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A bem da Nação

Conversa fiada – 4ª parte



Resumo da 3ª parte: Portugal deve reduzir a actual dependência energética do petróleo, deve entrar no nuclear e a barragem de Foz Côa deve ser construída; as pontes e barragens têm um impacto ambiental ultrapassável e a missão inultrapassável de servir o homem; a história do buraco do ozono parece que está muito mal contada; a indústria deve passar a poder defender-se do ambiente que a rodeia e a redução do impacto ambiental da indústria deve ser condicionada por parâmetros económicos.

Jornalista: - Apetece-lhe falar sobre a morte de Yasser Arafat e sobre a reeleição de Bush?
Economista: - Apetece-me falar sobre os temas que Você trouxer à colação. Se eu quisesse condicionar os temas, então não teríamos uma conversa fiada no sentido de que falamos ao longo do fio e passaríamos a ter uma encenação em que ninguém poderia confiar. Em vez de fiada seria desconfiada. Falemos, pois de Arafat e de Bush mas na sessão anterior deixei um assunto em suspenso e disse que mais lá para a frente falaríamos dele.
Jornalista: - Quer recordar-me do que se trata?
Economista: - A propósito da política dos três R’s que Você citou, eu disse que a reutilização era um erro flagrante.
Jornalista: - Ah! sim, já me recordo. Então porque é que a reutilização é má?
Economista: - Antes do mais, centremos a questão nos materiais de embalagem pois é neles que situo a minha opinião. A política dos três R’s (redução, reutilização e reciclagem) tem que ser explicada. Por redução, entende-se que os materiais de embalagem devem ser reduzidos no sentido de que devem ser dispensados os papéis e papelinhos, os laços e laçarotes, os sacos e saquinhos; a embalagem deve ser a necessária para o conveniente acondicionamento do produto; tudo o mais (enfeites, etc.) deve ser proibido e o cliente deve ter o direito de se desembaraçar de tudo o que considere supérfluo e não pagar o que lhe pareça dispensável. Por reutilização, entende-se que uma mesma embalagem deve servir sucessivamente até que deixe de oferecer condições de fiabilidade. Por reciclagem, entende-se a reentrada da embalagem já utilizada no ciclo produtivo de modo a que sirva de matéria prima a uma nova embalagem em tudo igual e destinada à mesma função.
Jornalista: - Então, o que é que está errado com a reutilização?
Economista: - Em primeiro lugar, uma embalagem serve para embalar alguma coisa e grande parte destes temas tem a ver com os produtos alimentares. Em segundo lugar é necessário que a embalagem seja reutilizável. E para embalar um produto alimentar, é fundamental cumprir as condições de higiene que todos consideramos necessárias e que o legislador já pôs em letra de forma. Portanto, na reutilização, é fundamental higienizar a embalagem em vias de reutilização. E, dentre todas as embalagens de alimentos, as que podem ser reutilizadas são as de vidro; as outras não o são. Já imaginou o problema que poderia surgir se entre duas utilizações correctas, uma garrafa fosse utilizada para levar urina ao laboratório de análises?
Jornalista: - Que porcaria! Como é que evita isso?
Economista: - Não se evita mas remedeia-se com uma lavagem com soda cáustica.
Jornalista: - Concordo que a reutilização é uma asneira grosseira.
Economista: - O problema está em que com a reutilização, vamos encharcar o ambiente com soda cáustica e se ela não for impecavelmente retirada depois da lavagem, então aparecem os tais consumidores que compram uma garrafa de água e ficam queimados sem saberem ler nem escrever.
Jornalista: - Então é disso que se trata nas notícias que vêm a lume?
Economista: - Não sou muito esperto nessa matéria da lavagem das garrafas mas creio que sim, que é disso que se trata.
Jornalista: - Mas quem foi que legislou uma burrada dessas?
Economista: - Não adjectivo a legislação e quem a produziu foi o legislador.
Jornalista: - Mas sabe quem foi?
Economista: - Claro que sei mas não me parece importante referi-lo. Basta saber que vai ter que se mudar tudo isso e relançar a reciclagem como a solução ecológica por excelência.
Jornalista: - Mas o que é que os ecologistas dizem a tudo isso?
Economista: - Os ecologistas falam por eles; eu falo por mim e claramente não me revejo nesse clube especial.
Jornalista: - Estou a ver que sabe mais do que nos conta.
Economista: - Se vier a propósito, conto.
Jornalista: - E não vem agora?
Economista: - Agora apetece-me falar do Arafat e do Bush.
Jornalista: - Mas promete que volta ao assunto das embalagens?
Economista: - Se se proporcionar, volto.
Jornalista: - Bom, então vamos lá ao Arafat e ao Bush.
Economista: - Trata-se duma mera coincidência, isso de um morrer e o outro ser reeleito mas parece-me que se trata de dois factos importantes para o mundo inteiro. Se a Al Kaeda ataca todos os que pactuam com Israel, então estamos em presença de dois factos que condicionam a política mundial.
Jornalista: - Mas o facto de Ariel Sharon estar no poder também não facilita as coisas.
Economista: - Há dois mil anos que aquela gente, tanto judeus como palestinianos, não facilita a vida a ninguém.
Jornalista: - Então o que é que se vai agora passar?
Economista: - Bem, não consultei o oráculo lá da minha rua mas parece-me que o desaparecimento de Arafat pode ter um resultado equiparável ao que ocorreu em Angola com a morte de Savimbi. Recordo a primeira condição kantiana para que se alcance a paz perpétua: não deve considerar-se como válido nenhum tratado de paz que se tenha feito com a reserva secreta de elementos para uma guerra futura.
Jornalista: - E isso significa que . . . ?
