuintes) todo o esforço de reequilibrar o sistema bancária da core Europe – deixando na sombra que por cada devedor imoderado há sempre um ou mais credores igualmente imoderados. Os proveitos da época das “vacas gordas” (1999-2009) serviram às mil maravilhas para abrilhantar os Balanços dos Bancos credores. Agora, os devedores (e os seus contribuintes) que se aguentem com os custos das “vacas magras”.

 

v      E visa ainda mutualizar (sim, mutualizar!) os prejuízos, caso a crise não tenha mesmo remédio.

 

v      Despido da retórica financeiramente correcta, todo o discurso de Frau Angela (e de Herr Schauble e de Herra Olli Ilmari Rehn) é um monumento ao moral hazard:

-     A Alemanha tem de ganhar tempo, custe o que custar;

-     Os Bancos alemães (e todos os Bancos com epicentro na Banca alemã; os Bancos finlandeses nada têm a ver com isto) devem ser poupados o mais possível às consequências da sua insensatez;

-     Há que repartir pela Zona Euro (primeiro, pelos contribuintes dos devedores compulsivos e, se não chegar, por todos os restantes contribuintes) o encargo de esvaziar a “bolha de dívida” que esses mesmos Bancos, gulosos, alimentaram - e com a qual se regalaram.

 

v        Está explicado o “porquê”.

 

v      Só agora, graças à crise, se começa a ter um vislumbre do que é e para que serve o Euro. Para aprofundar o Mercado Único, à la Delors?

 

v      Qual quê! A livre movimentação de bens, serviços (neste capítulo, ainda hoje se está nos primórdios) e pessoas passa bem sem uma moeda única e convive menos mal com o risco cambial. Eliminado este, a facturação das transacções comerciais transfronteiriças fica apenas mais facilitada. C’est tout.

 

v        A moeda única fez surgir, sim, um “oceano de liquidez” onde até então só existiam mercados financeiros nacionais que nunca conseguiriam rivalizar em dimensão e sofisticação com Wall Street.

 

v        A eliminação do risco cambial, por sua vez, tornou mais previsível a sorte dos empréstimos no interior da Zona Euro – sempre que se ignorasse o risco de crédito. Ora foi justamente pelo risco de crédito (a tal “bolha de dívida”) que o verniz estalou – e que os Bancos, quer os das economias com BTC excedentárias, quer os das economias com deficits externos estruturais, ficaram à beira do colapso.

 

v      A lógica de todo este esquema até era bem simples:

-     Na Zona Euro, as economias mais competitivas (a core Europe) impulsionavam as suas vendas ao exterior financiando a procura nas economias menos competitivas;

-     Os Bancos da core Europe reciclavam os superavits de BTC que aí se acumulavam ano após ano emprestando aos Bancos e aos Governos das restantes - que assim tinham maneira de estimular as suas procuras internas e de alardear uma aparência de progresso (Heil Euro!);

-     Os Fundos de Tesouraria norte-americanos financiavam os Bancos da core Europe para que os que daí exportavam recebessem a tempo e horas – e a Balança de Capital da Zona Euro não virasse os pés pela cabeça;

-     E a livre movimentação de capitais fazia, finalmente, o pleno (pelo menos em parte da UE) – em proveito das economias que se revelassem mais competitivas (e, desde logo, da Alemanha, apesar da rusticidade do seu sistema bancário).

 

v      Aconteceu que a crise financeira de 2007-2010 quase “secou” os Fundos de Tesouraria dos EUA. E quem primeiro lhe sentiu os efeitos foram, precisamente, os Bancos da core Europe - os quais, ao tentarem salvar a pele, fizeram desmoronar inadvertidamente a “pirâmide” em que a “bolha de dívida” há muito se tinha transformado.

 

v      É verdade que a core Europe levou tempo a perceber o trilema com que se confrontava:

-          Ou aceitava o colapso dos seus próprios Bancos – e veria as suas economias esfrangalharem-se e com elas toda a construção europeia que neles assentava;

-          Ou teria de pilhar os bolsos dos seus próprios contribuintes para recompor as coisas – sob o olhar algo displicente das economias excessivamente endividadas (a core Europe, ainda que se recusasse a reconhecê-lo, também estava bastante endividada, mas era fora da Zona Euro);

-          Ou tentava ganhar o máximo de tempo possível – e para tal teria de criar a ilusão de que os devedores compulsivos não iriam poupar-se a esforços e privações para começarem a pagar em tempo útil.

 

v      Mas a escolha está hoje à vista. Penalizo-me por não me ter apercebido disto tudo há mais tempo. (cont.)

 a. palhinha machado

DEZEMBRO de 2012

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