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A bem da Nação

O MEU AVÔ E SALAZAR – 7

 

O meu Avô admirava na pessoa do Prof. Oliveira Salazar o governante probo que expulsara os vendilhões do templo das finanças do Estado. Por seu turno, o Professor de Coimbra, segundo o citado testemunho de Marcelo Caetano, apreciava em Domingos de Oliveira a figura do oficial general que nunca se havia envolvido activamente em política. Estaria talvez aqui a chave do desenlace da crise vivida pela Ditadura Militar em Janeiro de 1930.  No seguimento da queda do Governo do general Ivens Ferraz, causada por um desentendimento entre o Presidente do Ministério e o seu Ministro das Finanças, o Presidente da República convidou o coronel Passos e Sousa para formar governo. Cinco dias penou o indigitado sem conseguir estabelecer uma composição ministerial aceitável pelo Presidente Carmona. O Presidente fazia questão que o Prof. Salazar continuasse no governo. Desconhece-se, embora se possa depreender, a posição assumida pelo Prof. Salazar, nesta fase. Passos e Sousa desiste de continuar os seus esforços na tarde de 20 e, nessa noite, o Presidente Carmona inesperadamente convoca o general Domingos de Oliveira, o almirante Magalhães Correia e o Prof. Salazar para uma reunião em Belém. Ao cabo de nove horas[1] de confabulações, Domingos de Oliveira aceita formar governo e Salazar declara-se pronto a participar, como Ministro das Finanças, no governo de Domingos de Oliveira. Ficou aí decidido que o governo “asseguraria a estabilidade indispensável para a realização das reformas necessárias à sobrevivência do país”. Iria assim começar o período mais trabalhoso e ingrato da vida de Domingos de Oliveira. A sua capacidade de lidar com contrariedades seria posta à prova até ao limite.

 

Está na natureza das cousas, que nem o Professor esperava de Domingos de Oliveira qualquer contribuição para a elaboração da doutrina política do Estado Novo, nem o general estava disposto a abandonar a linha de imparcialidade política que os militares se haviam comprometido a respeitar. Nestas condições, o Governo adquiriu um cunho híbrido que forçosamente o condenava à transitoriedade. E só assim se compreende que o meu Avô tenha aceite um papel tão ao arrepio da sua maneira de ser. A política é o reino da ambiguidade, das sombras, enquanto o dele era do reino da luz e da inteireza A chefia do governo apresentava-se pois como a pílula mais amarga que lhe poderiam ter feito engolir. Mas tendo sido obrigado, por escrúpulos de consciência, a assumir um papel político, fê-lo à sua maneira: com coragem, isenção, critério, tacto e equidade. 

 

Além da reposição da ordem pública, o seu governo ficaria assinalado pela elaboração da Constituição, por importantes obras no sector das infraestruturas, entre as quais, destaca-se a construção do porto de Leixões, decisão que lhe mereceria mais tarde uma manifestação de gratidão da Câmara Municipal do Porto, pelo lançamento e início de execução do plano de rearmamento naval e pelas primeiras medidas tomadas em defesa dos trabalhadores portugueses e de apoio aos exportadores.

 

O Governo notabilizou-se imediatamente pela presença do Chefe do Estado e do Chefe do Governo numa cerimónia religiosa. Pela primeira vez desde a implantação da República, o poder temporal manifestou o seu respeito pela instituição milenária da Igreja. Tratava-se do "entronamento" do Cardeal Cerejeira, realizado com grande pompa, na Sé Patriarcal, no dia em que se completavam 22 anos sobre o regicídio. Acabou, aí e então, a perseguição religiosa. Aos portugueses era agora permitido glorificar a Deus, tanto em privado como em público[2].

 

(continua)

 

Luís Soares de Oliveira.jpg Luís Soares de Oliveira



[1]
            [1] Segundo o Diário da Manhã 22/01/30..

 

[2]
            [2] Dentro deste espírito, o Governo restabeleceu a procissão de Nossa Senhora da Saúde, padroeira da Artilharia, que durante séculos percorrera com grande aparato e emoção as ruas do popular bairro da Mouraria, até ser banida pela lei de Afonso Costa. Restabeleceu-se assim uma tradição tão do gosto popular lisboeta. A sua devoção à Santa padroeira dos militares levaria a que, no final da sua vida, Domingos de Oliveira pedisse que o amortalhassem, colocando por cima da farda a opa da respectiva Irmandade de que era membro.

 

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