Economista: - . . . que não se pode negociar uma coisa e pensar fazer o contrário mal se virem as costas.
Jornalista: - E é isso que se tem passado?
Economista: - Que se passou durante muitos anos em Angola e que se tem passado no Médio Oriente também.
Jornalista: - Então, acha que agora vai ser possível fazer a paz em Israel?
Economista: - Não, desejo que a paz se estabeleça na região palestina.
Jornalista: - E não é a mesma coisa?
Economista: - Não, não é nada a mesma coisa: Israel situa-se na região palestina mas nem toda a região palestina é Israel. Ao falar em Israel está-se a falar de um dos lados em conflito na região palestina. Portanto, eu não vejo como seja possível fazer a paz de um lado e a guerra do outro. Você não consegue bater palmas se só tiver uma mão.
Jornalista: - Uma mão lava a outra?
Economista: - Se quiser.
Jornalista: - Mas a tal reserva mental nos tratados era de Arafat?
Economista: - Não estou suficientemente dentro dos assuntos para poder dizer isso mas faço votos para que a inevitável mudança de líder na OLP seja pretexto para lá pôr quem seja aceitável como negociador pelo outro lado. E não deixa de ser oportuna a retirada israelita da Faixa de Gaza. Tudo ao mesmo tempo – desmantelamento dos colonatos judeus da Faixa de Gaza e retirada das reservas mentais por parte da OLP – poderão ser os ingredientes necessários e suficientes para que se alcance a paz na região. Oxalá que os palestinianos não se engalfinhem todos agora a discutir quem assume a liderança. Isso seria um fartote de riso para a outra parte.
Jornalista: - E sobre Bush?
Economista: - Eu creio que o facto de Bush ter sido reeleito é relativamente indiferente para nós, os não americanos.
Jornalista: - Não preferia Kerry?
Economista: - Sim, por ser casado com uma portuguesa. Era giro ter uma primeira dama americana a falar português como Você e eu.
Jornalista: - Só por isso? Não acha que os democratas eram melhores?
Economista: - Agora sou eu que faço uma pergunta: qual foi a guerra melhor? A do Vietname ou a do Iraque?
Jornalista: - Não percebo.
Economista: - A do Vietname foi feita por Kennedy que era democrata; a I Guerra do Iraque foi feita por Bush I e a II Guerra do Iraque está a ser feita por Bush II, ambos republicanos. A guerra de Granada foi feita pelo republicano Ronald Reagan e a da Somália por Clinton que é democrata.
Jornalista: - E daí conclui que . . . ?
Economista: - Daqui concluo que, em política externa, os americanos são muito uniformes e não se vê uma diferença estrutural nas políticas de uns em relação aos outros. Fazem uma análise sobre o que são os interesses americanos e quando estes são ameaçados, cortam à bruta pelo caminho que consideram repor esses interesses. Dir-me-á que a definição de interesse pode variar. Mas varia na América como pode variar em qualquer outro lugar quando a mesma questão se coloca a duas pessoas diferentes. Poderá haver perspectivas diferentes por se tratar de pessoas diferentes mas não por haver doutrinas diferentes para cada uma dessas pessoas. Aliás, é sabido que não há diferença de doutrinas entre republicanos e democratas nem a nível de políticas internas e muito menos no que se refere à política externa. A saída de Colin Powell vai produzir uma maior homogeneidade na imagem da Administração Bush II mas não vai trazer qualquer nova perspectiva política pois essa é definida pelo Presidente e esse não muda. Talvez seja, isso sim, o modo de começar a preparar uma forte candidatura republicana à Casa Branca, agora que Bush II inicia o seu segundo e constitucionalmente último mandato.
Jornalista: - Acha que Colin Powell vai ser o próximo candidato presidencial republicano?
Economista: - Hoje, o oráculo lá da minha rua estava fechado. Não sei.
Jornalista: - Mas acha que Kerry mantinha a guerra no Iraque?
Economista: - Na campanha ele nunca disse que ia acabar com ela. Há coisas que não podemos esquecer: o Saddam Hussein tinha ameaçado cortar com o Dólar americano e passar-se para o Euro e isso em cima das maiores reservas mundiais de petróleo hoje conhecidas. Acha que o Kerry ia deixar isso passar-lhe ao lado e assobiar virando a cara a disfarçar? Acha que o petróleo por remédios que os franceses estavam a explorar se podia manter eternamente? Acha que essa política era moral?
Jornalista: - Mas a actual situação é moral?
Economista: - Também não tem moral nenhuma e eu continuo a acreditar que as sociedades islâmicas não estão preparadas para uma democracia à moda ocidental. Falta-lhes uma Revolução Francesa republicana e laicizante como aquela de que somos herdeiros no Ocidente.
Jornalista: - E acha que vai haver essa revolução?
Economista: - Mais do que achar, desejo-a.
Jornalista: - Então como vai ser?
Economista: - Temo que seja necessário manter a pantomima democrática no Iraque mais uns tempos para que os Estados Unidos possam sair com uma situação energética mais ou menos ajeitada aos seus interesses a que se seguirá um Musharraf qualquer de chicote em punho, que no Irão os moderados consigam paulatinamente passar os fundamentalistas, que no cerne do problema o verdadeiro Musharraf ou um seu sósia se mantenha. Mas espero que não se enganem e não ponham lá outro qualquer General Zia-ul-Haq que ainda foi pior que um regimento de fundamentalistas.
Jornalista: - Já reparou que voltámos outra vez aos árabes?
Economista: - Já reparou que continuamos a tratar de assuntos importantes?
Jornalista: - Claro. Mas parece que é bom fazermos agora um pequeno intervalo.
Economista: - Muito bem, até logo.

Lisboa, Novembro de 2004

Henrique Salles da Fonseca

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