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A bem da Nação

O MEU AVÔ E SALAZAR – 11

 

Liberto do mundo das sombras, tudo parecia resolvido; mas não era assim. O destino reservava-lhe ainda duras provações. Mal haviam decorridos dois anos sobre o seu regresso à vida militar, quando o ministro do Interior, Pais de Sousa, concunhado do Prof. Salazar, dá início a uma remodelação da GNR, que visava transformá-la na força militar mais bem equipada e remunerada do país. A diferença de status entre a oficialidade da GNR e a da guarnição originou, como não podia deixar de ser, * mau estar * entre os militares. Tanto mais que Salazar continuava a recusar verbas para o rearmamento do Exército. A situação agrava-se com o projecto da criação da “Legião Portuguesa”.

 

Os Altos Comandos procuram apoiar-se em Carmona para repor a situação. Em 15 de Abril, aproximando-se o final do mandato do Presidente da República, Vicente de Freitas, ministro da Guerra, encabeça uma manifestação de solidariedade ao general Carmona que se reveste de tons de oposição ao Prof. Salazar. O Presidente do Conselho exige a demissão do ministro que é substituído pelo general Luís Alberto de Oliveira. A agitação porém continua. Em Outubro seguinte, perante sinais de crescente desassossego entre os militares, o Prof. Salazar convoca os generais Raul Esteves e Domingos de Oliveira para os ouvir sobre o que se passava no Exército. Ambos lhe afirmaram que era real o descontentamento entre os militares A intervenção do meu Avô neste episódio daria motivo aos usuais boatos, que Franco Nogueira reproduz[1], dando a entender que a conversa com Salazar teria assumido feição próxima da “contagem de espingardas”. Franco Nogueira faz esta insinuação sem citar as fontes que o autorizariam.

 

Embora conscientes de que a interpretação de Franco Nogueira não se ajusta à personalidade do meu Avô, procuramos na documentação que compõe o espólio esclarecimentos sobre esta matéria e nada encontramos que corrobore as afirmações do biógrafo de Salazar. Tão pouco a versão em causa se ajusta aos factos subsequentes, e menos ainda corresponde à atitude tomada pelo meu Avô na crise de 38, adiante referida. Somos assim levados a admitir que, na ocasião, Domingos de Oliveira, como era seu hábito, depois de ouvidos os seus camaradas, terá transmitido uma opinião objectiva e um conselho leal fundado na prudência. Era este o seu estilo. Note-se, em abono desta interpretação, que o Ministro do Interior foi afastado e substituído por um general. Coube esse papel a Linhares de Lima.

 

A partir da Guerra Civil de Espanha, o regime português adoptou um cariz pronunciadamente ideológico.

 

Impulsionavam esta evolução os ventos europeus e a exaltação dos seus cultores em Portugal. As forças armadas, por força da sua posição na estrutura do Estado, cedo ficariam enquadradas nos critérios totalitaristas. Já não se tratava de garantir “a paz na terra aos homens de boa vontade”; tratava-se sim de transferir para uma minoria o poder de julgamento e critica, de abolir sub-culturas específicas e tudo submeter a uma cultura de Estado uniforme. No Exército, esta tarefa caberia ao capitão Santos Costa, entretanto elevado pelo Prof. Salazar ao posto de Subsecretário de Estado da Guerra. Santos Costa era um beirão, granítico como Salazar, mas sem a fascinante riqueza de espírito do Professor coimbrão. “O Sub”, como passou a ser conhecido, arquitectou uma reforma radical da instituição militar.

 

Os comandantes das unidades da Região ficaram natural e gravemente preocupados com as medidas draconianas anunciadas e o seu presumível efeito na moral das tropas. Domingos de Oliveira, ainda no Governo Militar e fiel à prática de obter o consenso da oficialidade sobre qualquer matéria de natureza corporativa, promoveu uma reunião dos comandantes. Dessa reunião resultou o pedido ao Governador Militar para que desse ciência ao governo das preocupações mais graves manifestadas pelos comandantes das unidades. O Governador procurou “o Sub” mas este recusou-se pura e simplesmente a considerar as observações feitas; limitou-se a reafirmar o seu propósito inabalável de prosseguir com as reformas tal como estavam enunciadas. O meu Avô decidiu, em última análise, procurar o Ministro da Guerra, ao tempo, o próprio Prof. Salazar, que o recebeu prontamente em São Bento. Antes porém de lhe dar tempo para expressar o objectivo da sua visita, o Prof. Salazar disse-lhe “já sei ao que vem” e seguidamente enunciou a lista das recomendações formuladas pelos comandantes. O meu Avô compreendeu que o seu tempo se extinguira. Declarou apenas: “uma vez que V. Ex.ª já está informado, a minha missão terminou”. Retirou-se e dirigiu-se imediatamente ao Quartel-General onde assinou o seu pedido de passagem à reserva. Era o dia 7 de Janeiro de 1938. Ali terminava, aos 64 anos, a carreira militar a que tinha votado quase 49 anos da sua vida. Três dias depois, o Prof. Salazar reúne-se com os altos comandos no Ministério da Guerra e procura uma composição. O velho general limitou-se a esclarecer que a sua decisão era irrevogável[2]. Não houve zanga, nem amuos. Da sua parte, houve apenas consciência de que os novos trilhos que seduziam o Prof. Salazar contrariavam as suas mais caras convicções. Que se confiasse a um capitão o encargo de elaborar a reforma do Exército invalidava de uma só penada toda a cultura militar em que se formara e que respeitava. Os tempos eram outros.

 

FIM

 

 Luís Soares de Oliveira.jpg Luís Soares de Oliveira



[1]
            [1] Salazar,  vol. II, pag. 285.

 

[2]
            [2] Conforme carta de Salazar a Carmona transcrita por Franco Nogueira em Salazar, vol. III, página 143

 

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