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A bem da Nação

QUANDO OS MARES ERAM DE PORTUGAL

 

 

O Infante Dom Henrique nas repetidas viagens que ordenava, os seus navegadores não se atreviam a dobrar o cabo Bojador. Doze anos levou nesta insistência, sem nunca o conseguir, porque ... este cabo do Bojador he muito perigoso, por causa de hüa muito grande restingua de pedra que delle saee ao mar mais de quatro ou sinco leguoas... e asy os mareantes que com elles hiam, nam ousaram passar aleem... e como eram acerca do Bojador e hachauam o fundo baixo, que em três braças dauguoa estauam hüa leguoa de terra, e espantando-se das grandes correntes nenhum ousaua de se alarguar ao mar e passar alem d'este parçel, e entam se tornauam á costa de Barberia e de Graada, bonde andauam d’armada pera tomarem alguüas presas com que forrassem a despesa d'armaçam; e por nam passarem o dito cabo o Infante recebia d'isto grande des­prazer... (1).

 

Um dia, Gil Eanes, tendo partido para uma dessas viagens, chega às Canárias e traz, como prova, alguns cativos. O Infante anima-o, incita-o a ir mais longe e, teimando sempre, fá-lo sair para nova viagem, em 1434, em que Gil-Eanes dobra o cabo Bojador, chega à Angra dos Ruivos, desembarca e, regressando, veio contar ao Infante como sairá em a terra sem achar gente, ou pouoação algüa & que lhe parecera mui fresca e graciosa: & que em sinal de não ser tam esterele como as gentes diziâo, traria ali a sua mercê em um barril cheo de terra, hüas hervas q se parecião com outras que cá no Reyno tem flores a que chamâo rosas e de sancta Maria (2).

 

O Infante recebeu-o com imensa alegria, e as modestas ervas, se não foram postas no altar onde fazia as suas orações de cristão, foram-no, com certeza, no que erigira à sua obsidiante ideia, que o novo moto que pensava em adoptar para a sua vida – IDA – melhor definia, e que ele servia com a sua fé de iluminado, e onde, pela sua vontade inque­brantável, as pobres ervas rejuvenesciam e, da mesma forma que as da Rainha SantaIsabel eram a transformação do óbulo que levava no seu regaço, estas na sua simplicidade e pobreza, representavam o imenso valor que as terras de África guardavam.

 

El-Rei D. Duarte também não escondia a sua satisfação e o Infante aproveita a oportunidade e, incita agora Afonso Baldaia, que fora com Gil Eanes, a voltar, dizendo-lhe, para o convencer: se vos achastes rasto d'homens e de camelos, parece que a povoação não é d'ali muito afastada, ou por ventura será gente que atravessa com suas mercadorias para algum porto de mar, onde haja algum ancoradouro seguro para os navios receberem carga...  Baldaia hesita, mas o Infante insiste e com novas razões o convence, pelo que ele parte para a descoberta, levando dois cavalos que o Infante lhe dera, para que ao desembarcar, mandasse alguém neles pela terra dentro, quanto pudessem, esguardando bem a «todallas partes se veryam algüa povoraçom, ou gente que fizesse vyagem er alguu caminho...  (Azurara), mas que não levassem armas de defesa e apenas suas lanças e espadas.

 

Navegaram mais para o sul que na viagem anterior e, desembar­cando, mandou Baldaia dois dos seus montar nos cavalos, e que fossem procurar a povoação. Censuro aquy duas cousas, diz aquelle que screveo esta estorya: a primeira qual maginaçom serya no pensamento daquelles homees, veendo tal novidade, scilicet, dons moços assy atrevidos de coor e feiçooês tam stranhas a elles; ou que cousa podyam cuidar que os ally trouxera, e ainda em cima de cavallos, com lanças e spadas, que som armas que alguü delles nunca vira! Por certo eu magino que a fraqueza de seus coraçoões nom fora tamanha, que se nom teverom com o elles com mayor ardideza se o spanto da novidade nom fora. A segunda cousa he o atrevimento daquelles dous moços, seendo assy em terra stranha, iam allongados de socorro de seus parceiros, e filharem ousyo de cometer tamanho numero, cujas condiçoões em arte de pellejar, eram a elles tam duvydosas  (3).

 

Foram duas crianças de 15 e 17 anos, Heitor Homem e Diogo Lopes de Almeida, os heróis deste valoroso feito. Se a Azurara, conhecedor dos actos de heroísmo, então tão frequentemente praticados pelos nossos cavaleiros, mereceu referência especial o destas crianças, para nós, cinco séculos passados, apesar dessa África ter sido trabalhada com a vida de milhares dos nossos que lá têm ficado com tanta glória, atinge proporções extraordinárias.

 

Que poder imenso de persuasão, que esmagador domínio era o do Infante, para fazer arrostar com todos os preconceitos sobre os perigos da África, que a tradição incutira nos nossos? Já não são os homens, que ele poderia seduzir, mais ou menos, com promessas, excitando-lhe assim o interesse. Eram duas crianças, 15 e 17 anos! criadas e edu­cadas na lenda do sobrenatural, que, magnetizadas e sugestionadas, desembarcam na costa da África de então, que não podemos com­preender o que representaria no seu espírito, quando ainda hoje para parte das nossas populações do interior é qualquer cousa de horrível, e, montando a cavalo, um sorriso nos lábios, a lança no arção da sela, eles aí vão, trotando sete léguas pelo Desconhecido, avançando para o fim do Mundo, que lhes tinham ensinado que acabava ali adiante, onde as nuvens do Céu tocavam a terra que pisavam. Encontram dezanove negros, armados com zagaias, que ao vê-los se juntam em magote e fogem para uns penedos; mas eles avançam, procuram-nos e os negros atacam-n'os com as zagaias, indo ferir um deles num pé. Estão sozinhos num mundo novo para eles, mas não se amedrontam e avançam até tirarem vingança, e só então, já de noite, regressam ao seu navio, sem dúvida guiados e accionados pelo espírito do Infante, que os alumiou na escuridão do seu caminho, pois só de madrugada chegaram à praia donde tinham partido!

 

Rio de Janeiro, 20 de Abril de 2011

 

 Francisco Gomes de Amorim

 

 

(1) Esmeraldo de Situ Orbis de Duarte Pacheco Pereira.

(2) João de Barros - Dec. Iª da Ásia, liv. 1, cap. III.

(3) Azurara - Crónica da Guiné

In: APONTAMENTOS SOBRE A O INÍCIO DOS PORTUGUESES NO CONGO, ANGOLA E BENGUELA – Extraídos de documentos históricos; por Alfredo de Albuquerque Felner.

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