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A bem da Nação

O CINEMA COMO INSTRUMENTO DE DIVULGAÇÃO AGRÍCOLA

Alguns casos antigos

Se a palavra escrita, através dos livros ou das revistas de divulgação agrícola, é uma das bases principais da transposição para o agricultor dos conhecimentos criados pela investigação, o cinema é um complemento indispensável desse trabalho.

 

As imagens estáticas são transmitidas pelo homem desde há milénios. As gravuras de Foz Côa já eram uma forma de comunicação. Quando, há cem anos, foi inventado o cinema, o homem passou a poder transmitir aos outros imagens dinâmicas.

 

A imagem em movimento é uma excelente forma de demonstrar práticas agrícolas que só poderiam ser vistas, no campo ou no laboratório, por números restritos de pessoas. Além disso, o cinema vai mais longe nas suas possibilidades, pois permite repetir qualquer cena quantas vezes se desejar e apresentar em poucos minutos uma série de acções que, na realidade, estariam separadas no tempo e exigindo mais do que uma visita como, por exemplo, trabalhos realizados desde a sementeira à colheita. Permite, ainda, ver com aceleração ou ao retardador fenómenos que, à sua velocidade normal, seriam de difícil observação, por serem demasiado lentos ou demasiado rápidos, como a eclosão duma lagarta ou o lançamento espontâneo de sementes ou esporos. Finalmente, permite-nos ainda ver, com utilização da lupa ou do microscópio, fenómenos impossíveis de observar a olho nu.

 

Cedo isso foi aproveitado em Portugal para a divulgação agrícola. O Ministério da Agricultura foi o segundo (o primeiro foi o Ministério do Exército), em Portugal, a criar os seus Serviços Cinematográficos. Marcaram época os filmes realizados pelo primeiro encarregado desses serviços, o senhor Adolfo Coelho, que se notabilizou como realizador.

 

O Ministério da Agricultura produziu, a partir de então, uma quantidade muito grande de filmes agrícolas variados, de grande valor didático, muitos deles com assinalável qualidade artística. Esses filmes eram utilizados pela extensão como uma das suas ferramentas de trabalho e o único defeito que posso apontar - porque a extensão sempre foi fraquíssima, embora não tanto como actualmente, e estando sempre muito abaixo do que era necessário - é que os filmes não eram utilizados com a frequência que a sua utilidade justificaria.

 

Após a morte de Adolfo Coelho, dirigiu esses Serviços o Eng.º Agrónomo António Félix da Cruz, responsável pela realização de alguns filmes. Hoje esse sector é o Centro de Formação e Produção de Audiovisuais, dirigido pela Engª Isabel Almeida Martins, que produz diariamente, na televisão, o "Boletim Agrário".

 

***

 

Tínhamos pensado, se houvesse folga no programa, projectar alguns desses filmes. Contudo, por o programa estar totalmente preenchido, essa ideia teve de ser posta de parte. Está previsto fazer, talvez neste auditório, algumas sessões de cinema.

 

Em 1991 a Ordem dos Engenheiros - onde eu exercia então o cargo de Coordenador da Comissão de Especialidade de Engenharia Agronómica - promoveu, em colaboração com o Ministério da Agricultura e a Cinemateca Portuguesa, uma “Mostra Retrospectiva do Filme Agrícola Português”, com sessões durante três tardes seguidas.

 

Nessa mostra se apresentaram alguns dos melhores filmes existentes, entre os quais um que ficou famoso, “Flores - mundo de beleza”, dirigido pelo notável investigador que foi o Prof. Eng.º Agrónomo e Silvicultor Joaquim Vieira Natividade e pelo Eng.º Agrónomo António Félix da Cruz.

 

Os filmes apresentados nessa “Mostra” foram os seguintes:

 

No primeiro dia (3 de Julho de 1991), “Os toiros na faina agrícola ribatejana” (1939), “A vida do linho” (1942), “Aprenda a comer” (1945) e “O combate à praga dos gafanhotos” (1946), todos de Adolfo Coelho.

 

No segundo dia (4 de Julho de 1991), “Flores - Mundo de beleza” (1957), de Joaquim Vieira Natividade e António Félix da Cruz, “A floresta portuguesa” (1967), “Milho híbrido” (1971) e “Laranjas de Portugal” (1971), todos de António Félix da Cruz.

 

No terceiro dia (5 de Julho de 1991), “O sobreiro” (1959), de João Mendes, “Cooperativas agrícolas” (1970), “Horticultura moderna” (1972/73) e “Reconversão da vinha no Noroeste Português” (1972/73), todos de Alice Gamito.

 

Gostaria de ter apresentado um dos melhores, ainda de Adolfo Coelho, sobre a lagarta do sobreiro, a Lymantria dispar, mas tal não foi possível.

 

Quando quis fazer a “Mostra Retrospectiva do Filme Agrícola Português” era ainda Luís de Pina o Director da Cinemateca e bem se lembrava desse filme sobre a lagarta do sobreiro. Mas não existia na Cinemateca uma única cópia do filme e, quando indaguei no Ministério, contaram-me que tinha havido em tempos um incêndio e também já lá não havia qualquer cópia desse filme, pelo que não pôde ser apresentado.

 

Luís de Pina entretanto faleceu e à data da realização da “Mostra” já era Director da Cinemateca o antigo Subdirector, o Dr. João Bénard da Costa.

 

 

 

Para se fazer ideia do que era a categoria do filme sobre a Lymantria dispar, contarei algo que com ele se passou.

 

Quando, nos finais da década de 1940, Portugal aderiu ao Plano Marshal, vieram ao nosso País alguns altos funcionários americanos ver o que é que havia e o que é que faltava, para ajudarem a agricultura portuguesa. Viram, além de publicações de divulgação, que elogiaram - que nessa altura eram produzidas em maior quantidade e qualidade do que hoje - e viram os nossos filmes. Eram tão bons que do da Lymantria dispar pediram uma cópia. Tinham dois ou três filmes sobre essa matéria, na Califórnia, mas o nosso era muito superior.

 

Não temos em Portugal uma única cópia desse tão valioso filme, o que mostra a fenomenal inépcia dos portugueses perante a sua cultura.

 

Todos os técnicos agrícolas e os agricultores teriam vantagem em ver muitos destes filmes antigos. Se as técnicas evoluíram e, sob esse ponto de vista, são hoje obsoletos, muito do que mostram da biologia das plantas e dos animais, dos aspectos históricos e etnográficos da agricultura portuguesa e, até, da arte cinematográfica, são justificação suficiente.

 

Esta ferramenta maravilhosa, que exige quase sempre a colaboração entre pessoas da investigação e pessoas da extensão, é algo que nós devemos ter sempre em mente e utilizar com muito mais intensidade, para transformar a agricultura portuguesa numa actividade económica altamente produtiva.

 

 

Miguel Mota

 Presidente da Sociedade Portuguesa de Extensão Agrária

 Estação Agronómica Nacional e Universidade de Évora

 

Comunicação apresentada ao “II Simpósio Nacional sobre a Articulação entre a Investigação e a Extensão na Agricultura”, em Évora, em 23 de Janeiro de 1998

 

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