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A bem da Nação

CAMILO CASTELO BRANCO E OS BRAGANÇAS – 1

 

Camilo Castelo Branco

 

A CASA DE BRAGANÇA "AB OVO"

 

  

(Nota: É sabido que CCB não gramava os Braganças por uma razão que ainda não percebi bem. Vou transcrever de CCB uma história que acredito se tenha realmente passado e é, de qualquer maneira, suficientemente curiosa para ser conhecida.)

 

D. Gonçalo Pereira, trigésimo-quarto arcebispo de Braga (de 1326 a 1348), quando estudava as santas teologias em Salamanca, achou compatível a ciência de Deus com as curiosidades filogínicas, gregamente falando.

 

Desta compatibilidade, em que foi parte integrante e constituinte, quimicamente falando, D. Teresa Peres Vilarinho, resultou nascer um menino robusto, como os recém-nascidos do high-life, o qual se chamou Antoninho (ler Álvaro).

 

Este D. Antoninho (ler D. Álvaro) Gonçalves Pereira ordenou-se, foi prior do Crato, e pai de 32 filhos, compatíveis com o priorado. Uma das mães deste rapazio todo chamou-se Eiria de Carvalhal, e das predestinadas entranhas desta menina apojou D. Nuno Álvares Pereira, pai da primeira duquesa de Bragança, casada com o bastardo de D. João I.

 

Desta estirpe, bastantemente gafa de couto danado e bastardias, nos veio a redenção em 1640.

 

Benvindos e louvados sejam aqueles padres arcebispos e priores! Se eles fossem castos ou infecundos, não teríamos Braganças e gemeríamos ainda hoje cativos de Espanha.

 

O arcebispo descansa há 526 anos, em uma capela contígua à porta travessa da sé de Braga. Lá lhe vi, um destes dias, a figura esculpida no mausoléu. Português de lei era aquele padre, posto que se apaixonasse por espanholas. O coração não tem ubi. O escolar de Salamanca lera talvez o filósofo grego que dissera serem todas as mulheres uma. Se a natureza não as discriminara, como estremá-las por fronteiras?

Mas tão português era que articulou em seu testamento que, se um dia a mitra primacial cingisse a fronte de prelado castelhano, fosse arrasada sobre suas cinzas a capela em que ia esperar o clangor da trombeta!

 

Ainda não vi impressa a notícia do desastre extraordinário que motivou a morte de D. Gonçalo. Nem D. Rodrigo da Cunha nem o padre José Correia, biógrafos dos arcebispos bracarenses a souberam ou quiseram divulgar. Parece-me, todavia, que o primeiro, tanto por haver sido prelado como por génio investigador, não ignoraria o que era constante de um processo existente no arquivo da mitra.

 

Eis o caso:

 

Em 1347 foi D. Gonçalo visitar a província transmontana. Chegando a Vila Flor com grande séquito, travaram-se ali os seus criados com os moradores da terra, e de ambas as partes beligerantes morreram quatro homens, e saíram doze mal-feridos. Tangeram os sinos a rebate. Levantou-se a povoação armada. Cercaram a residência do arcebispo, mataram-lhe seis homens, e matariam o próprio prelado, se não fugisse, pendurando-se de uma corda, que lhe não evitou cair de costas no terreiro e contundir-se gravemente. Não contentes os de Vila Flor com a fuga do seu arcebispo, tomaram-lhe as mulas, de envolta com parte dos capelães, e seis criados. Protegido por atalhos, o contuso prelado chegou a Carrazeda de Anciães, povoação importante naquele tempo, fortificou-se no castelo, fez lavrar instrumento público, e enviou-o a D. Afonso IV.

O rei, poucos dias depois, mandou a Vila Flor uma alçada com dous algozes bem escoltados e fez enforcar os sacrílegos que pôde colher na devassa. Esta vingança nem por isso aliviou os incómodos do arcebispo descadeirado na queda. Transferido a Braga, deitou-se para nunca mais se erguer. Quatro meses depois adormeceu no Senhor.

 

E assim morreu, por efeito de tão misérrimo lance, aquele valente do Salado, que deu o exemplo da bravura e legou a espada ao seu quarto sucessor D. Lourenço, o raio de Aljubarrota. (D. Lourenço Vicente, 4ª arcebispo de Braga depois de D. Gonçalo, tomou parte na Batalha de Aljubarrota ao lado de Nun'Álvares, ganhando muita proeminência como defensor do Mestre de Avis).

 

Fora ele o defensor da cidade do Porto, quando o enfurecido amante de Ignez levava na sua vanguarda o incêndio e a devastação. Fora ele ainda quem acaudilhara a hoste de portugueses, quando uma invasão de espanhóis, em desapoderada fuga, deixou o sangue de trezentas vidas nas lanças dos alabardeiros do arcebispo.

 

Santo Deus! Um herói desta polpa chega a Vila Flor, amotina-se a raia-miúda, foge de escorregão por uma corda, cai de cangalhas, amolga o osso sacro, e morre!

 

Mas enfim, maior seria a desgraça de Portugal se ele, antes de lesar as vértebras lombares e regiões vizinhas, nos não tivesse deixado os embriões da casa de Bragança na pessoa do seu filho prior!

 

Joaquim Reis

 

(Compilado de "Noites de Insónia" nº 5, Maio de 1878 - pode encontrar-se este volume no Google)

 


 

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