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A bem da Nação

DEVANEIOS

REMINISCÊNCIAS NATALÍCIAS DA MINHA INFÂNCIA

 

 

I

 

   Quem cresceu no seio de uma família cristã, jamais poderá esquecer as reminiscências dos Natais de sua infância: da solenidade da Missa de Galo, do desvelo no arranjo do Presépio, das iguarias típicas da quadra e das festivas iluminações da Casa Grande (ora demolida pelo camartelo da civilização, para abrigar 20 apartamentos em regime de condomínio). A casa paterna situava-se à ilharga esquerda da Igreja de Deus Espírito Santo, de Margão, na linha do Altar-Mor e do seu órgão, que fazia ressoar os melodiosos cânticos religiosos!

 

 

Em meados de Novembro de cada ano, toda a nossa família andava agitada a pensar na melhor forma de festejar o Dia Litúrgico do Menino Jesus, que viera ao Mundo há dois milénios.

 

Recados e mensagens eram enviados ao barbeiro da família para fixar o dia da matança de porco ou leitão, criado no quintal, e dirigir as operações de chamusca, esfolamento e esquartejamento necessários para a preparação dos tradicionais e bem apetecidos pratos de carne à moda goesa, com ingredientes de temperos e cheiros orientais adicionados às receitas culinárias que os missionários portugueses haviam trazido do menu caseiro das freguesias donde eram oriundos.   

 

Mulheres-a-dias, uma doceira e sua ajudante eram expressamente contratadas para ajudar a nossa mãe na preparação de doces variegados, onde sempre reinavam a bebinca e o bolo inglês (cake), numa época onde tais guloseimas não apareciam à venda. Ela via-se obrigada a trabalhar bem duro e dirigir os trabalhos numa espaçosa cozinha com duas portas e duas bem rasgadas janelas, sem evitar a sufocante fumaça de quatro fogões alimentados a toros de madeira, vendidos pelos lenhadores das Matas de Estado.

 

Ultimados os selectos doces de Natal, ela aproveitava da presença da doceira e de sua ajudante para fazer conservas doces de variados frutos da época (bananada, goiabada)  para suplemento alimentar dos próximos meses, tudo devidamente embalado em latas vazias de leite em pó da época.

 

Desse remoto passado perdido na penumbra ressalta à memória que aos jovens da família eram confiadas duas tarefas: a organização dum presépio com a Sagrada Família, em marfim, tirada do Oratório da casa, e a confecção dos animais para o presépio, feitos de massa de farinha de trigo impróprio para consumo e não levedada encomendada à vizinha padaria, aos quais se colocavam olhos de vidros ou de sementes. Os animais encomendados eram: um burro, uma vaca, uma cabra e um cão, acomodados à volta da manjedoura, e figurando ao lado de alguns pastores feitos de folha metálica de Flandres.

 

Outra grande tarefa era a iluminação da fachada da Casa Grande com estrelinhas e uma estrela grande com cinco pontas, todas feitas com vimes de bambú, forradas a folhas de papel de cores diversas, e cada uma com uma velinha de estearina a iluminar a fachada da casa. Dos dois lados da grande escadaria estendia-se uma varanda em cujos parapeitos se colocavam pequenas velas de estearina. Por cima dessas velinhas também se encontravam suspensos balões e lanternas venezianas. Inegavelmente, aquela Casa Grande era a mais bela e ricamente iluminada do casario que se estendia na época pela Rua do Norte, mais tarde chamada Rua Mons. Ganganelli Rebelo.

 

II

 

   Pelas 21:00 horas do dia 24, tinha lugar a Ceia de Natal, a que não faltavam, além de outros pratos requintados, o balchão, o vindalho e o sarapatel de porco. Acabada a Ceia, os adultos e os jovens vestiam-se para ir à Igreja para assistir a imponente celebração litúrgica da Missa de Galo.

 

Na manhã de Natal nossa mãe com crianças, aia e outro pessoal menor iam à Igreja, assistir à Missa, donde regressavam pouco antes do meio-dia, depois de curtas visitas  aos vizinhos a quem desejava um Santo e Feliz Natal. Pelas 13 horas era servido à Família um lauto jantar.

 

O pessoal menor era reunido e contemplado com modestas prendas natalícias (geralmente peças de vestuário, xailes e cobertores), pelas 15 horas. Nesse dia era servido a todo o pessoal um rancho farto e melhorado, com pratos de carne de galinha, de peixe (cação), de ambott-tic, e alguns doces e bolinhos.

 

Ao Chá das Cinco do dia de Natal, para o deleite da petizada, eram servidos os bojás,   fritos doces diversos e um doce típico goês chamado patolis, embrulhado em folhas de açafrão e que era uma delícia cuja evocação criava água na boca.

 

Obrigado Santo Deus por me ter proporcionado evocar com saudade as reminiscências natalícias de minha infância na passagem do 97º Natal da minha vida!

 

Alcobaça, Natal de 2012

 

Domingos Soares Rebelo: "S. Francisco Xavier esteve em Turquel ... Domingos José Soares Rebelo

 

Pelo comentário do Dr. Ferdinando dos Reis Falcão se conclui que a foto de cima está errada. Uma vez que aínda não conheço pessoalmente a cidade de Margão, espero que a seguinte esteja correcta.

Henrique Salles da Fonseca

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