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A bem da Nação

CONFISSÃO

 

Dizem que na proximidade da morte, as recordações mais antigas vêm à baila no nosso pensamento. Por isso é que eu penso que já devo estar perto da partida para o além, o que aliás não me aflige.

 

E a vida passada corre como um filme no meu pensamento.

 

Socialmente nunca fui nada, não porque fosse infeliz, que não fui. Nunca tive grandes azares na minha vida que decorreu mansa e medianamente contente.

 

Dizia a minha mãe: "Este rapaz não tem vaidade nenhuma!".

Mais tarde, já profissional, diziam colegas meus: "Este P. Reis não tem ambições nenhumas!"

 

E era verdade. Nunca fui chefe de nada nem de ninguém, pela simples razão de que nunca quis sê-lo. Nunca me seduziu a riqueza nem qualquer tipo de poder, real ou imaginário.

 

Nunca quis ser rico, nem importante, não por pureza alma, mas porque eu era indiferente.

 

Embora não gostasse de ser mandado, também nunca mandei em ninguém. Também não tive verdadeiramente chefes. Para o meu feitio sossegadamente anárquico, encontrei a profissão ideal: voar, viajar, para ganhar o meu salário, que não era mau. Nunca pedi aumento. Nunca pedi vantagens. A bordo só encontrei colegas, não superiores nem inferiores.

 

No solo, vivia para a família, em casa. Nunca tomei parte em corridas de ratos. Às vezes tinha saudades dum exercício da profissão para que estudara, e a princípio até fiz tentativas para mudar de vida. Nunca, porém, o fiz -- Graças a Deus! O que teria sido de mim, se o tivesse feito?!

 

Sim, eu devo a Deus o ter tido a vida regrada, sem pressas, sem grandes aflições, que não pudesse suportar.

 

Socialmente não fui nada, porque fui individualista, talvez demais. Era Católico, mas não ia à missa, nem me confessava, nem comungava, nem sequer rezava. Era Patriota, mas nunca apoiei nenhum partido e nenhuma ideologia. E se agora sou Salazarista, é porque estou muito mais elucidado da realidade. Agora compreendo que Salazar não era um ideólogo, nem um demagogo, e muito menos o "ditador abjecto", como lhe apelidou essa mulher política e tola chamadaAna Gomes, que me inspira nojo.

 

E continuo só, isolado. Não vou para a esquerda, nem para a direita, nem para a frente, nem para trás, nem para cima nem para baixo. Eu diria, como disse José Régio no seu conhecido poema: "Não, por aí é que eu não vou!" Não, não vou!

 

Fico-me por aqui, ensimesmado nos meus pobres pensamentos.

 

Sou um ponto que sente, um átomo que cogita.

 

Cogito ergo sum!

 

Homem solto é homem livre!


Joaquim Reis

 

CÂNTICO NEGRO


"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

 

 José Régio - pseudónimo literário de José Maria dos Reis Pereira, nasceu em Vila do Conde em 1901. Licenciado em Letras em Coimbra, ensinou durante mais de 30 anos no Liceu de Portalegre. Foi um dos fundadores da revista "Presença", e o seu principal animador. Romancista, dramaturgo, ensaísta e crítico, foi, no entanto, como poeta. que primeiramente se impôs e a mais larga audiência depois atingiu. Com o livro de estreia — "Poemas de Deus e do Diabo" (1925) — apresentou quase todo o elenco dos temas que viria a desenvolver nas obras posteriores: os conflitos entre Deus e o Homem, o espírito e a carne, o indivíduo e a sociedade, a consciência da frustração de todo o amor humano, o orgulhoso recurso à solidão, a problemática da sinceridade e do logro perante os outros e perante a si mesmos.

 

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