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A bem da Nação

A ESTÁTUA EQUESTRE DE D. JOSÉ

 

“Vocês sabem qual é a pata direita do cavalo de D. José? – Não??? – É a esquerda!”

 

Esta era uma brincadeira do meu tempo de menino, que nos obrigava a ir constatar o fato! Basta ir lá ver o dito cavalo!

 

Agora a Câmara de Lisboa mandou restaurar a estátua. Está lá há 237 anos, foi feita pelo grande artista Machado de Castro sob projecto de Eugénio dos Santos, o arquitecto que, junto com Carlos Mardel e sob a supervisão do engenheiro chefe, Manuel da Maia, projectou a Baixa de Lisboa, totalmente destruída pelo terramoto de 1755.

 

D. José não quis posar e o artista teve que recorrer a retratos. Para evitar diferença acentuada na parecença, baixou-lhe o capacete e deu-lhe uma cara de jovem... quando o rei estava já envelhecido. Como é óbvio, o Marquês de Pombal também quis ficar na estátua e lá está a cara dele bem na frente, num grande medalhão que, quando da sua morte e condenação foi de lá retirado, mas, recolocado em 1833!

 

Pronta, foi a estátua colocada no lugar onde ainda está, uns dias antes da inauguração, entretanto resguardada por cortinados de tafetá carmezim até 6 de Junho, quando o rei fazia 61 anos!

 

Estátua de D. José no Terreiro do Paço, Lisboa

 

Na noite da inauguração acenderam-se 28.000 luzes na Praça do Comércio, além das habituais.

 

Houve festas vistosíssimas nas salas da Junta da Casa dos Vinte e Quatro, na do Juiz do Povo, no Colégio de Santa Maria de Jesus, com concertos, discursos, recitações poéticas nas línguas grega, hebraica, arábica, inglesa, francesa que por fim eram traduzidas para português, porque...

 

No segundo dia vieram suas Majestades à Praça do Comércio ver passar o cortejo alegórico, com 8 carros triunfais, acompanhados de danças! Tão grandioso o desfile que durou a noite toda.

 

Na noite seguinte queimou-se vistoso fogo de artifício depois do que os monarcas passaram à Sala da Alfândega, sala com 223 palmos de comprido e 96 de largura, onde se sentaram na tribuna real para assistir a uma sonata cantada em italiano, L’Eroe Coronato.

 

Na sala imediata, iluminada com 1.200 luzes, fora preparada uma ceia descomunal e opípara, com lagos rodeados de flores onde “navegavam” miniaturas de todos os tipos de embarcações do rio Tejo.

 

Custou 100.000 cruzados, o que seria hoje algo como... 2.000.000 Euros.

 

Consumiram 226 arrobas de vaca, 118 de vitela, 112 de presunto, 39 de carneiro, 55 de bacalhau, 4 de toucinho, 459 galinhas, 170 perus, 26 peruas, 312 pombos, 18 perdizes, 4 porcos, além de 4.154 ovos, 24.725 pães, 5 barricas de azeitonas, 358 arrobas de açúcar, 13 de canela, 16 arráteis de baunilha, 954 canadas de leite e 624 arrobas de gelo para sorvetes! (Por favor multipliquem as arrobas por 15 e verão a bestialidade da despesa!)

 

E vinhos? Nacionais e estrangeiros custaram só o equivalente hoje a 100.000 euros!

 

E ainda se consumiram 2.292 barris de água!

 

Depois da ceia houve o baile, iniciado pelo Conde de Oeiras e a Embaixatriz de Espanha, e a Marquesa de Pombal com o Embaixador, só entrando nesta primeira dança as Senhoras de primeira Grandeza que não fossem solteiras!

 

No último dia repetiu-se a passagem do cortejo com os mesmos carros alegóricos e danças, à noite foi queimado mais um grandioso fogo de artifício e o importante capitalista Anselmo José da Cruz Sobral fez representar nessa noite, à sua custa, o drama musical O Monumento Imortal. Finda a representação foi servida mais uma esplêndida ceia, apresentada em ricas porcelanas da Saxónia.

 

El-Rei D. José por se encontrar doente e melancólico, olhou todas estas manifestações festivas com a maior indiferença e desprazer. Ano e meio depois... falecia!

 

É de esperar que na reinauguração da estátua, após a sua restauração, a CML não gaste tanto dinheiro... a menos que a UE financie!

 

26/11/2012

 

 Francisco Gomes de Amorim

 

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