Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A bem da Nação

O gato e o espelho

 

 

Fábula de Florian,

Dificilmente se aplica ao nosso tempo,

Tempo em constante mudança,

Embora se viva também muito da pança.

Mas já dizia Nosso Senhor

Que nem só de pão vive o Homem

É preciso uma Graça maior

Que nos inebrie a alma de amor.

Disse, pois, Florian, com um visualismo

Pleno de graciosismo:

 

«Filósofos atrevidos que a vida passais

A querer explicar o inexplicável,

- Inefável, na grega etimologia,

Que com muito menos fantasia

A latina transformou em indizível -

Dignai-vos observar, por favor,

Do mais sábio dos gatos o traço superior:

Este gato viu um espelho ;

Com alegria,

Saltou para ele, olhou e pensou ver

Um dos seus irmãos que o estava a espreitar.

Quer juntar-se a ele, é detido,

Fica surpreendido,

Julga então o espelho transparente

E passa para o lado contrário

A salto.

Não encontra nada, volta,

E o gato do espelho volta imediatamente.

Reflecte um pouco ; com medo de que o animal,

Enquanto ele dá a volta, se ponha na alheta,

Põe-se a cavalo no alto do espelho,

Duas patas aqui, duas ali; de forma

Que por todo o lado o pode agarrar.

Então, julgando tê-lo agarrado,

Devagarinho inclina a cabeça para o espelho.

Avista uma orelha, duas a seguir,

À direita e à esquerda ele vai lançando

A sua garra pronta a filar.

Mas perde o equilíbrio, cai e nada filou.

Então, sem mais esperar,

Sem mais procurar o que não pode compreender,

Abandona o espelho e volta aos ratos do seu comer:

« Que me importa, diz ele, este mistério entender?

Uma coisa que o nosso espírito

Depois de longo trabalho e esperança

Não alcança,

Não nos é jamais necessária

Por muito que seja extraordinária.»

 

Isto foi o que pensou

O gato de Florian que a meu ver

Não tinha mais para dar.

Na verdade,

Olhem só se o homem desistisse

De querer perceber o que lhe parece inexplicável

- Ou helenicamente inefável -

E abandonasse

Todas as tentativas que fizesse

Para avançar na modernidade!

Nunca se viveria com tanta comodidade

Nem se mataria com tanta eficácia

Ou se roubaria com tanta audácia!

Se o homem fosse de facto

Como o gato

Que abandona o incompreensível do seu incognoscível

Para apenas se cingir

Aos ratos da sua mesa

Nunca chegaria onde vai chegando

Cada vez com mais afoiteza.

Como António Nobre, poderia ter dito:

“Oh! As bombas atómicas! E as de hidrogénio!”

Nesta “Vida” que ele achou de pesadelo,

E mais “tudo o que por aí vai de aflição

Quer se trate de bandalheira, quer de tédio ou mistificação…

Mas realmente,

Por mais que se invente,

António Nobre continua a ter razão

Na sua tristeza e solidão,

E o gato do espelho

De Florian

Talvez também tenha razão

Na sua desistência

De atingir a ciência,

Pois o mundo continua rodando

Com o homem justificando

Falando, falando,

E não mudando

Tal como diz o Gato Fedorento,

Malandro...

E “SÓ” concluindo:

«Foi para ver, coitada! Essa bola de lama

Que pelo espaço vai leve como a andorinha

A Terra!

Ó meu Amor! Antes fosses ceguinha…»

 

  Berta Brás

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2015
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2014
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2013
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2012
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2011
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2010
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2009
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2008
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2007
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2006
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2005
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2004
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D